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NCAA: Um olhar por dentro de uns campeonatos universitários ao nível da elite mundial!

Pedro Pires · 10 min

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Há pouco mais de uma semana, o mundo acordou chocado com as notícias que vinham do Texas. Dois recordes mundiais indoor e dois recordes nacionais norte-americanos tinham caído numa só noite dos Campeonatos Universitários! Mas afinal o que têm os Universitários norte-americanos de tão especial que os colocam ao nível da elite do Atletismo, com algumas marcas superiores, inclusive, às que vimos nos Mundiais?

Os Campeonatos: Recordes, Marcas e Figuras

O novo Recorde Mundial dos 400 Metros Indoor:

https://www.youtube.com/watch?v=V1AvgP8VyEo&t=69s

Voltando àquela noite de sábado. Michael Norman, com apenas 20 anos, corria apenas a sua terceira corrida Indoor de 400 metros na sua carreira. Não se pode dizer que Norman fosse um desconhecido. Não era. Em 2016, ao ar livre, Norman sagrou-se campeão mundial sub-20 dos 200 metros na Polónia. Este ano, em Fevereiro, já tinha corrido em 45.00 segundos os 400 metros indoor, nos EUA, naquele que era o segundo melhor tempo do ano antes destes campeonatos. Portanto, Michael Norman já era uma das grandes promessas norte-americanas e mundiais do Atletismo. Mas nunca ninguém imaginou que no passado dia 10 de Março, corresse a distância em 44.52 segundos, marca que é um novo recorde mundial da distância, batendo o anterior recorde de Kerron Clement (44.57) que durava desde 2005! No mesmo dia, o jamaicano Akeem Bloomfield, também de 20 anos, correu, nos mesmos campeonatos, a distância em 44.86, tornando-se o sexto melhor atleta da história e o melhor jamaicano da história da distância indoor!

As grandes prestações não se ficaram por aí: nos 4×400, tivemos três equipas universitárias abaixo do recorde mundial polaco alcançado em Birmingham há poucas semanas! A equipa da USC – que contava com…Michael Norman! – foi mesmo a primeira da história a baixar dos 3 minutos e 1 segundo, com 3:00.77!

A prova mais rápida de sempre nas estafetas!

Porém, não se sabe ainda se este será o novo recorde mundial. Expliquemos: para que seja considerado um recorde mundial nas estafetas, a IAAF exige que todos os atletas sejam representantes do mesmo país (de forma a que se evitem também compras de atletas unicamente para se bater recordes). Acontece que um dos atletas da USC (Rai Benjamin) que até nasceu nos EUA (e tem dupla nacionalidade) aparece ainda oficialmente como representante da Antígua & Barbuda. Para complicar tudo, já desde o ano passado que o atleta tinha apelado para competir pelos EUA! Resumindo, neste momento não existe ainda uma versão oficial, mas mesmo que esta marca não seja considerada recorde mundial (sendo, no caso, um “World Best”), o recorde caiu de certeza naquela noite, porque a equipa segunda classificada (Texas A&M) era toda formada por atletas norte-americanos e correram em 3:01.39!

A estes dois recordes mundiais, soma-se ainda a fabulosa prova de 400 metros no feminino, que nos trouxe, por exemplo, o recorde mundial júnior de Sydney McLaughlin, que correu a distância, aos 18 anos, em 50.36. Syd – como também é conhecida a norte-americana – tem agora 6 das 10 melhores marcas de sempre feitas por atletas até aos 20 anos nos 400 metros indoor!

E a marca até seria recorde norte-americano…não fosse na final A (a final dos 400 foi dividida em duas séries), Kendal Ellis ter corrido em 50.34, novo recorde norte-americano! Com 22 anos, acabados de fazer há dias, Ellis tem agora a 11ª melhor marca mundial de toda a história da distância. Na mesma noite, o anterior recorde norte-americano (da campeã mundial, Phyllis Francis) foi batido duas vezes!

O novo recorde norte-americano dos 400m Indoor no feminino:

Grandes marcas mundiais ainda nos 200 metros, uma prova já não tão disputada a nível mundial em grandes meetings, mas ainda com grande tradição a nível nacional. No masculino, Elijah Hall-Thompson correu a distância em 20.02, aquela que é a 2ª melhor marca da história e melhor norte-americana, batendo um recorde de Wallace Spearmon que durava há 13 anos e no feminino, Gabrielle Thomas correu em 22.38, a 5ª melhor marca mundial da história (igualada com Veronica Campbell) e 2ª norte-americana. Outro feito a assinalar é o que Grant Holloway fez em dois dias, com 3 finais e uma eliminatória nas barreiras: venceu os 60 com barreiras em 6.47 (marca que lhe daria medalha nos Mundiais de Birmingham), foi segundo no Salto em Comprimento e 3º nas estafetas 4×400.

