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IAAF muda de nome mas mantém-se sem rumo

Pedro Pires · 11 min

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Como havia sido anunciado no início do ano, a IAAF (International Association of Athletics Federations) completou mesmo a sua transformação para World Athletics. O novo nome da associação trouxe com ele uma nova imagem e pretende com isso atrair um publico mais jovem. No entanto, os problemas da IAAF mantêm-se e nas últimas semanas os mesmos não têm dado tréguas.

Desde duras críticas de atletas que levaram inclusive à criação de uma nova Associação de Atletas (totalmente independente à IAAF) a uma pouco consensual escolha para atleta masculino do ano, a organização prova que continua a ser a mesma IAAF de sempre: até existe vontade de mudar, mas continua sem conseguir encontrar o seu rumo.

A NOVA IAAF, WORLD ATHLETICS

Fonte: World Athletics

Este é o novo nome e logótipo da organização mais importante do nosso desporto. O rebranding foi justificado pela IAAF como uma tentativa de se aproximar do público mais jovem, com um nome mais memorável, mais facilmente identificável com o nosso desporto, sendo que o logo também reflete essa nova identidade.

Nada contra a alteração, embora seja, na minha opinião, uma alteração com pouco significado. World Athletics é, é verdade, mais fácil de ser associado com Atletismo, embora não achemos que a maioria das pessoas não soubesse o que era a IAAF. Todos nós falamos da FIFA, da UEFA, do UFC, do ATP, do WTA ou da FIA e poucos realmente sabemos o significado de cada uma dessas letras. Se IAAF não era facilmente reconhecida por casuals, terá mais a ver com outros fatores do que propriamente as quatro letras em si, mas damos de barato esta alteração.

Embora não nos pareça que os jovens se vão interessar por Atletismo da noite para o dia apenas porque a IAAF já não se chama IAAF, compreendemos que esta mudança tenha mais a ver com as polémicas que têm assombrado a organização nos últimos anos do que com qualquer outra coisa.

Inúmeros falhas no antidoping, colossal caso de doping patrocinado pelo governo russo, escolhas polémicas para sedes de Campeonatos Mundiais, o modo como a situação dos atletas com diferenças de desenvolvimento sexual foi tratada, enormes acusações de corrupção que levaram a que o anterior Presidente esteja inclusive sentado no banco dos réus… A lista é grande e cada um dos itens daria para um artigo próprio. Acontece que para mudar não basta parecer. E em tão pouco tempo já dá para perceber que tudo não passa de uma tentativa de maquilhar os problemas.

THE ATHLETICS ASSOCIATION – O GRITO DE REVOLTA DOS ATLETAS

Christian Taylor é o rosto da revolta
Fonte: IAAF

Verdade seja dita, existe algo onde a IAAF mexeu e alterou muito: a Diamond League. Não, a World Athletics não teve coragem para diminuir o número de meetings como havia anunciado com pompa e circunstância. Quando a lista final foi divulgada, percebeu-se que todos os diretores de meetings não só convenceram a organização a manter os seus meetings, como ainda teremos a inclusão de um novo para a temporada 2020!

Além de Xangai, teremos um novo meeting na China (que ainda nem sequer sabemos onde será…), Parte de um acordo importante da World Athletics com o Wanda Group que permitiu o “maior encaixe da história do Atletismo” à organização e que inclui direitos televisivos para a Diamond League e para nova Continental Tour (já lá vamos), assim como a alteração de nome para Wanda Diamond League para os próximos dez anos. O calendário foi ligeiramente alterado, mas nada mudou para muito melhor – Doha quase um mês antes do 2.º meeting, três meetings na mesma semana…

A Diamond League 2020
Fonte: World Athletics

Mas se a redução de meetings acabou por não tomar forma, a ideia da IAAF de reduzir os meetings a 90 minutos de transmissão televisiva e a exclusão de quatro disciplinas foi mesmo para a frente. A IAAF (ou World Athletics, vocês vão-se habituar e nós também) confirmou que a distância máxima na maior competição anual de atletismo será os 3.000 metros e confirmou que os 200 metros, os 3.000 Obstáculos, o Triplo Salto e o Lançamento do Disco não farão parte da edição 2020 da Diamond League.

As disciplinas aparecerão em alguns meetings (os 200 e os 3.000 obstáculos em cinco provas masculinas e cinco femininas; o Triplo e o Disco… apenas em uma masculina e uma feminina!), mas não terão direito a final, não existindo, portanto, qualificação por pontos e nem sequer prémio final monetário.

Escusado será dizer que para nós a ideia de eliminação de disciplinas para tornar os meetings “mais dinâmicos e mais excitantes para os jovens” não faz qualquer sentido e ainda menos o faz se considerarmos as disciplinas em causa. Os 200 metros têm só a maior estrela masculina da velocidade atual (Noah Lyles) e algumas das maiores femininas (Dina Asher-Smith ou Shaunae Miller-Uibo, por exemplo), sendo que no caso de Lyles é mesmo a sua prova mais forte.

