cab seleçao nacional portugal

Fernando Santos está de parabéns. Não só pelo 61.º aniversário completado ontem, mas por ter levado a selecção nacional a um feito inédito: pela primeira vez na história do nosso futebol, a selecção AA somou sete vitórias consecutivas numa fase de qualificação para uma grande competição. Até agora, o nosso mister não conhece outro sabor que não o da vitória em jogos oficiais por Portugal. Curiosamente, cada um destes sete triunfos foi obtido pela margem mínima, o que demonstra por um lado grande uma grande mentalidade competitiva e por outro o espaço que ainda existe para melhorar o desempenho da equipa até ao pontapé de saída do Euro 2016.

Hoje, sem algumas das suas principais figuras – Cristiano Ronaldo, Ricardo Carvalho, Fábio Coentrão e Tiago foram dispensados da deslocação à Sérvia -, e com uma exibição quase tão cinzenta como o tempo que se fez sentir em Belgrado durante a maior parte do tempo, Portugal voltou a não deslumbrar mas voltou a ser eficaz e somou mais uma vez os três pontos. Como já vem sendo hábito, a sorte e o pragmatismo foram as notas dominantes.

Da equipa que derrotou a Dinamarca na quinta-feira passada sobraram apenas quatro resistentes: Rui Patrício, Bruno Alves, Danilo Pereira e Nani, hoje feito capitão. A grande novidade foi a estreia de Nélson Semedo com a camisola das Quinas. Esta tarde, o onze foi o seguinte: Rui Patrício; Nélson Semedo, Bruno Alves, José Fonte, Eliseu; Danilo, André André, Miguel Veloso; Nani, Quaresma e Danny.

A partida começou com uma entrada fulgurante da Sérvia, que teve duas boas oportunidades logo no primeiro minuto. No entanto, Portugal rapidamente pegou nas rédeas do jogo. A pressão alta da turma lusitana pôs a Sérvia em sentido – ainda nos instantes iniciais, Quaresma recuperou uma bola no último terço e cavou uma falta à entrada da área adversária. Aos 5’, chegou mesmo o primeiro golo. A defesa sérvia foi obrigada a jogar longo, Bruno Alves fez um corte/passe de cabeça que foi ter a Danny, o jogador do Zenit aproveitou o espaço na zona central para ultrapassar facilmente o defesa sérvio (Mitrovic) e rematar rasteiro para defesa incompleta de Stojkovic; Nani, na recarga, atirou para o fundo das redes, fazendo o 0-1.

Nani, hoje capitão, marcou logo os 5'  Fonte: APF/Getty Images
Nani, hoje capitão, marcou logo os 5 minutos
Fonte: AFP/Getty Images

À medida que o tempo foi passando, Portugal começou a baixar as suas linhas, a abdicar da tal pressão alta que tão bem estava a funcionar e a entregar a iniciativa de jogo à selecção da casa. Se até à meia hora a Sérvia jogou sempre num ritmo demasiado baixo e teve muitas dificuldades em encontrar espaço, no último quarto de hora chegou várias vezes à área de Patrício – ora com iniciativas individuais, ora com trocas de bola rápidas. O primeiro remate da Sérvia chegou somente aos 31’ – Mitrovic baixou para vir buscar jogo, lançou longo para a direita e Tosic, numa diagonal rápida (o movimento em que é mais forte), rematou para defesa segura de Patrício. A Sérvia, que até então só se acercava da baliza portuguesa através de bolas paradas, começou a conseguir entrar em zonas de finalização. O contra-ataque conduzido por Tosic que resultou num remate por cima de Tadic e o tiro de Ljajic sobre o lado esquerdo do ataque sérvio são exemplos disso mesmo. De resto, Portugal só voltou a rematar aos 43’, numa jogada colectiva bem construída por Quaresma, Nelson Semedo e Nani que culminou num remate fraco de Miguel Veloso, sozinho, à entrada da área. Sim, isso mesmo: Portugal esteve praticamente 40 minutos sem atirar à baliza de Stojkovic.

O esquema habitual de Fernando Santos, assente na mobilidade entre os três homens da frente, revelou-se hoje muito menos eficaz. A ausência de Ronaldo fez-se sentir – não só pelo óbvio valor intrínseco do habitual capitão da selecção das Quinas, mas também pelas marcações que arrasta e pela facilidade que tem em surgir na posição de ponta-de-lança. Hoje houve muito menos trocas posicionais entre o trio da dianteira e houve, acima de tudo, muita dificuldade em colocar gente em zona de finalização. Nani e Quaresma apareceram quase sempre ora dando largura sobre uma das faixas, ora em terrenos interiores à procura de bola para construir, mas raramente surgiram na posição de ponta-de-lança. Danny, sempre no meio, revelou-se pouco efectivo na pressão à saída de bola adversária, e, demasiado desapoiado, nunca disfarçou a incapacidade para ser a referência ofensiva da equipa. Exceptuando o fogacho no lance do golo, voltou a ser muito pouco produtivo.

