O futebol é o melhor desporto do mundo. Ou é, pelo menos, o mais inesperado, imprevisível e inesquecível. A Supertaça Europeia raramente é uma competição com um alto nível exibicional – a pré-época, o desgaste físico das recorrentes competições de Verão e a ainda embrionária organização das equipas não permitem grandes jogos. Mas a edição de 2015 foi a excepção à regra.

Tanto o Barcelona como o Sevilha chegaram a esta final desprovidos de importantes peças dos seus onzes iniciais. Neymar e Jordi Alba estão lesionados e não figuraram na ficha de jogo; N’zonzi, Kolodziejczak e Daniel Carriço estão também ausentes do lado sevilhano. Com a baixa de ambos os centrais, o técnico do Sevilha, Unai Emery, viu-se obrigado a adaptar o médio Krychowiak à posição defensiva. Esta alteração enfraqueceu, e em muito, o meio-campo dos vencedores da Liga Europa. Apesar de ter entrado a ganhar, com um golo logo aos três minutos, a equipa sevilhana rapidamente perdeu a liderança da partida e o controlo do jogo.

E foi exactamente esse sector que ditou a primeira parte do jogo. Um meio-campo fraco, sem agilidade, com imensa dificuldade em transportar a bola da defesa para os homens mais adiantados. Faltavam Krychowiak, Mbia (que saiu para o Trabzonspor) e o reforço N’Zonzi. Lionel Messi mostra que está numa forma impressionante para esta altura da temporada e fez o que quis das linhas mais defensivas do Sevilha. Com um bis em apenas oito minutos, assumiu-se, como é costume, o timoneiro da equipa blaugrana.

A primeira parte desta final foi, aliás, toda ela de Messi. O prodígio argentino encantou com os seus habituais dribles, arrancadas, fintas e investidas ousadas. A equipa de Luis Enrique continua a jogar baseada no rotineiro tiki taka, ligeiramente mais enérgico do que aquele que víamos no tempo de Guardiola. Com um jogo assente na posse de bola, troca-a durante vários minutos, até Messi ou Suárez descobrirem uma linha de desmarcação rumo à baliza. Dani Alves revelou-se rapidíssimo nas transições defesa-ataque e colocou todo o seu talento nas subidas pelas laterais. Foi, também ele, um dos melhores jogadores do Barcelona nos primeiros 45 minutos.

Ainda antes do final da primeira parte, Rafinha consegue ampliar a vantagem. Depois de uma grande defesa de Beto, após remate de Suárez, a defesa do Sevilha congela e deixa os dois avançados completamente soltos. Algo tinha de mudar na equipa de Unai Emery.

Anúncio Publicitário

E mudou.

O Sevilha entrou na segunda parte com uma atitude diferente, mais rápido, com vontade de dar a volta ao jogo. Mesmo sofrendo um revés – o 4-1 de Suárez, depois de erro de Trémoulinas – os rojiblancos não desistiam e tentavam levantar o espírito, curar a dignidade, trazer de volta o orgulho ferido. A perder por uma diferença de três golos, o Sevilha foi à procura da recuperação e começou a provocar erros no Barcelona. Depois da saída de Iniesta, Vitolo e Reyes arriscam as transições que haviam faltado na primeira metade, e é de um desses contra-ataques que surge o 4-2.

Messi e Suárez eclipsam na segunda parte e o Barcelona tem dificuldade em organizar o jogo, edificar a táctica, criar resultados. O lateral-esquerdo Mathieu passa por inúmeras dificuldades e acaba por cometer grande penalidade, de onde surge o golo de Kévin Gameiro. Nesta altura, o Sevilha é a única equipa que luta dentro de campo, muito graças à entrada do ucraniano Konoplyanka. E é ele mesmo que vai empatar a partida. Jogada formada pelos três homens do banco: Mariano faz o lançamento, Immobile consegue passar por Bartra e Konoplyanka encosta. Aos 52 minutos, o Barcelona estava a vencer por 4-1. Aos 81, o jogo estava empatado a 4.

Pedro foi o herói da partida Fonte: Facebook da UEFA Champions League
Pedro foi o herói da partida
Fonte: Facebook da UEFA Champions League

Sobre o prolongamento, pouco a dizer. A partida desce de nível e o desgaste físico dos jogadores começa a evidenciar-se. Com Coke a central e Mariano a lateral, Krychowiak pode actuar na sua posição de raiz e o meio-campo sevilhano é, pela primeira vez no jogo, estável. Immobile carrega a equipa às costas: o avançado italiano entrou forte, com grande atitude física e de combate.

Mas, mais uma vez, o futebol é imprevisível. O jogador talismã de Pep Guardiola entrou e resolveu a Supertaça. Pedro Rodríguez, que pode muito bem ter feito o seu último jogo pela equipa culé, aproveitou uma defesa incompleta de Beto e fez o 5-4. Se sair, sai pela porta grande.

A final da Supertaça Europeia de 2015 fica na história: tanto pelo número de golos, como pelo nível exibicional. Mariano é jogador a seguir, Immobile vai dar-se bem no Sevilha. A equipa tem bons indícios de completar mais uma frutífera época. Quanto ao Barcelona, Messi corre para a quinta Bola de Ouro, Dani Alves está numa forma impressionante e Iniesta continua a ser o maestro blaugrana. Luis Enrique levanta o troféu, mas Unai Emery merecia mais do que a medalha.

A Figura

Lionel Messi – Apesar de uma segunda parte apagada, o argentino demonstra mais uma vez que a equipa de Barcelona depende das suas investidas rápidas e desmarcações imprevisíveis. Os seus primeiros 45 minutos foram magistrais, com dois golos de livres precisos, marcados com regra e esquadro. Messi caminha a passos largos para a sua quinta Bola de Ouro.

O Fora-de-jogo

Mathieu – Experiente, mas inseguro. Foi assim que se apresentou Mathieu nesta Supertaça, onde, apesar de ter jogado numa posição que não é a sua de raiz, cometeu erros quase inadmissíveis. Provocou o penálti que originou o 4-3, e foi na sua ala que surgiu Immobile, quase sem oposição, quando cruzou para o empate de Konoplyanka. É fraca substituição não só para Jordi Alba, como para qualquer defesa do Barcelona.

Foto de capa: Facebook da UEFA Champions League

Comentários