Noah Lyles excluído… pela IAAF!
Fonte: World Athletics

Os 3.000 metros obstáculos deram-nos um recorde mundial em 2018 (Beatrice Chepkoech no Mónaco) e algumas das provas mais emocionantes nos últimos anos, seja na Diamond League (Kipruto a vencer descalço em 2018!) ou mesmo nos últimos Mundiais (Kipruto ao sprint e a vencer no photo-finish). O Triplo Salto tem, pela primeira vez na história, três homens acima dos 18 metros (!) e tem, no feminino, Yulimar Rojas a escassos nove centímetros do recorde mundial.

Por fim, o Disco até teve um homem nomeado para atleta do ano (Daniel Stahl) e tem as cubanas Pérez e Caballero e a croata Sandra Perkovic em enorme disputa neste momento. E não vamos esquecer o Martelo que já há muito havia sido esquecido pela IAAF, o que se está a repercutir na popularidade e exposição do evento…

Podíamos aqui referir alguns eventos que, de momento, estão bem menos excitantes que os mencionados, mas não o fazemos, porque o nosso princípio é o mesmo: o grande aliciante do Atletismo é a sua diversidade e todos os eventos são igualmente importantes, precisam apenas de ser melhor divulgados ou transmitidos (onde anda o uso de várias câmaras em simultâneos, como qualquer desporto já o faz?). A IAAF deveria ter aprendido a lição quando viu que os espetadores em Doha ficavam para as provas de longa distância, mas não para os sprints. O público de Atletismo não quer todo o mesmo e isso deve ser respeitado.

Ora, os atletas também não gostaram nem um pouco das alterações – atletas que souberam das mesmas pelas… redes sociais! –, reagiram, protestaram e decidiram-se pela criação da The Athletics Association, a primeira associação de atletas de Atletismo completamente independente dos poderes instalados. A organização foi criada pela estrela Christian Taylor – diretamente afetado pelas alterações no Triplo – e tem já dez membros fundadores que incluem o português Nelson Évora. Todos os 11 nomes são de campeões olímpicos e/ou mundiais, o que demonstra bem o nível de descontentamento para com a organização, principalmente entre os atletas de elite.

Independentemente do que será imediatamente alcançado por esta associação – a primeira reunião com COE e a sua World Athletics foi nesta última sexta-feira no Mónaco – fica claro que a World Athletics terá vida difícil nos próximos tempos e que nunca enfrentou tamanho escrutínio por parte dos atletas. Será o suficiente para que a organização realmente dialogue ou irá continuar a fingir que ouve, com decisões já tomadas? Cenas dos próximos capítulos.

Para já, a World Athletics anunciou a sua 2.ª competição em formato de circuito denominada de Continental Tour, o que parece mais uma 2.ª divisão da Diamond League. Desenganem-se os que pensem que vem aí grandes alterações, uma vez que parece que a Continental Tour também é pouco mais do que um rebranding da já existente World Challenge.

Os nove meetings já anunciados são em localizações onde o World Challenge já se realizava, ao que a organização espera acrescentar um décimo em África (mas será que em dezembro ainda é altura de andarmos em projetos e negociações não fechadas?). Para cada evento destes meetings, a organização irá atribuir 3.000 dólares norte-americanos ao vencedor, sendo que para os eventos relegados da Diamond League (os quatro novos mais o Martelo) o prémio será de 6.000 (na Diamond League o prémio é 10.000), tendo estes eventos também direito à atribuição de um wild card para os Mundiais do próximo ano (nos outros eventos, é através da Diamond League). Quanto aos 5.000 metros e 10.000 metros, esses parecem ter sido totalmente esquecidos pela IAAF…

A ELEIÇÃO DOS MELHORES DO ANO: UMA ESCOLHA LÓGICA, OUTRA POUCO LÓGICA

Na última sexta-feira, decorreu no Mónaco a gala anual da IAAF (prometemos que daqui a uns meses lhe chamaremos exclusivamente “World Athletics”) que consagrou os melhores do ano no Atletismo. A gala, que é uma espécie de Oscars do Atletismo, distingue não só os melhores atletas, como as maiores revelações, treinadores e personalidades ligadas à modalidade.

O espanhol Felix Sanchez Arrazola repetiu a vitória na fotografia do ano com uma bela fotografia de Shelly-Ann Fraser-Pryce na final dos 100 metros de Doha. O Irmão Colm O’Connell, missionário irlandês, venceu um merecido prémio de carreira como treinador no Quénia. A etíope Derartu Tulu conquistou o galardão de mulher do ano pelos seus contributos no desporto e o guineense Braima Suncar Dabo (atleta do Maia Atlético Clube) recebeu o prémio Fair Play por este fantástico gesto nos Mundiais de Doha!

