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“Joguem com alma” – foi isto que Dmitri Alenichev pediu aos seus jogadores antes da partida com o FC Ufa da passada sexta-feira, jogo a contar para a primeira ronda da RPL (Primeira Liga Russa). De acordo com o capitão de equipa do Spartak Moscovo, Artem Rebrov, o seu novo treinador tem passado aos jogadores uma mensagem de tranquilidade, ao mesmo tempo que lhes tenta reacender a paixão por jogar bom futebol.

O Spartak Moscovo está actualmente a atravessar um período decepcionante da sua longa e gloriosa história. O gigante moscovita não vence a liga russa desde 2001, nem sequer uma competição oficial desde 2003. Esta longa travessia no deserto pareceria algo altamente improvável se estivéssemos a olhar para os triunfos dos Народная команда (equipa do povo) durante a década de 1990 e para as fantásticas campanhas realizadas, dentro e fora de portas, durante os anos 80.

Foi, curiosamente, uma abrupta descida de divisão e consequentes mudanças no departamento técnico em 1976 que possibilitaram ao Spartak reformular-se enquanto equipa e, ao mesmo tempo, marcar uma posição firme no futebol da ex-União Soviética. A chegada de Konstantin Beskov, um homem claramente à frente do seu tempo, permitiu ao Spartak vencer a 2ª divisão do futebol soviético na época seguinte à sua despromoção e duas temporadas depois sagrar-se campeão da Liga Suprema do Futebol Soviético (Высшая лига), quebrando assim um penoso jejum de uma década. Beskov mudou o Spartak para sempre e provocou, ao mesmo tempo, um autêntico turbilhão no futebol do antigo império soviético. O gigante moscovita deixou de ser aquela valente equipa que se afirmou, e de que forma, durante o pós-2.ª Guerra Mundial, e que foi oscilando entre o bom e o medíocre durante mais de uma década, para passar a ser um autêntico tormento à hegemonia do Dynamo Kiev de Valeriy Lobanovskiy e um acérrimo candidato ao título época após época.

A equipa foi amadurecendo e, após anos de trabalho intenso, já em plena Glasnost, o Spartak sagrou-se campeão em 1987, numa campanha durante a qual apenas conheceu o sabor da derrota por três vezes. O Spartak tinha, à época, uma equipa fantástica e era considerado por muitos a equipa que jogava o melhor futebol no antigo bloco de leste. Conduzidos dentro de campo pelo verdadeiro maestro soviético, Fyodor Cherenkov, os Красно-белые (os vermelhos e brancos) punham em prática aquilo que décadas mais tarde veio a chamar-se tiki-taka e que não era mais nem menos do que uma versão melhorada e mais elaborada do Passovotchka, do lendário Boris Arkadyev, que Konstantin Beskov e, mais tarde, Oleg Romantsev desenvolveram na primeira equipa e na academia do Spartak.

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Konstantin Beskov – O homem que revolucionou o futebol do Spartak Fonte: SportStories
Konstantin Beskov – O homem que revolucionou o futebol do Spartak
Fonte: SportStories

Numa entrevista a um jornal desportivo espanhol há alguns anos atrás, o antigo jogador do Spartak, do SL Benfica e do Celta de Vigo, Aleksandr Mostovoi, que trabalhou com Beskov e Romantsev no gigante moscovita, afirmou que a equipa jogava praticamente de olhos fechados e muito raramente necessitava de olhar para o lado para saber se o seu companheiro de equipa estava lá para receber a bola. Esse Spartak que Mostovoi descreveu foi precisamente a equipa que, na época de 1990-91, atingiu as meias-finais da extinta Taça dos Clubes Campeões Europeus, caindo nas mãos do poderoso Olympique de Marseille de Jean-Pierre Papin e Abédi Pelé. Essa gloriosa caminhada ficou marcada pela estrondosa vitória por 3-1 no Santiago Bernabéu, com dois golos de Dmitri Radchenko e um de Valeri Shmarov, e pela eliminação do SSC Napoli de Diego Armando Maradona na marcação de grandes penalidades num Central Lenin Stadium em Moscovo (actual Luzhniki) a rebentar pelas costuras, com mais de 86 mil espectadores nas bancadas. Foi precisamente Aleksandr “El Zar” Mostovoi que marcou o penálti decisivo nesse jogo, aproveitando da melhor forma o falhanço de Marco Baroni e levando ao desespero um Diego Maradona que raramente foi capaz de pôr à prova a bem organizada defesa moscovita.

