Portugal sub-19 | Um olhar para lá da derrota

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“Viva Portugal”. Foi assim que Joaquim Milheiro terminou as suas declarações ao Canal 11 no pós-jogo com a Itália, na final do Campeonato da Europa de sub-19, que terminou com a derrota de Portugal por 0-1.

Num momento de profunda tristeza e frustração, o técnico português não escondeu o descontentamento pela má entrada no jogo, mas enalteceu também o (belíssimo) trabalho feito pelos seus jogadores ao longo da competição.

Não foi a primeira vez, e provavelmente não será a última, que uma jovem seleção portuguesa perde na final de um importante torneio internacional, mas, até porque estamos a falar de ”miúdos”, é importante, na hora do balanço, olhar para lá das vitórias ou das derrotas. E no caso português, em particular, há muita coisa positiva a retirar destes cinco jogos.

Chermiti Portugal
Fonte: FPF

Portugal apresentou-se em Malta desfalcado de nomes importantes como os de André Gomes, João Muniz, Dário Essugo, Mateus Fernandes, João Neves, Diego Moreira e Youssef Chermiti. Apesar das ausências, os 18 convocados mostraram que se há algo que não falta no futebol português é talento jovem.

A fazer lembrar a célebre frase de Jorge Jesus – “Não joga o Matic, joga o Manel” (2014) -, o selecionador português não teve dificuldades em montar um grupo bastante competente, construído com base num modelo de jogo assente no controlo da posse da bola e na constante exploração da elevada capacidade técnica dos seus jogadores. Na prática, Portugal alinhou sempre num 4-3-3 muito dinâmico, marcado por constantes movimentações, trocas de posição e triangulações no último terço ofensivo. A segurança defensiva foi outra das imagens de marca da seleção portuguesa, não só porque realmente sofreu poucos golos, mas também porque muito raramente permitiu aos seus adversários criarem oportunidades.

A equipa portuguesa foi sendo tão competente que pouco ou nada se falou daqueles que tinham ficado por solo português – ora por opção dos clubes, ora por estarem já num patamar superior e até por lesão, como no caso de André Gomes. Todavia, e à boa maneira portuguesa, a derrota na final alterou por completo a narrativa até então criada. Afinal, os sete jogadores acima mencionados fizeram muita falta; grande parte destes jovens não chegará longe no futebol; o treinador é mau; e, como não poderia deixar de ser, “faltou músculo à equipa”. Pessoalmente, esta última é sempre a minha favorita.

Infelizmente, não é de agora que as opiniões do típico adepto português têm a particularidade de mudarem conforme a direção do vento, ou, para ser mais exato, consoante o resultado final dos jogos. Um exemplo de portugalidade no futebol/desporto.

A derrota na final tirou a Portugal a possibilidade de levantar o “caneco” pela segunda vez, mas não deve apagar aquilo que de bom foi feito nos quatro jogos anteriores, bem como na ronda de qualificação.

Apesar da vitória de Itália ter sido algo surpreendente e imprevisível, até porque a jovem squadra azzurra andou sempre longe de exibir um futebol vistoso, parece-me natural dizer que foi uma justa vencedora. Passou à tangente no grupo (e pelo meio até foi dizimada por Portugal), mas soube dar a volta por cima, e com recurso ao típico cinismo italiano, eliminou a Espanha nas meias-finais e não permitiu à equipa das quinas impor o seu jogo na grande final. 

Contudo, e sem qualquer nacionalismo bacoco à mistura, a seleção portuguesa mostrou ser a equipa mais empolgante do torneio. Para além disso, ninguém venceu tanto quanto Portugal (4 vitórias), nem ninguém marcou tanto (14 golos) e sofreu tão pouco (3 golos) quanto a jovem Seleção Nacional. Não querendo estar a proclamar algum tipo de vitória moral ou “taça de cartão”, até porque a natural desilusão após uma derrota numa final não o permite, o balanço da participação portuguesa neste Europeu 2023 é francamente positivo. Jogadores como Rodrigo Ribeiro, Hugo Félix, Gustavo Sá, João Vasconcelos, Gonçalo Esteves e Gabriel Brás saem extremamente valorizados, assim como o trabalho de Joaquim Milheiro. Aliás, o único aspeto negativo a apontar ao treinador português deve-se à não utilização de João Vasconcelos na final (revelou algum desnorte nas substituições). O médio do SC Braga foi dos jogadores que mais contribuiu para golo ao longo do torneio, mesmo partindo quase sempre do banco, e num jogo tão difícil e amarrado como aquele a que se assistiu, pedia-se a presença em campo do criativo de 18 anos.

Findado o torneio, e apesar do seu inglório desfecho, fica a ideia de que os tempos que se seguem poderão vir a ser mais uma vez risonhos para o futebol português, pelo menos no que à qualidade individual dos seus intervenientes diz respeito. Embora seja sempre preferível crescer no meio de vitórias e títulos, estes jogadores terão num futuro próximo o passo mais importante das suas carreiras: a transição para o futebol sénior. A conquista do Campeonato da Europa de sub-19 seria sempre especial, mas não garantiria só por si uma carreira melhor para os atletas desta geração. No geral, o trabalho foi bem executado e não há dúvidas de que o jogador português saiu valorizado.

Cabe agora aos clubes aproveitarem mais uma boa fornada de jovens futebolistas portugueses. Viva o talento em Portugal!

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