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12 destaques de um Fim-De-Semana louco: de Xangai a Knoxville passando por…Guadalupe!

Pedro Pires · 9 min

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O título é suficientemente explanativo e faz jus ao que se passou neste fim-de-semana um pouco por todo o mundo. E a verdade é que houve momentos que tiveram que ficar de fora para reduzirmos a lista a 12. Longe vão os tempos em que Maio significava um mês de marcas baixas e de preparação para os meetings europeus!

1. Steven Gardiner nos 400 metros – Uma semana, dois Sub-44!

Steven Gardiner antes desta temporada apenas tinha corrido uma vez abaixo dos 44 segundos. Tinha sido nas meias-finais dos Mundiais de Londres, onde na final viria alcançar a medalha de Prata. No espaço de cerca de uma semana, correu abaixo dos 44 segundos em Doha e agora em Xangai, ao alcançar duas importantes vitórias na Diamond League, com elencos recheados de estrelas. Parece estar encontrado um nome para ficar no nosso desporto, sendo que para isso obviamente terá que conquistar títulos. Claro que há van Niekerk, o recordista mundial que se encontra a recuperar de lesão. Mas caso van Niekerk volte aos níveis habituais, só Gardiner parece ser, no momento, capaz de rivalizar com o sul-africano.

2. Shaunae Miller-Uibo já não é “apenas” uma quatrocentista!

As condições climatéricas estavam más em Xangai quando esta prova decorreu, mas isso não impediu Shaunae Miller-Uibo de dar uma verdadeira demonstração de força no meeting chinês. Correu a distância em 22.06, um novo recorde do Meeting e a sua melhor marca de temporada. De relembrar que a atleta só começou a apostar mais nesta distância desde a época passada. Este ano, pretende fazer mais provas de 200 metros, sem esquecer a sua especialidade – os 400 metros e no futuro até contempla a hipótese de experimentar o Heptatlo! A prova apresentava um forte elenco, mas nem Dafne Schippers, nem Jackson nem Ta Lou colocaram alguma vez em risco a vitória de Shaunae. Esta foi a segunda vez consecutiva que Miller bateu a campeã mundial Dafne Schippers, depois de o ter feito na Final da Diamond League 2017, em Agosto passado em Zurique.

3. O estranho caso dos 100 Metros de Xangai.

As atenções estavam centradas num duelo entre o campeão mundial Justin Gatlin (USA) e a estrela local Bingtian Su (CHI), apimentada pela presença do britânico, campeão da Diamond League 2017, CJ Ujah. No entanto, de forma surpreendente, a vitória acabou por ir para outro britânico, Reece Prescod em 10.04, muito próximo do seu recorde pessoal, apesar das difíceis condições da pista, bastante encharcada – talvez partir do corredor mais próximo das bancadas tenha ajudado nesse aspecto. Prescod pareceu vindo absolutamente do nada!

Mais surpreendente talvez só mesmo a péssima prestação de Gatlin que foi apenas 7º, naquela que foi a sua pior classificação de sempre em qualquer prova de 100 metros como atleta sénior. Quanto a Andre De Grasse, o canadiano continua a sofrer no seu regresso às pistas, depois da lesão que o afastou das mesmas durante largos meses, terminando no 8º lugar,com um tempo de 10.25. Veremos se em 2018 ainda voltará a apresentar o nível a que nos habituou.

4. Os 100 Metros abaixo dos 10 segundos e abaixo dos 11 segundos.

Nos EUA registaram-se uma série de resultados de elevado nível na velocidade durante este fim-de-semana. Nos 100 metros, o grande destaque no masculino vai para o segundo homem a baixar a barreira dos 10 segundos em 2018. Foi Kendal Williams que correu em recorde pessoal, de 9.99, em Knoxville. Já no feminino, destaque para Aleia Hobbs, que por duas vezes em 24 horas baixou dos 11 segundos no mesmo meeting. 10.93 nas eliminatórias e 10.92 na final, mostrando uma interessante regularidade neste início de temporada.

5. E finalmente Kendra Harrison perde…

Sabemos da qualidade de um atleta quando a notícia é a sua derrota. Kendra Harrison, a recordista mundial da distância de 100 metros com barreiras, não perdia uma prova da Diamond League desde Julho de 2015! Sim, essa derrota aconteceu na sua primeira temporada como profissional e no seu primeiro meeting da competição. Desde aí nunca havia conhecido um outro lugar que não o primeiro em eventos desta competição. Perdeu aqui em Xangai e ficou em 3º lugar ao correr em 12.56 depois de ter tocado numa barreira quando liderava a prova.