Danny pareceu sempre um corpo estranho na dinâmica colectiva de Portugal  Fonte: AFP/Getty Images
Danny pareceu sempre um corpo estranho na dinâmica colectiva de Portugal
Fonte: AFP/Getty Images

No regresso dos balneários, já com Luís Neto a substituir o lesionado Bruno Alves, a toada do final do primeiro tempo manteve-se. A Sérvia entrou com o pé no acelerador e não descansou até chegar ao empate. Tadic, Tosic e Ljajic, endiabrados, puseram a cabeça dos defesas portugueses em água. Mitrovic chegou mesmo a marcar um golo bem anulado por fora-de-jogo. A selecção portuguesa apresentava-se demasiado retraída, com as linhas muito baixas e dando sempre espaço entre essas mesmas linhas aos criativos adversários. Inteligentemente, Fernando Santos lançou Éder na partida para o lugar de Danny, aos 56’, e o ponta-de-lança do Swansea foi decisivo na sua primeira intervenção – amorteceu de peito para Quaresma, que atirou do meio da rua a rasar o poste esquerdo do guardião sérvio. Cerca de dez minutos volvidos, já depois de tentativas de meia distância de Matic e Kolarov, a Sérvia chegou mesmo ao golo: respondendo a um cruzamento rasteiro e atrasado de Kolarov, Tosic, sozinho à entrada da pequena área, disparou para o empate. Fez-se justiça no marcador.

Portugal precisava claramente de João Moutinho no meio-campo para inverter a tendência da partida. E Fernando Santos percebeu isso, lançando o médio do Mónaco para o lugar de um desgastado e desinspirado Miguel Veloso aos 68’. A equipa melhorou, começou a soltar-se mais, a pressionar mais à frente, a ter mais critério na saída para o ataque e seria do pé direito do próprio João Moutinho que sairia o golo da vitória portuguesa. Aos 77’, Eliseu ganhou no duelo com Tosic (os sérvios reclamaram falta), foi à linha e deu para Moutinho, que à entrada da área atirou em arco para o fundo das redes. Deja vù – com um fabuloso remate de longe, Moutinho voltou a selar um triunfo, depois do tento assinado no desafio anterior, frente à Dinamarca, que também valeu os três pontos.

João Moutinho voltou a ser herói  Fonte: AFP/Getty Images
João Moutinho voltou a ser herói
Fonte: AFP/Getty Images

A partir daí, a Sérvia enervou-se e desapareceu. Depois do cartão vermelho exibido a Kolarov, já no banco de suplentes depois de ter sido substituído, Matic agrediu um André André em clara subida de rendimento depois da entrada de Moutinho e foi expulso, deixando os anfitriões com dez unidades. Até ao final, as melhores ocasiões foram portuguesas – na mais evidente, Éder, num ressalto, ia fazendo o terceiro.

Mesmo sem alguns dos seus principais artistas, Portugal tinha obrigação de se ter apresentado com outro comportamento colectivo. Ficando a ver jogar a Sérvia durante demasiado tempo, Eliseu (“certinho”) e Nelson Semedo (destemido mas com algumas falhas naturais) não conseguiram dar à equipa a largura e a profundidade que se lhes exigia; e Nani e Quaresma, demasiado presos em missões defensivas (obrigados a fechar os corredores e com poucas ocasiões no último terço) e oscilando entre as necessidades de construir ao meio e de abrir nos corredores, também não foram consistentes nos desequilíbrios ofensivos. Danny, pelos motivos já enumerados, também produziu muito pouco e acabou por dar menos à equipa do que o limitado Éder. Danilo Pereira voltou a ser o bombeiro de serviço, assumindo-se claramente como único pivot defensivo da equipa, e cumpriu bem o seu papel, mas Miguel Veloso e André André passaram o jogo quase todo com pouca bola no pé e mais preocupados em não se desposicionar defensivamente do que em desenvolver o jogo a partir do centro do terreno (o médio do Porto soltou-se muito mais com a entrada de Moutinho – parecia outro!). Rui Patrício e os centrais (José Fonte, Bruno Alves e Luís Neto) estiveram em bom plano, apesar de tudo.

Fernando Santos está de parabéns. Não pela performance da sua equipa, que foi relativamente pobre, mas pela astúcia que revelou na hora de mexer no jogo -percebendo o que estava a correr mal, fez as substituições certas nos momentos certos e chegou à vitória por causa disso. Agora é hora de começar a sonhar com o Euro 2016!

Os dois maiores astros portugueses (excluindo Ronaldo) marcaram os dois golos  Fonte: Facebook das Seleções Nacionais de Portugal
Os dois maiores astros portugueses (excluindo Ronaldo) marcaram os dois golos
Fonte: Facebook das Seleções Nacionais de Portugal

A Figura

João Moutinho – É estranho nomear como homem do jogo um jogador que só actua um quarto de hora. Mas é merecido: transfigurou o meio-campo de Portugal, mudou a atitude da equipa e foi novamente protagonista ao apontar o golo da vitória. Uma dupla jornada de sonho para o melhor médio português da actualidade.

O Fora-de-Jogo

Adormecimento colectivo – Dos 35’ aos 65’, Portugal esteve “a dormir”. Começou e acabou o jogo por cima, mas pelo meio revelou uma retração incompreensível que poderia ter tido resultados desoladores. A permeabilidade defensiva e a inoperância ofensiva durante esse período é um dos capítulos a rever para os próximos duelos.

 

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