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A seleção do homem rico

Diogo Bernardo · 2 min

A seleção do homem rico

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Aqui na localidade onde vivo houve um homem rico que quis criar uma equipa de futebol. Não por diversão, não porque gostava de futebol, mas porque via neste desporto uma forma de enriquecer ainda mais.

A fórmula era bastante simples – escolhia alguns jogadores e dizia-lhes: “eu deixo-te jogar na minha equipa. Para tal, tens de assinar um contrato que diz que os teus direitos desportivos passam a ser meus. Na prática, podes jogar, podes marcar golos, podes desfrutar deste fantástico desporto… mas se alguém estiver interessado em ti, terá de me pagar a mim. E se ninguém estiver interessado e eu já não te quiser na minha equipa, eu próprio escolho a tua próxima equipa, para a qual serás obrigado a ir.”

Como é óbvio, nem todos os miúdos da minha localidade se sujeitaram a este esquema. Alguns continuaram a achar que deviam ser donos do seu próprio destino. Alguns continuaram a achar que nesta nova equipa deveriam jogar os melhores da localidade e não aqueles que tinham contrato com o homem rico. Apesar disso, mantiveram-se sempre disponíveis para jogar naquela equipa, desde que noutras condições.

O homem rico não aceitou. Começou então a escolher jogadores mais fracos. Fez escolhas tão ridículas e irrisórias que as pessoas da localidade se começaram a aperceber do esquema. Miúdos que nunca tinham jogado, que não tinham experiência e que eram claramente mais fracos que outros preteridos, eram chamados. O contrato que fizeram com o homem rico dava-lhes a segurança de estarem presentes na equipa.

Algumas pessoas – as que não tinham amigos ou conhecidos na equipa da localidade – revoltaram-se. Chegaram mesmo a dizer que nunca apoiariam aquela equipa enquanto o processo de escolha fosse aquele. Na segunda-feira, quando a bola começou a rolar, muitos se esqueceram da sua revolta. Afinal, futebol também é isto. O que num dia é verdade, no outro é mentira. E para esta competição que agora começou pedem-nos para apoiar a equipa da nossa localidade, porque quem não a apoiar “é contra a localidade”.

Eu não a apoiarei de certeza. Ainda não me esqueci do homem rico nem dos miúdos que ficaram de fora por falta de “inteligência burocrática”. Mas que não se confundam as coisas: Amo a minha localidade. Não a sua seleção de amigos do homem rico.

Diogo Bernardo

Redação Bola na Rede · ver artigos

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