Uma chegada ao limite com um 1-2-3 norte-americano!
Fonte: IAAF

No segundo lugar ficou Sharika Nelvis (em 12.52) e no primeiro Brianna McNeal, a campeã olímpica, ao correr em 12.50, novo recorde do meeting. Se Sharika mostrou uma enorme força e surpreendeu por se apresentar tão bem nesta fase da época – nunca correu tão rápido em Maio – Brianna demonstrou que está de volta ao nível em que ficou quando esteve suspensa de competição por 1 ano. A consistência da campeã olímpica tem sido impressionante ao correr todas as 5 provas abaixo dos 12.70 e 3 delas abaixo dos 12.60.

6. Os 100 Barreiras tiveram vida além de Xangai!

E quando todas as atenções estavam voltadas para Xangai com a presença da campeã olímpica e da recordista mundial, apareceram duas outras jovens norte-americanas a querer roubar o show em diferentes provas pelos EUA. No PAC 12 Championships, Chanel Brisset, de apenas 18 anos, correu em 12.75, uma marca que representa um novo recorde mundial júnior e que deixa ainda mais em aberto a competição norte-americana numa das provas que apresenta uma mistura perfeita de qualidade e quantidade no que às atletas norte-americanas diz respeito. E a sorte é que Jasmine Camacho-Quinn decidiu representar Porto Rico. É que a atleta nascida nos EUA parece estar melhor do que nunca, tendo ido à final dos SEC vencer os 100 metros com barreiras em 12.40, naquela que é a melhor marca mundial do ano até este momento e um enorme recorde pessoal e nacional de Porto Rico para a jovem que, antes desta prova, tinha um recorde pessoal de 12.58.

Como nota de curiosidade: Camacho-Quinn, de apenas 21 anos, é companheira de equipa de…Sydney McLaughlin, Kori Carter, Kendra Harrison e Omar McLeod! Tem boas lições para aprender.

7. Kendall Ellis e os primeiros 400 Metros abaixo dos 50 segundos em 2018

Foi com 49.99 aos 400 metros que Kendall Ellis, de 22 anos, assumiu a liderança do ranking mundial da distância sem barreiras. Foi a primeira no mundo a correr abaixo dos 50 segundos nesta temporada e soube ainda melhor por ter significado um recorde da sua universidade e um recorde do meeting de Stanford. Foi apenas a segunda atleta da história da NCAA a baixar dos 50 segundos ao ar livre e promete ser mais um nome a entrar nas equações da equipa norte-americana para os Mundiais do próximo ano. Já vos dissemos que ver os Nacionais Norte-Americanos é o mais próximo que podemos ter da qualidade dos eventos globais? Pois. Iremos recordar-vos mais tarde.

8. Um concurso de Salto em Comprimento de luxo, de sorte e de azar.

Foi um concurso do Comprimento de muita qualidade que se viu em Xangai, a terminar com a vitória esperada do sul-africano Luvo Manyonga. O jovem chinês de 19 anos, Yuhao Shi entrou para esta prova com um melhor pessoal de 8.31, mas saiu com um novo recorde de 8.43 metros, o que à partida lhe daria a vitória na maioria dos meetings mundiais. Não deu aqui. Luvo Manyonga reagiu à chamada e aceitou o desafio, saltando os mesmos 8.43 metros no quarto salto. Tinha o segundo salto maior que o do atleta chinês e por isso quando saltou pela última vez tinha a vitória assegurada, mas sabemos que isso para o sul-africano não chega. No último salto, fez 8.56 metros, passou para a liderança do ranking mundial e mostrou à concorrência quem manda no Comprimento.

Quanto a Shi, lesionou-se no último salto e o diagnóstico não é nada positivo. Deslocou vários ossos do seu pé, será provavelmente operado na Alemanha nos próximos dias e deverá ficar parado todo o ano. As melhoras, Shi!

9. Kinyamal – A ameaça a Rudisha pode vir…da sua própria casa!

Uma marca pouco falada no fim-de-semana (e eu não posso condenar ninguém porque este final de semana foi de loucos!) e que merece uma especial atenção é a do queniano Wycliffe Kinyamal nos 800 metros.

