Sem confiança; acabado; morto. Estes foram alguns dos nomes utilizados para descrever Alexis Sànchez esta época. Com apenas dois golos pelo Manchester United em 2018/2019, o chileno de 30 anos revelou-se uma das piores contratações de sempre dos red devils. Mas foi no Brasil que El Niño Maravilla conseguiu ir passar umas férias, que é como quem diz redescobrir a sua veia goleadora. Com uma boa Copa América, em que marcou tantos golos como numa campanha inteira da Premier League, ficamos com algumas questões na cabeça: porque é que as coisas não tem funcionado no Manchester United? E porque é que funcionam no Chile?

Chegado a Old Trafford em janeiro de 2018, vindo do Arsenal FC, muito se esperava de Sanchéz. Com 80 golos e 45 assistências em 166 jogos pelo emblema londrino, Sanchez parecia a solução mais indicada para fazer parceria com Romelu Lukaku, numa altura em que o belga até disfrutava de uma boa primeira metade da época. Os três golos e cinco assistências do chileno entre janeiro e maio de 2018 não eram o melhor dos indicadores, mas era sempre dada a desculpa de que chegara a meio da época a uma equipa em reestruturação. Assim, com seis meses e uma pré-época para se ambientar aos ares de Manchester, os adeptos do histórico emblema inglês tinham razão para ter esperança na afirmação do chileno.

Mas nada disso sucedeu: Sanchéz acabou a época com uns míseros dois golos em todas as competições, tornando esta na pior campanha da sua carreira. Apresentava-se sem confiança, sem caráter e sem a garra tipicamente latina que o caracterizava no Arsenal FC. Mourinho e Solskjaer fizeram o que puderam para pôr o chileno a jogar: puseram-no na ala, no meio, com parceiro no ataque, sozinho no ataque, mas nada funcionou. O próprio Lukaku também teve uma época que lhe valeu muitas críticas, embora ainda tenha apresentado números muito acima dos do seu colega sul americano (15 golos em 45 jogos). Naturalmente, toda esta situação é agravada, aos olhos dos adeptos, pelo salário que Sanchéz aufere: 400 mil libras por semana, o mais alto da Premier League.

Longe dos relvados ingleses, a história foi outra. Na Copa America de 2019, o Chile procurava conquistar o troféu pela terceira vez consecutiva. A seleção que conta com Alexis Sanchéz e Arturo Vidal (FC Barcelona) como grandes figuras entrou da melhor maneira no torneio que decorre este ano no Brasil. A jogar pela ala esquerda, com Eduardo Vargas no centro, Sanchéz destacou-se desde o início na vitória por 4-0 contra o Japão. Registou um golo e uma assistência, sendo considerado o melhor em campo. Na partida seguinte, a mesma história: um golo e uma grande exibição. Nos jogos seguinte, Sanchéz não iria voltar a faturar, e o Chile foi então eliminado da Copa America na semifinal, após derrota por 3-0 contra o Perú. Um final inglório para um torneio que nos veio provar uma coisa: Sanchéz não está acabado.

No Brasil, vimos um Sanchéz transfigurado
Fonte: Seleção Chilena de Futebol

Mas porque é que Alexis muda tanto a sua atitude quando enverga a camisola chilena? Pode prender-se com uma série de fatores, muitos deles psicológicos e, por isso, menos tangíveis. Afinal de contas, Sanchéz faz parte de uma geração de ouro da Seleção Chilena, que realizou feitos nunca antes vistos na história do futebol daquele país. Em Inglaterra, é um jogador com um salário que, para muitos, é exagerado, e de quem se exige o máximo todas as semanas, não apenas ao longo de três, quatro, cinco jogos. A própria motivação emocional do jogador pode ser diferente, sentindo-se muito mais ligado ao seu país natal, especialmente quando comparamos esta ligação com a fria ligação entre Sanchéz e os red devils.

O cansaço físico também pode contribuir para uma quebra de rendimento. Entre Copa(s) America(s), Taça das Confederações e jogos de qualificação, Sanchéz praticamente não teve tempo de descanso ao longo dos últimos cinco anos. Para um jogador que assume sempre uma carga de trabalho (ofensiva e defensiva) tão grande, é natural que o corpo do chileno, que já passou a marca dos 30 anos, se ressinta.

O mais provável é que Sanchéz não fique no Manchester United. Ole Gunnar Solskjaer já deixou patente o seu desejo de tirar o atacante do seu plantel, mas o salário chorudo continua a ser um grande entrave para a sua saída. Para já, apenas o Internazionale Milano expressou o interesse na sua compra, e talvez um regresso a Itália fosse uma boa opção para o jogador (Sanchéz esteve na Udinese Calcio entre 2006 e 2011, saindo de lá para o FC Barcelona). A nível pessoal, esta Copa America foi importante para Sanchéz provar a si mesmo que ainda tem muito para dar e que, quando gosta do sítio onde está e quer lutar pelas cores que representa, é capaz de fazer uso da sua veia latina e deixar tudo em campo. É um verdadeiro pitbull, mas neste momento ainda o vemos muito acorrentado.

Comentários