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Convidado a falar sobre a filosofia de jogo de Pep Guardiola, enquanto treinador do Barcelona, Thierry Henry expôs, num programa televisivo, de forma simples, a ideia do técnico espanhol: posse atrás, e total liberdade no último terço. Aliás, chegou a citá-lo: “Tudo o que se faz até aos últimos 30 metros é da minha responsabilidade; depois disso, é da vossa”.

É oportuno lembrar Guardiola e o seu Barcelona na análise a este jogo, sobretudo por aquilo que a Selecção Olímpica Nacional fez, praticando um futebol associativo, com compromisso por parte de todos os elementos do jogo em todos os seus momentos, compactando-se, quando em posse, sem que isso deixasse de ser lindo de se ver, com trocas de bola eficazes, visando toda a largura do terreno, com o foco na linha da frente, e aí toda a responsabilidade estava nos fantasistas… Que não desiludiram, fosse na primeira ou na segunda parte, encantando o “competente” público açoriano e fazendo crescer legítimas ambições do povo português rumo àquela que poderá ser primeira medalha olímpica da história. Afinal, derrotou-se o actual detentor da medalha de ouro… Embora este muito tenha mudado em quatro anos, como ficou bem patenteado no resultado, que foi espelho fiel do que se passou em campo.

A goleada começou a desenhar-se numa altura em que ainda não se tinham criado oportunidades de golo e as equipas se estudavam uma à outra. Porém, logo aí ficou bem evidenciada a capacidade deste colectivo, que, ao pressionar a defesa mexicana, aproveitou um erro do seu capitão, Salcedo, que, apertado por Ricardo Pereira, se viu obrigado a atrasar para o seu guarda-redes, não contando com a sagacidade de Diogo Jota, oportuno a destruir a linha de passe e a ultrapassar Gudiño para inaugurar o marcador.

A selecção nacional cresceu a partir daqui. Guiada pelo tal futebol associativo e pela batuta de um maestro chamado Iuri Medeiros, partiu para cima dos mexicanos, que se viram incapazes de contrariar o pendor ofensivo português e de sair com eficácia da primeira fase de construção, sempre condicionada por uma pressão incessante dos jogadores da frente e/ou pela superior organização defensiva do trio do meio-campo (Francisco Ramos, Ruben Neves e Bruno Fernandes), com um entendimento que permitiu dar folga à defesa nacional.

A Seleção Olímpica deixou boas indicações Fonte: FPF
A Seleção Olímpica deixou boas indicações
Fonte: FPF

Foi com base nestes pressupostos que se chegou ao segundo golo. Primeiro, a bola circulou no campo todo. Depois chegou a Nélson Semedo (já antes tinha avisado, num remate perigoso) que cruzou tenso, depois de ganhar em velocidade, à procura de um desvio, que surgiu, mas não para dentro da baliza, por parte de Salcedo. Na sequência do canto, abtido por Iuri Medeirosm Rúben Neves, na recarga a um primeiro cabeceamento, fez o segundo, encerrando as contas da primeira parte.

Para a segunda metade, Rui Jorge tirou Francisco Ramos e colocou João Carlos Teixeira e alterou a frente de ataque, entrando Gelson Martins, Gonçalo Guedes e Ricardo Horta para os lugares de Iuri Medeiros, Ricardo Pereira e Diogo Jota. Não se notou quebra de rendimento, e os homens da frente foram dignos sucessores dos que encantaram na primeira parte, com jogadas carregadas de qualidade técnica mas com objectividade, não deslustrando a encantadora personalidade desta equipa. Aliás, o terceiro golo passa por todos os substitutos – é concluido por Gelson.

Com o decorrer do jogo, Rui Jorge experimentou passar do 4x4x2 losângo para o 4x3x3, com a entrada de Lucas João, e o recuou de Ricardo Horta para o centro do terreno, mas a equipa ficou mais permeável no meio-campo, e ter uma unidade isolada no centro do ataque acabou por tirar

fluidez ao ataque. Ainda assim, a selecção nacional, pese embora dois sustos, aos quais Miguel Silva (substituiu José Sá) soube dar resposta, ampliou a vantagem, de grande penalidade, ganha por Gelson Martins e convertida por Ricardo Horta.

Ficou sentenciado o encontro, e alimentada a esperança. Este foi o primeiro jogo da selecção olímpica, que ainda sofrerá alterações, nomeadamente com a entrada de três jogadores com mais de 23 anos, mas perante este colectivo, apetece perguntar: é preciso mais alguém? Para quê um CR7 se temos um 11?

A Figura:

Iuri Medeiros (Portugal Sub-23) – É difícil destacar um só jogador numa exibição colectiva encantadora, mas Iuri Medeiros conseguiu destacar-se, trazendo ao jogo o melhor do seu repentismo e qualidade técnica, guiando a equipa na avalanche ofensiva que tornou claustrofóbico o jogo mexicano.

O Fora-de-Jogo:

Salcedo (México Sub-23) – O defesa-central e capitão de equipa não teve a tarde mais feliz da sua vida. No primeiro golo, deixou-se “sufocar” por Ricardo e não contou com a possibilidade de Jota “roubar” a linha de passe no seu atraso para o guarda-redes. No quarto, comete grande penalidade excusada sobre Gelson Martins. É certo que foi feito refém, incapaz e impotente, do assalto português, mas foi quem mais responsabilidades teve, no lado mexicano, pela goleada.

Foto de Capa: FPF

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