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O Atletismo irá sentir a falta de Bolt. Isso é um ponto assente e incontornável. O mediatismo de Bolt e a sua personalidade única dentro e fora das pistas dificilmente poderá ser colmatado. Mas é claro que o Atletismo irá sobreviver. Estrelas não faltam, nomes grandes não faltam. O que faz falta é sabermos vender os nossos nomes maiores, as nossas estrelas. O Atletismo continua a promover-se pouco e continua a ser um desporto que embora abranja todas as camadas da população e que seja de camadas mais baixas socialmente que vêm muitas vezes os heróis, continua a ter um público tendencialmente elitista em algumas zonas do globo. Nada tendo contra o público em questão, é preciso chamar e educar todo o tipo de público para o nosso desporto, se queremos que o mesmo cresça popularmente. Abaixo deixamos 5 sugestões que pensamos poderem ser positivas para o futuro do Atletismo. São ideias. Algumas originais, outras inspiradas no depoimento de atletas ou pessoas ligadas ao desporto. Algumas em desenvolvimento, outras em estudo, outras nem nessa fase andarão ainda:
Uniformização de horários e expansão: O modelo da Diamond League melhorou bastante este ano, na nossa opinião. O modelo com finais revelou-se um sucesso e foi bastante mais emocionante do que vinha sendo hábito, no que parecia ser apenas uma sucessão de meetings. Ainda assim há ajustes que poderão ser feitos. As provas deverão abranger outros locais, em outras zonas do globo. O ideal será procurar regiões que até já têm as suas estrelas e que gostam do desporto, como a Jamaica, o Quénia ou a África do Sul e outros locais com potencial de crescimento e onde hoje pouco se aposta. Adicionalmente, as provas devem ter uma regularidade constante em termos de calendário. Os fãs de futebol sabem sempre quando se realizam os jogos da Liga dos Campeões e em que horários. Os fãs da NBA sabem a regularidade com que podem contar com jogos e os seus horários. Os fãs do Atletismo, pelo contrário, têm sempre que estar a olhar para a agenda porque não parece existir uma mínima preocupação em uniformizar o calendário da modalidade. No mínimo, os meetings da Diamond League deveriam todos realizar-se à mesma hora no mesmo dia da semana, de forma a criar um hábito no consumidor/espectador.

Fonte: fhkous.com
Mais Atletismo: Os amantes da pista sabem que existe um período muito grande sem nada a ocorrer ao ar livre: desde setembro até abril pouco acontece com as maiores estrelas mundiais. Se é verdade que há desportos onde isso é usual (alguns desportos americanos), não o pode ser num desporto que deve ser o mais globalizado possível. Até que ponto não seria positivo alargar o calendário utilizando no nosso inverno, regiões do globo que nessa altura estão na estação mais quente? É uma ideia. Sem pedir, logicamente, que a temporada de pista ao ar livre dure 10 meses, a verdade é que o modelo actual parece curto para corresponder às exigências de um público sedento por competição. Há vida para além da Diamond League e existem outros tipos de competições que se podem pensar para alargar o calendário geral. O Atletismo não pode ser apenas lembrado, às vezes, durante o verão.
HEAD to HEAD: Procurar encontrar formas de juntar os maiores nomes mais do que uma vez por temporada é essencial. Quem segue futebol sabe que irá ver 2 Benfica x Sporting, pelo menos, por ano; os amantes de ténis sabem que os grandes jogadores se irão encontrar ao longo do ano e irão participar nos mesmos torneios. No Atletismo, isso não acontece. Em anos sem Mundiais ou Jogos Olímpicos, os principais nomes podem não se encontrar uma única vez. Em anos de grande competição, por vezes, podem-se encontrar apenas uma vez durante toda uma temporada. Sabem quanto tempo demorou Usain Bolt a voltar a encontrar-se com Andre De Grasse nas pistas depois do Rio? Nunca mais aconteceu. Foram-se evitando meeting após meeting durante esta época e pouco antes dos mundiais, De Grasse lesionou-se. O aumento do chamado head to head deve ser uma prioridade na modalidade para atrair público e para criar rivalidades que elevem o nome do desporto.
Público jovem: É um desafio, talvez o maior desafio. Tem que se chegar aos mais jovens. Estamos em 2017 e percebe-se o impacto que o interesse dos mais jovens por desportos como o Ténis ou alguns desportos de combate, tem tido no crescimento dessas mesmas modalidades. É um ciclo vicioso, mas temos que ir à procura de entrar no mesmo. Nas redes sociais, existe claramente trabalho a fazer, começando pelas organizações responsáveis pelo desporto a nível internacional que apostam (ainda) pouco. Outra forma de chegar aos mais jovens é existirem mais iniciativas junto de escolas, com visitas de atletas e até dias dedicados ao Atletismo na escola com a presença destes atletas como “padrinhos” de certos eventos, explicando o que é o desporto, sacrifícios necessários para se alcançar o sucesso e dando exemplos práticos da integração do desporto com a vida escolar. Mesmo a nível nacional, seria interessante vermos um Nelson Évora, ou mesmo atletas já retirados, a fazerem digressões do género pelo país. Pegando no exemplo dos EUA, é isso que algumas modalidades fazem há muitos anos, aproveitando as suas estrelas e o potencial do mercado mais jovem. Chegar ao mercado mais jovem é essencial, porque eles serão as futuras estrelas e os futuros espectadores também.

Fonte: techcrunch.com
Cobertura/Media: Percebe-se que este seja um ponto, por vezes, dependentes das estações televisivas. Mas se as mesmas falham neste ponto, deve ser quem gere a modalidade que se deve preocupar na forma como o Atletismo é mostrado ao público mais ou menos conhecedor. Este ano fomos brindados com uma série de erros amadores em eventos de grande gabarito, como meetings da Liga Diamante. Obviamente que tal não pode acontecer, mas não falamos apenas desse tipo de erros. Sendo um desporto que tem a particularidade de acontecerem várias coisas ao mesmo tempo, a aposta por serviços “multiscreen” ou com ecrãs a mostrar diferentes provas – mostrando, por exemplo, em simultâneo Saltos/Lançamentos e provas de Meia Distância – deve ser prioridade. Prioridade também deve ser a transmissão internacional do que vai acontecendo pelo mundo, mais não seja através de um canal oficial criado para o efeito, aproveitando o poder, mais uma vez, das redes sociais. Não nos podemos dar ao luxo de ter um Meeting de despedida de Usain Bolt de solo jamaicano, em Kingston, em que a única forma de assistir pelo mundo era pagar um PPV incrivelmente inflacionado. Nesta fase, devemos procurar a expansão e chegar ao máximo de casas possíveis. Será assim tão complicado ter uma música oficial associada a cada grande evento, como o Futebol faz com os Mundiais, por exemplo? Basta abrir um vídeo de uma dessas canções pelo Youtube e ver o número de visualizações para se ter a noção do impacto de algo do género.
Mais ideias com certeza existirão e serão igualmente ou mais válidas ainda. As que aqui apresentamos não apresentam um grau de complexidade alto e, por isso, são exequíveis a curto-médio prazo. O desporto pode evoluir e irá evoluir. Aqui estaremos para viver esta nova era da modalidade.









