«Podia encaixar muito bem na tática do Sporting e também na do Benfica» – Hildeberto Pereira

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A casa de partida de Hildeberto Pereira – ou simplesmente Berto – não tinha telhas douradas. De um bairro pobre de Odivelas, Berto Pereira deu passos seguros, tornando-se um dos epítomes do projeto da formação do Benfica. Entretanto, muitos dos seus colegas do Seixal pisaram o relvado do Estádio da Luz, e partiram para outros voos. Berto, porém, andou em avanços e recuos, tornou-se globetrotter – conheceu Inglaterra, Polónia e China –, e só à beira Sado foi capaz de recuperar o sorriso que sempre se lhe conheceu. Hoje, no Kunshan FC, na 2.ª divisão da China, tenta, uma vez mais, ganhar balanço para o futuro – sempre com os grandes da Europa (portugueses e não só) na mira.

Fonte: Vitória FC

«O meu primeiro treinador foi o Vítor Almeida, pai do André Almeida. Na primeira vez que me viu, disse-me logo: “-Vou fazer-te jogador”»

Bola na Rede: Bom dia, Hildeberto. Ou melhor, boa noite. Aí já é noite, não é?

Hildeberto Pereira: Olá, boa noite. Sim, já são 21h00.

Bola na Rede: Posso tratar-te por Berto. É mais fácil?

Hildeberto Pereira: Sim, claro… (risos) É mais.

Bola na Rede: A maior parte das pessoas talvez não saiba, mas, ainda antes de seres jogador de futebol profissional, conhecido pelo público, passaste a infância na Quinta do Barruncho, em Odivelas, num contexto muito difícil, de pobreza. Foi ali que nasceste e cresceste. Como é que recordas esses tempos?

Hildeberto Pereira: Hoje em dia, com 25 anos, sinto muito orgulho. Cresci com grandes amigos, que trago comigo hoje em dia, e até costumo dizer que, afinal, até éramos felizes e não sabíamos. Claro que é um contexto diferente das pessoas que nascem na cidade. Claro que não tinha muitas coisas para fazer e as dificuldades eram muitas. O meu pai, por exemplo, trabalhava muito para ajudar-nos e eu ficava a brincar na rua com os meus amigos até muito tarde. Era ainda muito novo para isso acontecer e, então, colocaram-me num colégio [Casa do Gaiato de Setúbal]. Mas é assim… não é só naquele bairro, mas todos os bairros sociais. Há dificuldades, não há dinheiro, é difícil estabelecermo-nos numa casa. Mas o mais importante foi ter perto de mim família e amigos que nunca me deixaram seguir por maus caminhos e sempre me deram bons conselhos. Aliás, apesar do contexto, tive muitos amigos de infância que são bons exemplos, seguiram bons caminhos, e têm hoje uma vida normal. Têm uma vida boa.

Bola na Rede: E quando é que o futebol começa a fazer parte da tua vida?

Hildeberto Pereira: Desde sempre. Eu quando estava no bairro já jogava à bola, com os amigos. Mas é engraçado, que até nem tinha muito jeito. Era sempre guarda-redes… (risos)

Bola na Rede: Não me digas que te punham na baliza porque tinhas peso a mais?

Hildeberto Pereira: Não, não… (risos). A verdade é que não jogava lá muito bem. Depois, quando cheguei ao colégio, comecei a jogar à bola todos os dias, quase 24 horas por dia. E foi aí, a partir dessa altura, que comecei a ter o sonho de aprender a jogar futebol. Hoje, posso dizer que me tornei 90% do jogador que sou graças aos tempos que passei a jogar à bola no colégio. 

Bola na Rede: E depois começaste a praticar futebol nos clubes daquela zona: Ponte Frielas, Odivelas, Loures… Quando é que te começaste a aperceber que poderias chegar a profissional?

Hildeberto Pereira: Só comecei a pensar nisso quando entrei para o Ponte de Frielas. O meu primeiro treinador foi o Vítor Almeida, pai do André Almeida [jogador do Benfica]. Ele, na primeira vez que me viu, disse-me logo: “– Vou fazer-te jogador”. Fiquei dois anos e meio com ele, aprendi muitas coisas, e foi aí que comecei a focar-me em ser cada vez melhor e em tornar-me jogador de futebol profissional. O Vítor Almeida foi, realmente, uma das pessoas mais importantes com quem me cruzei ao longo da minha carreira. Devo-lhe muito. 

Bola na Rede: E surge o Benfica. És ainda jovem e vais para a equipa dos juvenis. Como é que surgiu essa oportunidade?

Hildeberto Pereira: Eu estava no Loures e, nesse fim-de-semana, ia jogar contra o Benfica. E lembro-me perfeitamente de estar na escola com o Valter, um dos meus amigos de infância, na sexta-feira, véspera do jogo, e de lhe dizer que ia marcar três golos. Ele e os meus colegas só me disseram: “– Tu estás é maluco!”. Mas eu continuava a dizer-lhes: “– Juro, vou fazer três golos! Vocês vão ver. Vou jogar contra o Benfica e, na segunda-feira, vou chegar aqui e vou dizer-vos que marquei três golos”. Sinceramente não sei o que senti… o que me deu para estar a dizer aquilo… Mas estava com um feeling muito forte, e insisti naquilo. Foi dito e feito. Marquei mesmo três golos e surgiu logo aí o interesse do Benfica. Ainda cheguei a ir treinar ao Sporting, só que, neste caso, o Sporting preferia que eu ficasse no Loures até ao final da época…

Bola na Rede: E, nestes momentos, quando um jovem jogador é pretendido por dois grandes clubes – como Benfica e Sporting –, o coração também tem uma palavra a dizer?

Hildeberto Pereira: Sim, claro. Desde pequenino que sou benfiquista. E o meu pai também é benfiquista. E isso acabou por fazer a diferença.

João Amaral Santos
João Amaral Santoshttp://www.bolanarede.pt
O João já nasceu apaixonado por desporto. Depois, veio a escrita – onde encontra o seu lugar feliz. Embora apaixonado por futebol, a natureza tosca dos seus pés cedo o convenceu a jogar ao teclado. Ex-jogador de andebol, é jornalista desde 2002 (de jornal e rádio) e adora (tentar) contar uma boa história envolvendo os verdadeiros protagonistas. Adora viajar, literatura e cinema. E anseia pelo regresso da Académica à 1.ª divisão..                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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