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Uma questão de identidade

Ruben Brêa Marques · 4 min

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No passado fim de semana, a Argentina encerrou a sua participação na Copa América, conquistando o terceiro lugar da competição ao bater o, até então, bicampeão, Chile. O caminho da seleção das pampas começou com uma fase de grupos nada excitante, onde perdeu com a Colômbia e empatou com o Paraguai, salvando a passagem através de uma vitória sobre o Catar. Nos quartos de final, afastou, de forma convincente, a Venezuela, sendo que acabou eliminado pelo Brasil na semifinal. Foi uma participação em crescendo, tendo rubricado a sua melhor exibição perante o Brasil. No entanto, esta Argentina continua a anos-luz do verdadeiro ADN argentino, que se pauta por um futebol de entrega, intenso e com muita qualidade ofensiva.

De fiasco em fiasco, no que toca a selecionadores, a Associação de Futebol Argentino, AFA, decidiu escolher Lionel Scaloni como novo timoneiro. Sem qualquer experiência como treinador principal, o antigo jogador do RC Deportivo da Corunha ou da SS Lázio, que representou a seleção por 7 ocasiões, foi uma escolha extremamente surpreendente. O objetivo é colar as peças, tentando pôr a Argentina novamente no top de seleções.

Para esta Copa América, houve uma revolução tremenda no plantel que tinha sido escolhido por Jorge Sampaoli um ano antes para o campeonato mundial. Saíram 14 jogadores, em 23 possíveis, o que diz bem da instabilidade existente nesta seleção. Scaloni escolheu uma seleção de perfil recatado, com pouca experiência de seleção, mas com muito experiência internacional (média de idades rondava os 26.8 e apenas 4 jogadores ainda jogam no país).

Lautaro é o rosto de uma nova geração nas pampas                                                                        Fonte: AFA

Com Lionel Messi, Ángel Di Maria (que teve uma participação paupérrima) e Kun Aguero a serem as principais figuras, a Argentina apresentou-se, normalmente num 4x4x2 em losango. Leandro Paredes, na minha opinião o melhor argentino desta Copa América e um upgrade em relação ao último médio defensivo da seleção, Javier Mascherano, jogava como médio mais fixo, com Acuna e De Paul a jogarem com médios interiores e a fecharem os corredores no momento defensivo. Uma dinâmica que contemplava duas adaptações improváveis, tendo em conta que De Paul joga a extremo na Udinese Calcio e Acuna ou é extremo ou defesa esquerdo no Sporting CP.

Na frente havia Messi, a jogar no meio, no corredor, a vir buscar jogo, a combinar no último terço, basicamente o verdadeiro playmaker, Lautaro Martínez, sempre a aparecer muito bem em zonas de finalização, mas continua a não ser muito letal e Kun, um dos pontas de lanças mais inteligentes de sempre.

Lá atrás, com Armani a ser o novo número 1 da Argentina, houve Pezzella, que ganhou o lugar no onze inicial com Scaloni, ao lado de Otamendi, Foyth, que bateu Casco e Saravia pela posição de defesa direito e Tagliafico, indiscutível na esquerda. Uma dupla de centrais de qualidade, um guarda-redes sóbrio e seguro, um lateral esquerdo de enormíssima qualidade e inteligência, sendo que o patinho feio estava na direita. Foyth é extremamente agressivo, forte a defender no 1×1 com adversário, mas não dá força ofensiva ao lado direito, nem tem a categoria de Tagliafico, o que fazia com que as equipas soubessem que, invariavelmente, a Argentina ou ataca pela esquerda ou procura o corredor central.

É uma seleção demasiado amarrada, claramente super pressionada para querer jogar no seu máximo potencial, optando por tentar ser o mais competente possível, querendo controlar o adversário e à espera que a qualidade individual marque a diferença por si mesma.

Messi é vítima de um momento ofensivo atarracado e partido
Fonte: AFA

Pessoalmente, acho essa ideia inaceitável. Contra o Brasil, apesar de boa exibição argentina, ver um meio campo com De Paul, extremamente desaproveitado e fora de posição (foi um dos melhores avançados da última Serie A), e Acuna, que é muito culto taticamente e intenso, mas ofensivamente é gritante a falta de recursos do jogador (só toca para trás e para o lado, só cruzando quando tem espaço para correr, porque capacidade de drible também não tem), demonstra um medo incompreensível.

A equipa joga partida no momento ofensivo, sem extremos, o que faz com que afunile muito o jogo pela esquerda, por causa de Tagliafico, ou sobrecarregue demais a zona central, sendo mais fácil anular as tentativas de ataque. Olha-se para a Argentina como a coitadinha, devido ao seu futebol pobre e falta de maior criatividade, mas, se formos analisar a base de recrutamento, bem como o plantel presente nesta Copa América, rapidamente se percebe que o problema se chama mentalidade.

A Argentina perdeu confiança para jogar o que sabe, para abafar o adversário e dar o espetáculo que realmente poderia dar. Continua com a mesma qualidade de sempre, mas a jogar mal como nunca. O segundo lugar em 2014 no mundial e as finais perdidas recentemente na Copa América são uma ilusão proporcionada pela qualidade individual, que acaba por fazer a diferença.

Vamos ver se a Argentina recupera o seu brio e ADN rapidamente, porque, a continuar assim, e com várias seleções sul-americanas a evoluírem, como a Venezuela ou o Perú, a seleção das pampas arrisca-se a ter um apuramento muito sofrido para o próximo campeonato mundial.

Foto de Capa: AFA

Ruben Brêa Marques

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