Eliud Kipchoge voltou a provar porque é considerado o melhor maratonista da história, com mais uma exibição de força, resistência e inteligência na Maratona de Londres. No feminino, Brigid Kosgei brilhou, com uma segunda metade de prova totalmente demolidora e Carla Salomé Rocha subiu a 3.ª nacional de sempre!

O melhor de sempre na Maratona
Fonte: NN Running Team

A imprensa britânica procurou durante toda a semana vender o frente-a-frente entre Eliud Kipchoge, o recordista mundial da Maratona, com Mo Farah, a estrela britânica das pistas e que na estrada bateu no ano passado o recorde europeu da Maratona. Desde o início que parecia, aos mais por dentro da estrada, que os etíopes em prova em Londres seriam os maiores adversários de Kipchoge e isso revelou-se verdade. Se nos quilómetros iniciais, Mo Farah até se manteve com o grupo da frente, ficou claro desde cerca de metade da prova que não teria andamento para entrar no pódio. O grupo partiu e Eliud Kipchoge – que desde o início sempre pareceu bastante relaxado – via-se acompanhado por 4 etíopes, dando até “instruções” a estes de como se deveriam posicionar para manter o ritmo, depois da saída de cena das últimas lebres. Incrível!

Eliud Kipchoge controlou os ritmos, dominou, fez um parcial entre os 20 e os 30 km a 28:39 e disparou nos 2 quilómetros finais porque sabia que ninguém nunca iria conseguir reagir ao aumento de ritmo. Até houve quem resistisse muito mais do que era suposto. Os etíopes, pois claro. Mosinet Geremew há algum tempo que já havia provado que não seria mais um projeto falhado da transferência da Meia para a Maratona completa.

Não que tenha deixado de fazer a Meia, pois ainda no mês passado venceu em Lisboa. Mas a vitória no plano percurso do Dubai no ano passado (2:04:00) e o 2º lugar em Chicago (2:05:24), somados ao 3º de Berlim no ano de estreia na distância (em 2:06:12) já haviam mostrado que era um erro desconsiderá-lo em qualquer Maratona. Correu em Londres em 2:02:55, o melhor 2º classificado de qualquer Maratona da história, o novo recordista nacional etíope e, na verdade, o mais rápido de sempre que não se chame “Eliud Kipchoge”.

 

Eliud, o tal que não temos a certeza se é humano, terminou a sorrir, como só ele consegue nos metros finais de uma Maratona, com os braços no ar, relaxado, como se estivesse fresco para mais uma. Terminou a prova em 2:02:37, o tempo mais rápido de sempre em Londres, o 2º tempo mais rápido da Maratona, apenas atrás do seu recorde mundial de Berlim. Com a vitória, tornou-se no primeiro atleta masculino a vencer por 4 vezes na capital britânica e também provou que a humildade continua a ser uma das maiores virtudes humanas. Questionado sobre o futuro, Kipchoge não poderia ser mais ele próprio: “Eu vim de África e em África nós não perseguimos dois coelhos de uma vez. O meu coelho era mesmo esta Maratona”.

Completou o pódio masculino o etíope Mule Wasihun, que subiu a 7º mais rápido de sempre, num recorde pessoal em 2:03:16, também ele o melhor 3º classificado da história de qualquer Maratona. Já Mo Farah, a estrela local envolvida em várias polémicas durante os últimos dias, começou bem, rodou em ritmo de recorde europeu durante grande parte do percurso (alcançou o recorde britânico aos 30km), mas terminou visivelmente em sofrimento, com 2:05:39 na 5ª posição, atrás do etíope Shura Kitata (2:05:01).

Queniana, sim. Mas não a favorita. Enorme Salomé Rocha!

 

Na prova feminina, as favoritas eram quenianas: Mary Keitany, a segunda mais rápida de sempre que já venceu 3 vezes em Londres e Vivian Cheruiyot, a estrela da pista que em estrada já havia vencido aqui no ano passado. Cedo o grupo se partiu, depois de um primeiro estranho ataque de Sinead Diver, que se provou muito proveitoso para a australiana que acabaria por terminar em 7.º, em 2:24:11, o melhor de sempre por uma atleta acima dos 42 anos. Mas cá na frente já se sabia que o pódio seria africano. E foi. Mas surpreendeu.

