cab andebol

Fez-se justiça. Nenhum apreciador de andebol ou do desporto em geral poderia estar hoje a torcer pela vitória do Qatar, pelo que o triunfo francês tem de ser visto como um triunfo da verdade desportiva. Quem acompanhou minimamente esta competição sabe por que o digo: não só os qataris dispunham de 10 jogadores naturalizados à pressa num plantel de 17, como as arbitragens deste Mundial, que os asiáticos disputaram em casa, foram-lhes invariavelmente favoráveis. É caso para dizer, citando um adepto francês, “Talent – 1, Argent – 0” (“Talento – 1, Dinheiro – 0″).

Privados de Luc Abalo durante todo o Mundial, os franceses apresentaram hoje Valentin Porte (4 golos em 8 remates, 50% de eficácia) na ponta-direita, bem como a surpresa Alix Nyokas (3/5, 60%, pouco utilizado até aqui) como lateral desse flanco. O atleta do Göppingen marcou, de resto, o primeiro golo gaulês e foi um dos jogadores em maior destaque durante os primeiros minutos. A França aproveitou algumas perdas de bola e passes errados por parte do Qatar – fruto talvez de algum nervosismo inicial – para, com Nikola Karabatic (5/7, 71%) também em grande evidência, colocar o resultado em 5-9 aos 17 minutos. Como resultado, Valero Rivera pediu o primeiro desconto de tempo.

Ao contrário do que tinha acontecido em jogos anteriores, os qataris não demonstravam a eficácia da sua pressão defensiva, situação que a França aproveitou nos primeiros 20 minutos – exemplo disso foram os 6 golos encaixados pela equipa de Claude Onesta, situação notável mas que não mais se repetiu até final. Com o central Kamalladin Mallash (3/4, 75%) a orquestrar as jogadas, foi sobretudo o lateral-esquerdo cubano naturalizado qatari Rafael Capote (6/7, 86%) quem mais se evidenciou na primeira parte da equipa da casa, concretizando quatro golos em remates fortíssimos de primeira linha. Ao intervalo o marcador registava 11-14 a favor dos franceses, resultado que só não era mais desnivelado devido a algumas falhas na concretização por parte do gauleses e também a algumas decisões discutíveis da equipa de arbitragem, quase sempre a beneficiar os asiáticos. Uma palavra ainda para o guardião Danijel Saric (14 defesas/37 remates na sua direcção, 38% de eficácia), que manteve os qataris na discussão com várias boas defesas.

karabatic
o francês Nikola Karabatic foi o melhor em campo

No início do segundo tempo, dois golos de Mallash colocaram o Qatar a perder apenas pela diferença mínima. À semelhança do que já tinha acontecido na meia-final com a Espanha, a França caiu um pouco de rendimento após o intervalo – embora, em boa verdade, nunca tenha perdido o controlo da partida. O facto de o Qatar nunca mais ter conseguido passar para a frente do marcador depois do 1-0 é relevador disso mesmo. Com a entrada de Xavier Barachet (3/6, 50%) para o lugar de um Nyokas em quebra de produção, foi sobretudo Porte quem mais melhorou a sua prestação na selecção dos bleus. Porém, ainda que o jogo exterior francês saísse valorizado, a equipa estava num período de menor eficácia defensiva (contra a Espanha o nível foi bem melhor) e permitiu que o adversário reduzisse para 17-18 aos 40 minutos.

Com o encurtar das distâncias, a defesa qatari tornou-se mais agressiva e indicava que a equipa sabia que podia virar o jogo. Com efeito, o lateral Hassan Mabrouk (0 remates) foi-se tornando cada vez mais faltoso e quezilento, pouco acrescentando à sua equipa no ataque e inviabilizando algumas acções ofensivas do opositor. Num dos lances em que os franceses não foram capazes de aumentar a vantagem, o apagado ponta-esquerda Michaël Guigou (3/5, 60%) lesionou-se após rematar ao poste. Na resposta, golo do pivot “qatari” Borja Vidal (3/3, 100%), que estabeleceu o 19-20 aos 45 minutos.

A França parecia mais fatigada, e Claude Onesta promoveu a rotação na sua equipa dando minutos a jogadores como Jérôme Fernandez (1/2, 50%) e o jovem Kentin Mahe (1/2, 50%). Depois de um período a descansar, Nikola Karabatic – enorme tanto a atacar como a defender e, quanto a mim, o melhor jogador da final – regressou para os últimos dez minutos. Aos 54′, após (mais uma) assistência de N. Karabatic, Mahe fez o 21-24 num raro contra-ataque. A partir daí, o inteligente central Daniel Narcisse (4/7, 57%), que se exibiu sempre a muito bom nível, assumiu a liderança da sua equipa no ataque, tomando iniciativas sempre com critério e aparecendo de forma decisiva quando os colegas mais precisaram dele. Dois erros de Abdulla Al-Karbi (0/2, 0%) precipitaram a vitória francesa quando ainda havia um par de minutos para jogar. Estava assim consumado o quinto título mundial de França, que ultrapassa a Suécia e a Roménia e se torna no país mais bem-sucedido do andebol mundial.

Ainda que sem grande brilhantismo, a vitória gaulesa no jogo de hoje nunca esteve em discussão. O Qatar mostrou alma, deu boa réplica (Zarko Markovic (7/16, 44%) mais uma vez terminou uma partida como melhor marcador, embora tenha falhado vários golos no primeiro tempo) e teve o mérito de ter conseguido adiar ao máximo a confirmação do triunfo francês, depois de um período inicial em que o desequilíbrio parecia vir a ser muito maior. Como já se disse, algumas decisões da equipa de arbitragem também contribuíram para um certo equilíbrio no marcador, mas hoje seria necessário um autêntico escândalo ao nível da apreciação das jogadas para retirar o título aos franceses. Vitória justa dos bleus, vitória também da seriedade e da verdade desportiva contra o poder do dinheiro. No entanto, a continuar assim, o futuro do desporto está seriamente ameaçado…

 

Fotos: Facebook IHF

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