Aleksandr Mostovoi e Diego Maradona no Spartak vs Napoli de 1991 Fonte: Spartak World
Aleksandr Mostovoi e Diego Maradona no Spartak vs Napoli de 1991
Fonte: Spartak World

A queda da União Soviética e as mudanças geo-políticas que assolaram a então mais extensa nação do mundo tiveram também um impacto profundo no futebol e em todas as outras modalidades desportivas. Contudo, o Spartak Moscovo cresceu consideravelmente no meio da anarquia que foram os primeiros anos de “democracia” de Boris Yeltsin e a equipa moscovita, liderada pela genialidade errática de Oleg Romantsev, conquistou a então recém-criada Liga Russa nove vezes entre 1992 e 2001. O histórico treinador russo e antigo jogador do Spartak, que foi também presidente do clube durante um período considerável de tempo, conseguiu construir e reconstruir a equipa, sobrevivendo às constantes saídas dos melhores jogadores época após época.

Oleg Romantsev – O génio errático do futebol russo Fonte: vk.com
Oleg Romantsev – O génio errático do futebol russo
Fonte: vk.com

Foi numa dessas equipas que Romantsev lançou o actual treinador do Spartak Moscovo e antigo jogador do FC Porto, Dmitri Alenichev. O antigo internacional russo chegou ao clube em 1994, proveniente dos vizinhos e rivais do Lokomotiv Moscovo, e rapidamente se tornou num dos meninos de ouro de Oleg Romantsev. Yegor Titov, agora um dos adjuntos de Alenichev no Spartak, fazia também parte dessa equipa e não há muito tempo lembrou numa entrevista o “medo” que os jogadores tinham de Romantsev, recordando que Oleg havia ficado profundamente chateado com o facto de Alenichev não ter tido coragem para lhe comunicar atempadamente a sua ida para o AS Roma em 1998 e que esteve sem lhe dirigir a palavra durante alguns anos.

A saída de Romantsev da estrutura da equipa em 2003 marcou o início da longa travessia no deserto do Spartak, aquela que cabe agora a Dmitri Alenichev terminar. A sua tarefa não se afigura, contudo, nada fácil, uma vez que o antigo médio do FC Porto está obrigado a começar tudo, ou quase tudo, do zero, fruto das épocas de histeria colectiva que têm vindo a assolar a equipa há mais de uma década.

Depois de uma caminhada firme e bem sucedida com o Arsenal Tula, Alenichev e os seus adjuntos, Dmitri Ananko e Yegor Titov, têm agora em mãos a tarefa de reabilitar um gigante com pés de barro, que viu a sua estrutura “apodrecer” lentamente, vítima de negócios ruinosos e engenharias financeiras altamente dúbias, levados a cabo por uma direcção mercantilista cuja única preocupação se prendia com a forma mais rápida de obter dinheiro.

Para a nova época, que teve início na passada sexta-feira frente ao FC Ufa (2-2 foi o resultado final do jogo), Alenichev fez regressar à equipa o capitão da selecção russa, Roman Shirokov, que esteve por empréstimo no FC Krasnodar na temporada passada, em virtude de um “castigo” aplicado pela direcção do clube, assim como todos os outros jogadores que estavam fora por empréstimo, tendo ainda conseguido assegurar as contratações do talentoso médio de ataque búlgaro Ivelin Popov, do central russo Vladimir Granat e do avançado cabo-verdiano Zé Luís, proveniente do SC Braga.

Conseguirá Alenichev devolver a glória ao Spartak? Fonte: Spartak World
Conseguirá Alenichev devolver a glória ao Spartak?
Fonte: Spartak World

Segundo testemunhos recentes dos jogadores, Alenichev, que tem um relacionamento muito próximo com todos os membros da equipa, tem procurado instituir um estilo de jogo muito semelhante àquele que aprendeu com um dos seus mentores, Oleg Romantsev, e que é, na verdade, a essência do futebol do Spartak. Mas tal implementação levará tempo e será precisamente de tempo que o antigo menino de ouro dos Спартачи (Spartachi) mais necessitará para construir uma equipa à sua imagem, uma equipa que honre os pergaminhos de um clube que conseguiu em tempos desafiar o poder instituído e que graças a isso se tornou na mais popular equipa de todo o vasto território do antigo império soviético.

Foto de Capa: Spartak de Moscovo