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Das 6 provas de velocidade individual (sem barreiras) nos Europeus de Berlim, 4 Ouros foram britânicos e ainda houve lugar a duas medalhas de Prata. Nas Estafetas, foram dois Ouros, uma Prata e um Bronze. No feminino, a Grã-Bretanha teve a marca líder mundial nos 100 (igualada) e nos 200 metros. No masculino, este ano dois homens baixaram dos 10 segundos nos 100 metros e um terceiro venceu a Diamond League em 2017, ano em que a estafeta 4×100 venceu o título mundial. A velocidade da Grã-Bretanha atravessa dias como há muito não se via. E as novas gerações parecem prontas para rivalizar taco a taco com as grandes potências mundiais da velocidade.
Estafetas
No dia 12 de Agosto, o mundo parava para assistir à última prova de Usain Bolt em pista. Não a sua última individual, pois aí a sua derrota já havia chocado o mundo no fim-de-semana anterior. Mas a sua última prova como elemento da estafeta 4×100 masculina jamaicana na final dos Mundiais de Londres. No último percurso, Usain Bolt recebeu o testemunho, parecia atrasado, mais ainda quando se lesionou e não pôde terminar a prova. Ainda assim, o estádio estava em delírio. Porquê? Porque a Grã-Bretanha acabava de vencer o Ouro na prova de velocidade, batendo os grandes favoritos norte-americanos, que contavam com os dois primeiros classificados da prova individual (Justin Gatlin e Christian Coleman). Uma curiosidade: entre os 4 elementos da equipa britânica não constava o único nacional que havia ido à final dos 100! Sim, claro que vencer estafetas é muito mais do que a soma dos tempos dos melhores elementos. Mas, sim, são precisos 4 elementos muito rápidos para correr em 37.47, um novo recorde europeu e a melhor marca do ano.
Ainda assim, não é caso único. Apesar da Grã-Bretanha nunca antes ter vencido o evento em Mundiais, já o havia feito em Jogos Olímpicos: na primeira edição do evento em 1912 e em 2004, numa também marcante vitória diante de uma fortíssima formação norte-americana (na altura em 38.07). No feminino, nunca venceram em Jogos Olímpicos, mas 32 anos depois voltaram a “sacar” uma medalha de Bronze em Atenas e nos Mundiais voltaram a ser Prata 37 anos depois. Algo vai muito bem nas estafetas britânicas. E muito disso poderá ter (também) a ver com a entrada em cena em 2015 do técnico norte-irlandês Stephen Maguire, contratado depois do fiasco das estafetas britânicas em Pequim, onde vimos inclusive colegas de equipas a criticar outros colegas no flash-interview depois de uma passagem de testemunho falhada. Pegando nas palavras de Jo Jennings ao Telegraph “Foi importante vermo-nos livre de alguns egos e atletas que não queriam fazer parte de uma equipa. A diversão e as brincadeiras continuam a fazer parte, mas os atletas gostam cada vez mais de trabalhar em conjunto”.
Como não podia deixar de ser, também a componente técnica das estafetas foi analisada e trabalhada por Maguire. Deixou de ser apenas “passar o testemunho”, mas foram trabalhadas para que cada passagem nunca demorasse mais de 2 segundos e sem desaceleração. Foram analisados os tamanhos exatos dos pés e a passada de cada atleta para as marcas na pista serem o mais precisas possível e foram contratados serviços de especialistas de psicologia, de forma a preparar os atletas para cenários de alta pressão.

Fonte: UKA
Em várias entrevistas, os atletas não se têm cansado de referir que o sucesso da equipa britânica não pode ser explicado num único factor. Danny Talbot é um sprinter que tem passado um pouco escondido no meio de tanto talento britânico (apesar do seu registo pessoal aos 200 metros indicar um melhor de 20.16) e ele afirma à BBC que “podemos não ter ainda o mais rápido da história, mas temos com certeza o momento da história com mais atletas muito rápidos em simultâneo (…) Quando comecei, ir às meias-finais de uns Mundiais ou Jogos Olímpicos era o suficiente para seres o melhor nacional. Hoje tens que ser o 4º ou 5º melhor do mundo”.
Metodologia(s)
É difícil apontar uma diferença clara na metodologia britânica. Temos atletas em grupos muito díspares e muitos deles integrados em grupos de treino nas mais variadas geografias, uma prática que tem ganho cada vez mais fãs dentro da modalidade. Cj Ujah faz parte do mesmo grupo de treino de Andre de Grasse e Aries Merritt no Arizona. Adam Gemili e Desiree Henry fazem parte do grupo de treino, do qual faz parte Dafne Schippers ou Christian Taylor na Holanda, sob as orientações do norte-americano Rana Reider.