Keitany mostrou desde o início dificuldades em acompanhar o ritmo do grupo da frente, mesmo que este ano tenha tido uma estratégia bem mais conservadora do que no passado. Ainda assim, Keitany fez a sua prova e terminou próxima do pódio, mas já lá vamos. Na frente, uma batalha a 5, que se reduziu a 3 rapidamente (Kosgey, Cheruiyot e Dereje), mas que também não durou muito até a pouco mais do meio da prova vermos um duelo entre as quenianas Brigid Kosgey e Vivian Cheruiyot. Sim, Kosgey. Pouco referida antes da prova, parece hoje um daqueles erros de amador.  Afinal no ano passado foi 2ª em Londres – muitos o explicaram pela estratégia suicida de Keitany e Dibaba – e voou mais tarde para a vitória em Chicago (2:18:35).

Desta feita, tentou um primeiro ataque muito cedo, deixando Cheruiyot para trás. No entanto, a sua expressão facial parecia indicar cansaço e quando a mesma foi alcançada pela vencedora do ano passado, muitos pensaram que o momentumde Kosgey já era, pois ainda faltavam mais de 10km. Não podiam estar mais errados. Brigid Kosgei voltou a disparar e, desta feita, fugiu mesmo de Cheruiyot sem deixar qualquer rasto. A queniana foi tão rápida que a sua segunda metade da prova (1:06:42) foi a mais rápida que alguma vez uma mulher fez na Maratona. Terminou em 2:18:20, o que ainda deu para melhorar o seu recorde pessoal e subir a 7ª mais rápida de sempre, mesmo com uma primeira metade da prova bem conservadora (1:11:38). Na segunda posição terminou Vivian Cheruiyot, em 2:20:14, um lugar abaixo do ano passado e repetindo a posição da sua última maratona, quando foi 2ª em Nova Iorque (aí venceu Keitany).

No pódio ainda, no 3º lugar, uma etíope, a jovem Roza Dereje, que fará 22 anos daqui a poucos dias, terminou em 2:20:51, mostrando, mais uma vez que é um nome a considerar muito para o futuro, depois da vitória no Dubai (2:19:17) e do 2º lugar em Chicago (2:21:18) no ano passado. Próximas no 4º e no 5º posto, duas quenianas históricas da Maratona, Gladys Cherono foi 4ª, colada a Dereje, em 2:20:52 e Mary Keitany foi 5ª em 2:20:58.

Grande destaque ainda para Carla Salomé Rocha, a melhor Maratonista portuguesa da atualidade, que terminou na 8ª posição, com uma excelente marca de 2:24:47, o melhor de qualquer portuguesa nos últimos 5 anos, subindo mesmo a 3ª portuguesa mais rápida de sempre (apenas Rosa Mota e Jéssica Augusto à sua frente), com parciais bastante controlados de 1:12:10/1:12:37. A marca permite a Carla Salomé Rocha ter já mínimos para os Mundiais de Doha deste ano e para os Jogos Olímpicos de Tóquio do ano que vem!

Foto de Capa: Virgin Money London Marathon

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O Pedro é um amante de desporto em geral, passando muito do seu tempo observando desportos tão variados, como futebol, ténis, basquetebol ou desportos de combate. É no entanto no Atletismo que tem a sua paixão maior, muito devido ao facto de ser um desporto bastante simples na aparência, mas bastante complexo na busca pela perfeição, sendo que um milésimo de segundo ou um centimetro faz toda a diferença no final. É administador da página Planeta do Atletismo, que tem como principal objectivo dar a conhecer mais do Atletismo Mundial a todos os seus fãs de língua portuguesa e, principalmente, cativar mais adeptos para a modalidade.                                                                                                                                                 O Pedro escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.