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Este contraste entre o futebol da selecção A e o futebol das camadas jovens dificulta a transição dos nossos jovens valores para a selecção principal e causa um desalinhamento de ideias entre a selecção A e as selecções jovens. E pela primeira vez na nossa história, tivemos uma competição secundária entre um Europeu e um Mundial que poderia servir como teste para tomar essa visão mais profunda e começar a preparar o futuro.

Preparar o futuro em dois sentidos: primeiro, para testar uma nova abordagem ao jogo mais dominante e corajosa, com o intuito de assumir o jogo e que pudesse servir de base para o futuro. E segundo, para chamar jogadores jovens que pudessem servir como opções para o futuro, de modo a que estes ganhassem experiência internacional, ficando mais preparados para o Mundial do próximo ano. No entanto, entre os jogadores novos chamados, apenas André Silva e Bernardo Silva (que só falhou o Europeu do ano passado devido a lesão) tiveram oportunidades reais para mostrarem o seu valor e o que podem acrescentar à equipa de Fernando Santos.

Essa é a outra questão que me preocupa e que também está associada a este contraste. É que em vez de dar “bagagem” a outros jovens jogadores, Fernando Santos prefere apostar numa política de continuidade, assente na manutenção dos jogadores que o próprio escolheu como referências.

Ronaldo e Bernardo – o presente e o futuro da selecção Fonte: Selecções de Portugal
Ronaldo e Bernardo – o presente e o futuro da selecção
Fonte: Selecções de Portugal

No Verão do próximo ano, Bruno Alves terá 36 anos, Pepe terá 35, José Fonte e Quaresma terão 34, Cristiano Ronaldo terá 33, João Moutinho e Nani terão 31. E caso estes jogadores joguem regularmente na próxima época, será que eles terão a frescura física necessária para disputar uma competição tão exigente como um Mundial, após dois anos sem férias?

A forma como os últimos campeões mundiais se comportaram na hora de revalidarem o título (França, Brasil, Itália e Espanha) é a prova de que a conquista de uma competição não alimenta mais o futuro do que o estabelecimento de um plano a longo prazo. E na nossa selecção, a aposta nessa política de continuidade também já deu maus resultados nos Mundiais de 2002 e 2014, embora nesses casos houvessem outros problemas.

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No entanto, o facto disso já ter sucedido também comprova que este problema não é de agora. Aliás, desde que me lembro de acompanhar a nossa selecção, Luiz Felipe Scolari foi o único seleccionador preocupado com a renovação constante da sua equipa.

Apesar de Felipão também ser um treinador “resultadista”, sempre se preocupou em renovar gradualmente a sua equipa. E mais importante que isso, era um treinador que não olhava para o estatuto dos jogadores e apostava em quem entendia. Aí, também contrasta com Fernando Santos, que apesar de supostamente defender a mesma visão de apostar em quem está em melhor forma, na competição insistiu em apostar em jogadores como Nani e André Gomes.

Eu sei que conquistámos um Campeonato da Europa a jogar um futebol conservador, mas isso não significa que ganhemos sempre a jogar assim. E como tal eu não quero que isso seja regra de uma selecção que outrora era uma referência do bom futebol. Eu sei que no tempo da Geração de Ouro não ganhámos nada, mas, por exemplo, a selecção do Chile implementou uma cultura e uma ideia de jogo e com a mesma, conseguiu mais feitos nesta década do que em toda a sua história.

Onde eu quero chegar com isto tudo é que para acabar com estes contrastes entre gerações, há que deixar de ter medo de arriscar. Há que apostar num futebol com mais iniciativa, há que apostar mais regularmente em jogadores que dão mais imprevisibilidade e virtuosismo à equipa como Gelson Martins, bem como em outros que se destacaram neste Europeu de sub-21 como Edgar Ié, Bruno Fernandes, Podence, Bruma e Gonçalo Guedes.

E repito: não quero retirar mérito algum à conquista do Campeonato da Europa com aquilo que disse. O que eu quero acima de tudo é que a maior conquista da nossa selecção sirva de base para o futuro, de modo a que se possam criar condições para potencializar o nosso futebol e os nossos jogadores, para construir uma geração vencedora no futuro. E temos matéria-prima para isso.

Foto de Capa: Facebook Oficial de Pizzi

artigo revisto por: Ana Ferreira

 

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