Como revelações/jovens do ano nada há a dizer da justiça dos prémios atribuídos a Selemon Barega, o etíope que foi Prata nos 5.000 de Doha e teve as melhores marcas juniores do ano nos 5.000 e 10.000, e a Yaroslava Mahuchikh, a ucraniana que foi Prata na Altura de Doha com impressionantes 2.04 metros, novo recorde mundial júnior.

Já no que diz respeito aos melhores atletas do ano, poucas dúvidas haviam que as mulheres estiveram este ano um patamar acima dos homens (especialmente nos Mundiais de Doha) e, como tal, iria custar ver atletas como Sifan Hassan (a holandesa foi campeã mundial dos 1.500 e 10.000 e da Diamond League nos 1.500 e 5.000) ou a queniana Brigid Kosgei (nova recordista mundial da Maratona) sem o troféu, mas o prémio teria que ir para Dalilah Muhammad. E assim foi. Justamente, a World Athletics atribuiu o galardão à norte-americana que alcançou o impressionante feito de ter batido por duas vezes em 2019 o recorde mundial dos 400 metros barreiras, sendo que na 2.ª isso tornou-a na campeã mundial. Para colocar a cereja no topo do bolo, ainda fez uma “perninha” na final das estafetas e venceu o Ouro nos 4×400…

A grande surpresa apareceu mesmo no vencedor masculino, que nem sequer marcou presença no Mónaco para receber o prémio. Eliud Kipchoge é enorme e nós não nos cansamos de elogiar o queniano. Já por aqui fizemos vários artigos sobre o mesmo e faltam palavras para qualificá-lo. No entanto, a sua escolha como atleta do ano parece-nos pouco coerente, pouco racional e até contraprodutiva para a IAAF.

Em 2019, Kipchoge fez uma única corrida competitiva, um único evento IAAF, que foi a Maratona de Londres, que venceu em grande estilo com recorde do percurso da capital britânica (2:02.37). Foi grande, mas essa nem sequer foi a Maratona mais rápida do ano (Bekele ficou a dois segundos do recorde mundial em Berlim). Resta, portanto, admitir que a IAAF atribuiu o prémio ao atleta pela quebra da barreira das duas horas na distância da Maratona no tal desafio INEOS 1:59.

Já o dissemos: o feito de Kipchoge foi enorme, sim, mas levanta muitas interrogações. Kipchoge lutava apenas contra o tempo, num percurso não homologado pela IAAF, com várias outras condições antirregulamentares (número e formação dos pacers, alternando entre si, carro-pacer com laser a marcar o percurso…) sem rivais, com ténis que levantam mais interrogações que certezas quanto à sua legitimidade, num evento privado criado exclusivamente para si e que muitos consideram como uma manobra de publicidade à marca desportiva Nike.

É ele o único homem capaz de o fazer? Provavelmente sim, mas isso não é o desporto, não é o Atletismo. Por alguma razão temos regras, homologações e competições. Foi um feito enorme para o homem, Kipchoge poderia (deveria!) até ter ganho, no Mónaco, um prémio extra (especial) pelo feito que alcançou e por ter inspirado tantas e tantas pessoas a fazerem-se à estrada, mas ser considerado atleta do ano numa prova não-oficial que não cumpriu uma série de regras obrigatórias não nos parece minimamente coerente.

Kipchoge quebrou barreiras, mas a WA errou ao nomeá-lo atleta do ano
Fonte: World Athletics

Pelo caminho bateu o super-favorito Karsten Warholm, o norueguês que venceu todas (!) as provas em 2019, ao ar livre ou em pista coberta, sagrando-se campeão mundial dos 400 metros barreiras, vencendo a Diamond League na mesma distância, sendo campeão europeu indoor de 400 metros, tendo ainda corrido o 2.º tempo mais rápido de sempre nas barreiras. Outro atleta que poderia merecer a distinção era o ugandês Joshua Cheptegei, que no mesmo ano venceu o título mundial de Corta-Mato e o dos 10.000 metros (nos Mundiais de Doha), além de ter vencido a final dos 5.000 na Diamond League.

Percebe-se que a IAAF tenha querido distinguir a maior personalidade do desporto na atualidade e que compete num evento bastante mais popular do que os 400 barreiras (afinal a Maratona e o running estão hoje numa categoria diferente), mas esse não deveria ter sido o critério.

Obviamente que a decisão da IAAF gerou várias reações negativas nas redes sociais – e não só, quem próximo estava, na gala do Mónaco, diz que o treinador de Warholm não poupou piadas azedas relativas aos ténis Vaporfly – e deixa no ar uma enorme questão: qual é a mensagem que a IAAF passa? Que é mais importante os atletas participarem neste tipo de espetáculos artificiais do que nos campeonatos/eventos oficiais do desporto? Um tiro nos pés, apenas mais um, por parte de quem a muitos nos habituou. Tudo muda, mas nada muda.

Foto de Capa: World Athletics

Revisto por: Jorge Neves

Pedro Pires

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