Nas redes sociais, houve até quem fizesse comparações com os Mundiais Indoor de Birmingham e se é verdade que a comparação é exagerada (em 24 provas equiparáveis, apenas 4 tiveram marcas melhores e nos 3.000 isso nem sequer deve ser contabilizado, por ser uma prova tática), a verdade é que o nível fenomenal das marcas daria o Ouro a Norman nos 400, à estafeta norte-americana e a Ellis nos 400 femininos também. Outras marcas de enorme valia durante os campeonatos dariam também medalhas e lugares no pódio em Birmingham.

Mas afinal, como se explica tudo isto? E como se explica que alguns destes atletas tenham preferido marcar presença nos campeonatos da NCAA do que nos Mundiais, mesmo quando já eram apontados como potenciais favoritos?

Para a segunda pergunta, a resposta poderá parecer bem mais simples do que aparenta. A possibilidade de marcar presença nos Campeonatos Universitários é algo que poderá acontecer até mais do que uma vez na vida de um atleta, mas apenas enquanto o mesmo está a representar a sua universidade e, portanto, é uma experiência que a determinada altura da carreira não mais se repete. Mundiais Indoor existirão vários ao longo da sua carreira. Claro que também existe a planificação de cada atleta, com a sua equipa técnica, que passa muito por, em primeiro lugar, não serem queimadas etapas consideradas essenciais para o crescimento dos atletas, sabendo da importância da competição universitária norte-americana no desenvolvimento psicológico e mental de cada atleta. E, não menos importante, devemos relembrar das pressões que atletas e técnicos sofrem por quem eles representam. Não será fácil para um técnico, funcionário e bastante bem remunerado pela Universidade, explicar que o atleta não se apresenta nos Universitários nas melhores condições porque deu prioridade aos Mundiais, onde não representa essa Universidade. Claro que tudo isto é mais complicado de perceber por nós, europeus, que não temos a cultura de desporto escolar e universitário que existe nos EUA. Mas vamos lá perceber um pouco melhor como funciona o modelo norte-americano.

O Modelo Universitário

O desporto escolar norte-americano começa bem mais cedo e, quem sabe, um dia falaremos disso, abordando as rivalidades que já existem entre escolas. Mas é no College, a nível universitário, que é dado o derradeiro passo antes do profissionalismo. Aqui convém fazer a distinção entre NCAA e NAIA. A NAIA é uma associação composta por escolas privadas, geralmente mais pequenas, que ainda assim oferecem boas condições para os estudantes-atletas que querem seguir ambos os caminhos, com a possibilidade de bolsas de estudo. A NCAA é a maior organização e é a que iremos aqui abordar hoje. Esta divide-se em 3 divisões, sendo que a Divisão 1 é a maior, com as universidades públicas de elite, as desejadas pelos maiores atletas a nível escolar e com prospecção das mesmas por todo o país – esta é a divisão dos campeonatos que abordamos no início do artigo, com bolsas baseadas no rendimento desportivo. A Divisão 2, geralmente composta por não tão grandes universidades públicas – normalmente comporta bolsas baseadas nas duas vertentes: desporto e desempenho escolar – e é equiparada em qualidade à NAIA. Depois, existe a Divisão 3, que é composta por escolas privadas que não estão permitidas a oferecer bolsas desportivas. Ainda existe a NJCAA, mas vamos deixá-la de parte, por ter um peso menor – embora forneça por vezes atletas que se vêm a tornar de elite.

O desporto escolar é parte fundamental do sistema de ensino norte-americano e isso pode ser observado nos inúmeros filmes e séries onde vemos referências ao mesmo. Não pretendemos aqui falar de todas as divisões que existem em cada uma das divisões, por isso seria demasiado maçador e confuso, provavelmente. Vamos focar-nos na Division 1 da NCAA (a principal, apesar de que não é incomum existirem atletas a mudar de divisão após 1 ou 2 anos) e tentar perceber um pouco a razão de tamanha importância do desporto escolar, o peso do Atletismo no mesmo e, claro, o que os atletas ganham com isso.

Só na Division 1, estão presentes mais de 350 universidades e colégios, número que permite perceber a dimensão do que falamos. As escolas, essas, comprometem-se através de budgets brutais, a dar as melhores condições a esses estudantes-atletas para que singrem em ambas as vertentes, terminando a formação escolar, totalmente preparados para a vida adulta, com elevado desempenho escolar e desportivo. Mais de 170.000 dos cerca de 500.000 estudantes-atletas da NCAA estão nesta primeira divisão. As universidades apresentam instalações e equipamentos do mais moderno que existe no mundo, pagam principescamente a treinadores que para elas trabalham a tempo integral e tudo isto porque o lucro gerado é brutal.