Outros passaram pelo sistema universitário norte-americano e por lá ficaram, como é o caso de Nethaneel Mitchell-Blake. Outros passaram e continuam pela Jamaica, treinando com Usain Bolt, como é o caso de Zharnel Hughes.
Existem atletas britânicos que não largaram as origens e o caso de Dina Asher-Smith é um perfeito exemplo disso. A britânica continua a ser treinada por John Blackie, técnico que a acompanha desde os seus 8 anos! São já 14 anos juntos desde que Dina se juntou ao Blackheath & Bromley Harriers Athletic Club e, a avaliar pelo último ano da atleta, a parceria parece estar a dar mais frutos do que nunca. Reece Prescod ou Asha Philip são outros exemplos de atletas com a formação – desportiva e académica – totalmente entre portas.
O modelo inglês define que todos os alunos devem fazer algum desporto até aos 16 anos e normalmente as escolas estão associadas aos clubes locais, utilizando as suas instalações e possibilitando mais facilmente a ponte para atletas que pretendam acompanhar a vertente escolar com o percurso desportivo, com uma integração muito maior comparada com outros países europeus.
Ainda assim, apesar dos diferentes percursos e apesar de espalhados por todos os cantos da Terra, a verdade é que o ambiente no seio do grupo britânico parece apontar para índices de camaradagem e espírito de equipa pouco vistos num passado não assim tão distante. Conforme Oliver Brown (jornalista desportivo) escreveu em artigo do Telegraph, as gerações passadas que espelhavam arrogância e pretensiosismo deram lugar a gerações mais humildes, trabalhadoras e com os pés bem assentes na terra. Esse espírito de equipa é facilmente observável em qualquer digressão britânica em eventos continentais ou globais, mas também pode ser observado nos mais variados tipos de eventos que são organizados pelo país, que contam muitas vezes com a presença em simultâneo de vários atletas rivais nos seus eventos.
Os atletas a destacar
Reece Prescod (22 anos)
PB (100m): 9.94 (-0.5)
Foi o 2º classificado dos Europeus de Berlim, já baixou dos 10 segundos e tem como melhor pessoal legal os 9.94 (-0.5) que correu em Birmingham este ano para chegar colado a Christian Coleman na prova da Diamond League decidida ao limite. Foi com alguma surpresa que no ano passado foi o campeão britânico e depois alcançou a final dos 100 metros nos Mundiais, onde foi 7º. Este ano, revalidou o título britânico nos 100 metros e até já venceu uma prova da Diamond League (em Xangai, em condições climatéricas complicadas).
O seu estilo de corrida faz em muito lembrar o de estrelas como Carl Lewis, vindo de trás para terminar muito forte, com muito pouca desaceleração, até parecendo não o fazer, tal a diferença para os rivais em pista. Em Agosto de 2018, baixou por 3 vezes dos 10 segundos. Caso melhore a partida, entrará facilmente na casa dos 9.8x. Treina em Londres sob a orientação de Jonas Dodoo.
Zharnel Hughes (23 anos)
PB (100m): 9.91 (+0.4)
PB (200m): 20.02 (-0.1)
É o novo campeão europeu do sprint mais curto ao ar livre e já o tinha ameaçado quando um mês antes em Londres correu em 9.93 (+0.1), depois dos 9.91 (+0.4) do início da temporada em Kingston, onde bateu…Noah Lyles!

Fonte: European Athletics
Também nos 200 metros é um caso prometedor, tendo até já vencido duas etapas da Diamond League em 2015, quando ainda tinha 20 anos. Apenas este ano começou a apostar mais nos 100 metros e se antes de 2018 trazia um melhor pessoal de 10.10, termina o ano a baixar quase dois décimos, prometendo ainda ter mais “no tanque”. Nasceu em Anguilla (território britânico) e treina quase toda a temporada na Jamaica (no Racers Track Club, com Glen Mills, onde era colega de Usain Bolt), vindo à Europa apenas no verão europeu.
Cj Ujah (24 anos)
PB (100m): 9.96 (+1.4)
Foi o surpreendente vencedor da final dos 100 metros da Diamond League 2017 e é um dos atuais campeões mundiais e europeus da estafeta 4×100.
