Nos últimos dias, muito se tem discutido a presença de Cristiano Ronaldo no onze inicial da Seleção Nacional. A questão, porém, parece estar a ser abordada de forma demasiado simplista. Reduzir os problemas da equipa ao rendimento de um jogador é ignorar uma realidade mais profunda.
Na era de Roberto Martínez, apesar da conquista da Liga das Nações, Portugal continua sem convencer de forma consistente enquanto coletivo.


Cristiano Ronaldo é uma lenda do futebol português e mundial. O seu legado é inquestionável e os números continuam a demonstrar que mantém capacidade para decidir jogos. Por isso, considero que deve continuar a ser titular. No entanto, o estatuto de um jogador não pode colocá-lo acima das necessidades da equipa. Como acontece com qualquer atleta, se num determinado jogo não está a render o suficiente, seja individual ou coletivamente, o treinador tem a obrigação de procurar soluções.
E é precisamente aqui que surge uma das grandes críticas à gestão de Roberto Martínez.
Portugal possui uma profundidade de plantel que poucas seleções conseguem igualar. Jogadores como Gonçalo Ramos oferecem presença na área, agressividade na pressão e mobilidade constante entre os centrais. Já Gonçalo Guedes acrescenta velocidade, intensidade e capacidade para atacar os espaços, características que podem alterar completamente a dinâmica de uma partida. Também João Félix merecia uma reflexão diferente.
Depois de realizar uma das melhores épocas da sua carreira e de ter deixado boas indicações nos jogos de preparação que antecederam a competição, acabou por ter um papel residual e, em momentos em que a equipa precisava de criatividade e imprevisibilidade no último terço, nem sequer foi opção. Ter jogadores com estas características no banco e não utilizá-los, ou utilizar fora das suas funções habituais, quando o jogo o exige é desperdiçar recursos valiosos.


O mesmo princípio aplica-se a outras figuras da equipa. Jogadores como Bruno Fernandes ou qualquer outro elemento do grupo devem ser avaliados pelo rendimento apresentado em campo e não pelo seu estatuto. Basta olhar para equipas de sucesso recente, como o Paris Saint-Germain, onde mesmo as maiores estrelas são substituídas ou deixam de ser titulares quando o contexto competitivo assim o exige.
O interesse coletivo tem de estar sempre acima das individualidades. É precisamente essa capacidade de tomar decisões difíceis que distingue os treinadores mais competentes dos restantes.
Por isso, a questão não é Cristiano Ronaldo. Se fosse apenas ele, a solução seria simples. O verdadeiro problema é uma equipa que, demasiadas vezes, demonstra falta de química dentro de campo e uma gestão técnica que levanta dúvidas. Cabe ao selecionador tomar decisões difíceis, mesmo quando envolvem os nomes mais sonantes.
Até agora, Roberto Martínez tem mostrado pouca coragem para assumir esse papel. E enquanto isso não mudar, Portugal continuará a depender mais do talento individual do que da força do coletivo.

