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24 de Janeiro, 2022

Vamos brincar à caridadezinha

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“Vamos brincar à caridadezinha/ Festa, canasta e boa comidinha…”. Assim cantava José Barata Moura, em 1977, numa música crítica daqueles que “roubam muito mas dão prenda” e que fazem da esmola uma ocupação de tempos livres. Quase quatro décadas volvidas, subsiste como paradigma dominante o elogio da caridade – que pressupõe sempre uma relação hierárquica entre o que pede e o que dá esmola – em vez da solidariedade – que pode e deve existir de forma transversal e digna numa sociedade, com o Estado (e não os clubes/empresas/indivíduos) a desempenhar um papel determinante. No mundo do desporto, substitui-se a canasta pelas transferências no valor de quantias imorais e mantém se a festa e a boa comidinha. Para os líderes dos maiores clubes, pelo menos – os mesmos que, agora, dizem querer ajudar refugiados. Perpetuada pela tradição cristã e empolada pelos media, a caridadezinha é hoje uma realidade mais visível do que nunca e convive, cinicamente e à vista de todos, com os gastos pornográficos de muitos daqueles que a praticam, sejam indivíduos ou entidades.

O desporto é uma das áreas em que isto se passa de forma mais óbvia. Nos últimos dias, a dramática realidade que os refugiados sírios vivem na Europa fez com que o departamento de marketing do Bayern de Munique se lembrasse de canalizar 1M€ para os migrantes, além de planear a organização de sessões de treino para jovens e de ter acordado com o próximo adversário que ambas as equipas irão entrar com crianças refugiadas pela mão. É caso para dizer que talvez dar uns toques na bola durante uns tempos (enquanto a atenção dos media durar, depois logo se vê) e acompanhar duas equipas a entrar em campo seja uma urgência muito maior para um clube que queira aproveitar-se de uma situação dramática do que propriamente para quem foge da guerra… Em Itália – um dos países que costuma receber mais imigrantes, normalmente desprezados e repatriados – seguindo a mesma estratégia, a Roma anunciou o leilão de três camisolas e, por cá, o FC Porto sugeriu que os clubes presentes na Liga dos Campeões doassem 1€ por cada bilhete vendido, em benefício dos refugiados. As decisões dos referidos clubes foram aclamadas pelo público em geral, incluindo adeptos rivais. Objectivo cumprido, portanto.

A situação dos sírios que agora fogem do Estado Islâmico (organização nascida, é bom não esquecer, do caos provocado pela intervenção militar europeia e dos EUA, em 2003) é apenas a face mais recente e mais visível desta azáfama caridosa e, na minha opinião, bastante cínica, como explicarei à frente. Mas a caridadezinha no desporto não apareceu agora e os exemplos abundam, vindos tanto de entidades (por exemplo, a NBA Cares, da NBA), de clubes ou de desportistas. Pegando apenas em exemplos recentes, Ronaldo foi celebrado pela imprensa portuguesa por ser “o desportista mais solidário do mundo”, o basquetebolista LeBron James recebeu inúmeros elogios por ter resolvido pagar a universidade a 1100 jovens e o Sporting, clube que apoio, não hesitou em anunciar com galhardia a contratação de Martunis, o jovem indonésio que sobreviveu a um tsunami e que, por ter sido encontrado com uma camisola da selecção portuguesa, se tornou numa espécie de mascote nacional – e pretexto para um oportuno lavar de imagem para a Federação, que se agarrou a ele com unhas e dentes.

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A atitude do mundo dos negócios em geral, e do desporto em particular, perante quem necessita de ajuda. É o Estado, e não as empresas/clubes, quem deve ter um papel determinante
Fonte: “O Mundo de Mafalda”

Ora, o prémio atribuído a Ronaldo é, a meu ver, abjecto, na medida em que usa vidas alheias para as transformar num foco de competição, vencida pelo português como se tratasse de uma Bola de Ouro; a situação de LeBron, por muito bem-intencionado que seja o norte-americano, não existiria caso, em lugar de se bater palmas, se colocasse em causa uma situação em que a educação só é acessível a quem tem dinheiro, tornando possível que mais de um milhar de pessoas possam estar dependentes de uma; por último, a situação de Martunis, também muito aplaudida tanto por Sportinguistas como por rivais, é apenas mais um exemplo de exploração e aproveitamento, com repercussão e aplausos a nível mundial. Como disse José Diogo Quintela no tempo em que o Gato Fedorento ainda era um blog, “azar [o] da outra criança indonésia que, na manhã do tsunami, escolheu uma t-shirt do Snoopy em vez de uma da selecção portuguesa e que por isso agora não recebe ajuda especial”.

Os exemplos da caridadezinha no desporto sucedem-se, mais ou menos aproveitadores da desgraça alheia, mais ou menos chocantes. Mais do que ajudar aqueles que precisam, todos eles visam enobrecer a imagem de quem os pratica. As ocasiões em que um clube associa a sua imagem ou a de atletas seus a crianças doentes, à luta contra doenças, à recolha de alimentos para África, etc., são hoje muito comuns. Um dos últimos vídeos que me chegou às mãos foi o de uma criança cega que reconhece todos os jogadores do Barcelona só através do tacto – o clube deixou-o ir aos balneários, pois claro. A fronteira entre a ajuda, o grotesco e o entretenimento explorador da desgraça alheia é, em vários casos, muito ténue. Na maior parte deles, estão presentes todos os condimentos menos o primeiro.