Como júnior foi finalista em campeonatos mundiais e campeão europeu nos 100 metros. Falhou o pódio em Berlim (4º), na sua pior época como sénior, que ficou também marcada pela falsa partida na meia-final dos 60 metros dos Mundiais de Pista Coberta, que era uma das suas principais apostas. Nos 4 anos anteriores, teve melhores marcas pessoais entre os 9.96 e os 10.01 e, este ano, não baixou dos 10.06. Ainda assim, e apesar de parecer existir alguma estagnação, continua a ser um dos nomes em que os britânicos colocam mais esperanças. Treina agora no Arizona (EUA), sob os comandos de Stuart McMillan, com a equipa Altis, que conta com nomes como Andre De Grasse, Aries Merritt ou Fred Kerley.
Nethaneel Mitchell-Blake (24 anos)
PB (100m): 9.99 (+0.6)
PB (200m): 19.95 (+0.4)
Especialista nos 200 metros, prova onde foi segundo nos Europeus atrás de Guliyev, Mitchell-Blake é o bicampeão britânico na distância do duplo hectómetro, distância em que também foi campeão europeu júnior.
Nos Mundiais do ano passado, cheirou o pódio (4º lugar) e fez parte da equipa que venceu a medalha de Ouro das estafetas 4×100. Com 13 anos, emigrou para a Jamaica e foi aí que fez grande parte da sua formação como atleta no desporto escolar do país caribenho. Depois mudou-se para os EUA, onde estudou e competiu no exigente desporto universitário. Continua a treinar a maior parte do seu tempo, no Louisiana (EUA), sob as orientações de Dennis Shaver.
Adam Gemili (25 anos)
PB (100m): 9.97 (+2.0)
PB (200m): 19.97 (+0.8)
Campeão mundial junior em Barcelona, na distância dos 100 metros, Adam Gemili tem tido alguma dificuldade em dar o passo seguinte, mesmo quando parece que tudo se perfila para tal. Foi campeão europeu dos 200 metros em 2014 (em 19.98), mas desde aí não mais venceu um Ouro a nível internacional em provas individuais.
https://www.youtube.com/watch?v=nt3wy6tbd9E
Cheirou o pódio nos 200 metros dos Jogos Olímpicos do Rio (2016), ano em que foi campeão nacional nessa distância, mas desde aí pouco destaque tem tido a nível individual. A nível de estafetas, venceu 3 Ouros consecutivos nas estafetas 4×100 dos Europeus e também fez parte da estafeta campeã mundial em Londres no ano passado. O atleta tem consciência que precisa de ganhar medalhas globais individuais como sénior para não ser mais do que uma grande promessa não cumprida, conforme confidenciou a Ato Boldon num episódio do IAAF Inside Athletics gravado em 2017. Faz parte do grupo de Rana Reider, sediado na Holanda, que conta com nomes como Christian Taylor ou Dafne Schippers.
Ojie Edoburun (22 anos)
PB (100m): 10.04 (+1.7)
Foi em 2018 a primeira vez que Ojie entrou na casa dos 10.0x, o que prova a notória evolução do atleta neste último ano. Em 2015, foi campeão europeu sub-20 e, em 2017, foi campeão europeu sub-23 nos 100 metros, o que dá conta da experiência que o atleta já tem em competições internacionais.
Como sénior falta-lhe ainda resultados de um nível superior e, só conseguirá a qualificação para grandes eventos, caso faça melhor do que alguns dos nomes aqui mencionados. Para o fazer, poderá ter que baixar dos 10 segundos e o atleta afirma-se preparado para tal. Treina sob as orientações de Steve Fudge, em Londres, junto com atletas como Asha Philip ou Imani Lansiquot.
Matthew Hudson-Smith (24 anos)
PB (400m): 44.48
É o único integrante desta lista que é especialista no sprint mais longo, nos 400 metros. Não tem tanta competividade na sua prova e isso acaba por ser um fator negativo para Hudson-Smith, que já se esperava que pudesse estar num outro patamar (potencialmente próximo de baixar dos 44). Foi finalista nos Jogos Olímpicos do Rio e é o atual campeão europeu, com o Ouro de Berlim.

Fonte: Birmingham Diamond League
Tem como um dos seus grandes objetivos bater o recorde nacional que parece perfeitamente ao seu alcance, sendo uma questão de tempo. Mudou-se para Clermont, na Florida, num grupo de treino que inclui, por exemplo Noah Lyles, Tori Bowie ou Shaunae Miller-Uibo, depois de um 2017 em que o atleta confessou ter passado por momentos complicados a nível motivacional, equacionando inclusivé o fim precoce da carreira. Está no sítio certo para evoluir e o recorde nacional britânico não deverá demorar muito a cair.