Kinyamal a correr para a vitória ao limite em Xangai!
Fonte: IAAF

Correu em Xangai em 1:43:91, um novo recorde do meeting e uma nova melhor marca pessoal para o atleta de 20 anos, que um mês antes venceu o título dos Jogos da Commonwealth. O queniano vem da mesma aldeia de David Rudisha (a grande estrela e recordista mundial dos 800) e as comparações com o seu ídolo não se fizeram esperar. Kinyamal afirma que é cedo para isso e que não pensa em atacar o recorde mundial tão precocemente, mas não deixa de afirmar que não teme ninguém em pista e que o seu tempo chegou. Para acompanhar com atenção, enquanto Rudisha parece ter a sua recuperação mais atrasada do que o esperado.

10. A líder Ibarguen e depois a líder Franklin!

Aos 34 anos, a colombiana Caterine Ibarguen parece não querer abrandar o ritmo e as grandes marcas, tendo começado a época a demonstrar que ainda é muito cedo para se falar em retirada. Foi a Xangai vencer o Triplo Salto no meeting da Diamond League em 14.80 metros, assumindo a liderança do ranking mundial. A colombiana não sentiu a pressão das jamaicanas Kimberly Williams e Shanieka Ricketts que começaram a época em grande forma e não fez um único salto nulo ou abaixo dos 14.21 metros. Mas a liderança de Ibarguen no ranking mundial durou pouco. Nessa mesma noite, Tori Franklin, a norte-americana que apenas no ano passado passou pela primeira vez os 14 metros e que tinha um melhor pessoal de 14.48 feitos em Março deste ano, brilhou como nunca! Ninguém poderia prever que a atleta fosse a Guadalupe fazer os 5 (!) melhores saltos da sua carreira até ao momento, todos na mesma noite! O melhor foi um salto de 14.84 metros, que é o novo recorde nacional norte-americano e que lhe permite chegar ao topo do ranking mundial. Na mesma prova, a espanhola Ana Peleteiro voltou a provar o seu gradual crescimento, ao conseguir um novo recorde pessoal em 14.42.

11. O Triplo de Évora e Pichardo que foi…brasileiro.

Para nós, portugueses, um dos maiores motivos de destaque a nível da elite mundial do Atletismo, neste fim-de-semana, era um novo embate entre Nelson Évora e Pedro Pablo Pichardo no Triplo, desta feita num território mais exótico do que o habitual. Os dois defrontaram-se em Guadalupe, mas não foi nenhum dos dois que captou as atenções dos presentes. E nem sequer foi Will Claye! Évora quedou-se pelos 16.62 metros e Pichardo fez um bom concurso terminando com 17.40 no terceiro lugar, fazendo a mesma marca de Claye. Mas o grande destaque foi mesmo o brasileiro Almir dos Santos que continua a saltar degraus e a chegar a patamares inimagináveis há poucos meses atrás. Terminou o ano passado com um melhor de 16.86, mas já vai em 17.53! Um novo recorde pessoal alcançado neste fim-de-semana, depois de em Birmingham ter alcançado a Prata nos Mundiais Indoor em 17.41. Impressionante.

12. Sydney McLaughlin. Obviamente.

Poucos adjectivos há para qualificar esta jovem norte-americana. Oito dos dez melhores tempos sub-20 nos 400 metros barreiras são dela e ela voltou a bater o recorde mundial júnior neste domingo, correndo em 52.75! Antes de Sydney nenhuma júnior tinha corrido sequer abaixo dos 54 segundos. Mas a marca é muito mais do que isso…colocando-a como a nona atleta sénior mais rápida da história (igualada com Shamier Little), nunca ninguém tendo corrido tão rápido antes de Junho. Sydney McLaughlin retirou 0.85 segundos ao seu anterior recorde pessoal (e mundial júnior), ficando agora a apenas 0.41 do recorde mundial de Pechonkina. E a atleta ainda apresenta marcas de elite na distância sem barreiras e também começa a ameaçar nos 200 metros. Sem falar, claro, do show que deu na temporada indoor.

Onde parará Sydney? A questão paira no ar, mas cada vez mais cheira a um recorde mundial numa fase muito prematura da sua carreira e os contornos de “superstar” começam a ser mais do que evidentes, tendo em conta a sua personalidade e popularidade dentro e fora das pistas. Será que a atleta resistirá aos milhões que a esperam e não cederá à tentação de se tornar profissional já no final desta época? Mais para a frente saberemos. Mas em 2019 inicia-se um ciclo de 3 anos de 3 eventos globais (Doha 19’, Tóquio 20’ e Oregon 21’) e poderá ser apetecível dar esse salto, sem prescindir dos serviços do consagrado Edrick Floréal.

Foto de Capa: Diamond League Shanghai

Pedro Pires

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