Hayward Field, a casa do Atletismo da Universidade de Oregon
Fonte: ESPN

Ao lucro financeiro (a NCAA apresenta resultados anuais positivos na casa dos biliões de dólares, competindo em valores…com a Super Bowl) conseguido através de receitas de assistências ao vivo, televisões, merchandising ou patrocinadores é adicionado o marketing de ver o nome do College subir o mais alto possível, atraindo outros atletas de todos os cantos do país e até de outras partes do globo – apesar de aqui também existirem limitações e restrições ao nível do número de estrangeiros, bem como limitações inferiores e superiores de orçamentos, algo comum no desporto norte-americano. Milhares de pessoas assistem diariamente a desportos universitários ao vivo, milhões pela televisão, sendo que o interesse norte-americano neste segmento do desporto é impar no mundo. A explicação? Bem, talvez ajude o facto de os norte-americanos não terem a cultura de clubes tão vincada como nós na Europa.

O modelo de “franchise” funciona em quase todos os desportos, sendo que as equipas até podem mudar de cidade quando melhores condições são oferecidas. O mesmo não acontece com as Universidades. Elas mantêm-se nas cidades e o orgulho pela conquista fica directamente ligado a elas, pelo que o suporte local é sempre muito grande, independentemente de serem cidades grandes ou pequenas.

Claro que com tanto dinheiro a circular, muitos se deverão perguntar qual é a fatia destinada aos atletas. Pois bem, além da bolsa de estudo, os atletas não são remunerados. Têm desde há pouco tempo, refeições/snacks gratuitos em determinadas alturas do dia (na transição das aulas para a parte desportiva) e é só. Tendo em conta o valor dos estudos nos EUA e a formação que estão a receber, muitos poderão dizer que não é coisa pouca. Mas será que é justo para quem, no fundo, é o centro do desporto e quem, de facto, faz mexer as finanças, sendo que o aproveitamento escolar até ficará prejudicado pela falta de tempo e ou desgaste físico e psicológico? Muitas vozes se têm levantado nos últimos anos a reivindicar que estes atletas de nível de elite sejam pagos. Afinal, enquanto estão a representar as suas Universidades, muitos deles rejeitam contratos milionários com conhecidos patrocinadores, preferindo manter-se nas escolas, onde não é permitido qualquer tipo de patrocínio, apesar da NCAA em si ter vários patrocínios de algumas das principais marcas mundiais, como a Coca-Cola, a AT&T ou a CapitalOne, obtendo ainda lucros de transmissões televisivas (e intervalos comerciais) ou videojogos. Claro que as escolas se defendem, argumentando que também investem nesses estudantes e que o seu dia chegará, quando passarem a profissionais, fundamentando que os mesmos não são empregados e sim estudantes.

https://www.youtube.com/watch?time_continue=30&v=OCFy_q9Fdys

A isto os atletas contrapõem com as duríssimas exigências e horários da conciliação entre escola e desporto, que obviamente não permitem uma preparação e rendimento semelhantes a nível escolar, comparativamente com aqueles que não têm as duas vertentes, pelo que isso por si não serve como moeda de pagamento face ao esforço despendido.

Acontece ainda que existem muitos casos em que os atletas nunca chegam a dar esse passo pelas mais variadíssimas razões. Aliás é a norma. Menos de 3% dos atletas dão o salto. Seja porque não se adaptaram à profissionalização da actividade, seja por lesões que os impeçam de continuar a actividade desportiva ou porque a evolução não foi a suficiente para os padrões profissionais. Nesses casos, os atletas apenas guardarão as memórias das conquistas escolares porque lucros financeiros do seu hercúleo esforço não existirão. A discussão continua animada e assim continuará, com a divulgação de alguns dos salários pagos a membros da NCAA, administradores e a treinadores colegiais.

E no meio disto de todo este mundo universitário, onde fica o Atletismo? O Atletismo – ou Track and Field, como é conhecido nos EUA, sendo que fazem a separação em relação ao Cross – ocupa uma parte significativa deste modelo universitário. O Atletismo é a preferência, tanto no masculino quanto no feminino, no que concerne a desportos individuais, apresentando números entre os 26.000 e 30.000 atletas anualmente com bolsas no Track and Field (se somarmos o Cross, os números vão acima dos 40.000). O número de escolas a oferecer programas de Atletismo tem vindo a crescer significativamente ao longo dos anos, sendo que no feminino, por exemplo, temos hoje mais cerca de 400 escolas a oferecer programas em comparação com os dados da década de 80.

Foto de Capa: Athletics Weekly

Pedro Pires

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