Não coloco em causa que, por ser milionário, um desportista não queira ajudar quem precisa. Mas esta paranóia quase competitiva de saber quem é o clube mais solidário e quem doa mais dinheiro às chamadas “causas nobres” choca. Esse tipo de acções tem sempre muito mais propósitos comerciais do que humanitários. Serve para as instituições, na ânsia de mostrarem a face humana que sabem não ter – uma vez que a sua finalidade é o lucro e não as comiserações de qualquer espécie – reciclarem a sua imagem, enganando os incautos e, não raras vezes, extraindo daí dividendos materiais. Por seu turno, a mediatização excessiva de tudo isso tem o propósito de entreter momentaneamente os cidadãos enfastiados, através de tragédias que se tornam meros faits divers. Nada mais eficaz numa sociedade em que o choque e o sensacionalismo se confundem frequentemente com acções meritórias. Quando a questão dos refugiados estiver explorada até à exaustão e as sessões de treinos de futebol para jovens sírios já tiverem chegado ao fim, os media deixarão de dar a mesma atenção ao tema e os clubes encontrarão outra causa para poderem continuar a somar pontos no campeonato do altruísmo de fachada. Pouco interessará, por exemplo, que esses refugiados consigam ou não reconstruir as suas vidas: o seu único papel é serem peões involuntários nas mãos pseudo-humanistas de muitos clubes e empresas, apenas enquanto o tema “asilo político” fizer manchetes e abrir telejornais.

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Os alemães do St. Pauli são dos únicos clubes coerentes no que toca a questões sociais
Fonte: Facebook oficial do St. Pauli

Chegados aqui, dir-me-ão: “mas não é bom que os clubes ajudem os refugiados e que os atletas que mais dinheiro têm apoiem causas humanitárias? E tu, o que já fizeste pelos refugiados?”. Ora, este texto não visa atacar quem ajuda, mas sim demonstrar que a protecção aos refugiados, a pessoas carenciadas, etc., deve estar a cargo dos Estados e não de entidades individuais e/ou privadas. Nenhuma vida humana deve estar dependente da eventual boa vontade de um milionário, de um clube ou de uma empresa multinacional, nem estes devem poder exibir vidas de homens, mulheres e crianças como troféus que comprovam a sua pretensa bondade.

Uma entidade, neste caso um clube, que compra Douglas Costa e Arturo Vidal por, respectivamente, 30 e 37M€ (Bayern), ou Bertolacci e Nainggolan por 9M€ cada (Roma), ou ainda Gianni Imbula por 20M€ (FC Porto), não tem moral para querer que o cidadão comum se mostre agradecido pela sua “ajuda humanitária” feita à medida das câmaras de televisão, e da qual nenhum ser humano deveria depender. Infelizmente, porém, o público reage com um misto de euforia, histerismo e gratidão apatetada, e as entidades não só o sabem como se aproveitam disso. Não esqueçamos, porém, o essencial: os clubes, sejam eles quais forem, sugam e gastam incontáveis milhões de euros em negócios mais ou menos lícitos, mas sempre fúteis e exagerados. Consequentemente, não poderão nunca surgir como benfeitores e guardiães de uma humanidade cujo único interesse para eles é saber quantos potenciais sócios e compradores de camisolas existem.

De um lado a esmola para a fotografia, dada a quem merecia não caridade, mas sim solidariedade e dignidade; do outro, gastos milionários com um desporto apaixonante mas que não deixa de ser apenas isso – um desporto. Enquanto os seus dirigentes se dizem preocupados com os flagelos da moda, o mundo do futebol vai-se tornando cada vez mais surreal: só neste último mercado, mais dois atletas entraram no top 10 das maiores transferências de sempre no futebol (Raheem Sterling, que custou 70M€, e Kevin de Bruyne, que chegou quase aos 80M€). Negócios de valores ilimitados e cada vez mais imorais com uma mão, migalhas para seres humanos com a outra: uma sociedade economicamente desregrada e onde o Estado é mero espectador presta-se à proliferação de situações esquizofrénicas e aviltantes como esta.

Um clube de futebol existe para disputar torneios e não para pseudo-ajudar refugiados; o papel de uma estrela do desporto é entreter o público através da sua habilidade, não através de uma fotografia, vídeo, balde de água gelada pela cabeça abaixo ou cerimónia mediatizada até à exaustão. Se realmente querem ajudar, e uma vez que os Estados se demitem daquilo que deveria ser a sua obrigação, podem perfeitamente fazê-lo de forma discreta e anónima. Ou o que interessa é, como dizia Barata Moura na sua canção, ser visto a praticar o desporto da caridade e ganhar o campeonato do “clube mais solidário”, para daí retirar dividendos comerciais e melhorar a imagem da instituição? Pois, se calhar sim. É verdade que os intervenientes desportivos não são os principais responsáveis por “mudar o mundo”; mas, de uma vez por todas, que deixem de fingir que o querem fazer.

 

Foto de capa: Facebook oficial do St. Pauli