As atletas a destacar
Dina Asher-Smith (23 anos)
PB (100m): 10.85 (0.0)
PB (200m): 21.89 (+0.2)
É talvez o principal rosto da velocidade britânica e parece pronta a intrometer-se nas disputas de título em eventos globais. Não se pode propriamente dizer que Dina Asher-Smith não ameaçou chegar ao patamar em que se encontra, mas as marcas que obteve em Berlim nos Europeus deste ano foram marcas impressionantes, que representam recordes nacionais nos 100 e nos 200 metros.
https://www.youtube.com/watch?v=D1q6JZtLrdc
Foi campeã mundial júnior em 2014 na distância de 100 metros e é a recordista nacional britânica nos 100 e 200 também nesse escalão. Como sénior, também já conta com uma medalha de Prata nos 60 metros Indoor dos Europeus de Praga. Já ficou muito próxima de pódios em Mundiais e Jogos Olímpicos, mas depois de ultrapassada a lesão que a afetou durante grande parte de 2017, será uma surpresa caso não entre num pódio dos 3 próximos eventos globais. Continua a ser treinada por John Blackie, técnico que a acompanha desde os 8 anos de idade.
Asha Philip (28 anos)
PB (100m): 11.10 (+1.8)
É a atleta mais experiente desta lista e continua a mostrar uma fiabilidade e consistência considerável. Em tempos, foi campeã mundial sub-20 nos 100 metros e tem conquistado várias medalhas como sénior nas estafetas. Já ficou à beira do pódio em Europeus seniores ao ar livre e Mundiais de Pista Coberta, mas a sua grande medalha como sénior foi o Ouro nos Europeus de Pista Coberta (60 metros) de Belgrado, distância onde já foi por 5 vezes campeã nacional.
Também nos 100 metros, ao ar livre, já venceu o título nacional por 4 vezes e depois de um 2018 a meio-gás (o pior SB desde 2012) deverá voltar em força em 2019. Está sob a orientação de Steve Fudge, em Londres.
Desirèe Henry (23 anos)
PB (100m): 11.06 (+1.5)
PB (200m): 22.46 (+0.1)
As lesões do início da sua carreira sénior têm afetado o rendimento de Henry e terão pesado na sua quase inexistente época de 2018. Ainda assim, a atleta que em 2011 se tornou campeã mundial juvenil nos 200 metros, tem ainda muitos anos pela frente para provar aquilo que desde cedo prometeu.
Para já, ainda não tem qualquer medalha internacional sénior a nível individual no seu palmarés, mas se voltar à regularidade na casa dos 11.0x isso poderá ser uma realidade. Treina na Holanda, no mesmo grupo de Christian Taylor ou Dafne Schippers, orientada por Rana Reider.
Imani-Lara Lansiquot (21 anos)
PB (100m): 11.11 (+0.1)
Foi 4ª nos Mundiais Juniores de há 4 anos nos 100 metros e já venceu um Ouro nas estafetas 4×100 nos Europeus Juniores. Ainda assim, parece claro que o que Imani Lansiquot tem de mais excitante é o futuro que lhe se augura. Este ano, já foi 6ª nos Europeus, poucas semanas depois de ter batido o seu recorde pessoal em Londres.
Como júnior, correu em 11.17, deixando-a com uma marca colada (agora) a Awuah e a Asher-Smith. É já a 6ª britânica mais rápida de sempre nos 100 metros e o seu treinador projeta que andará na alta-roda por, pelo menos, 10 anos, afirmando que é diante das melhores que se sente mais confortável. Aos comandos de Steve Fudge, em Londres.
Daryll Neita (22 anos)
PB (100m): 11.14 (-0.4)
Foi triplamente segunda classificada nos Nacionais britânicas e ainda não alcançou uma medalha individual internacional, embora nas Estafetas 4×100 já tenha duas Pratas (Mundiais e Europeus) e um Bronze (Jogos Olímpicos). Sabe que à sua frente está Dina Asher-Smith e sabe da chegada de mais promessas a uma distância que possui uma profundidade impressionante a nível interno, confessando estar farta de segundos lugares.
Tem a curiosidade de normalmente obter as suas melhores marcas em casa, mas poderá ter que elevar o nível para atingir o estrelato internacional. Foi semi-finalista nas meias-finais dos Mundiais em casa, à beira de atingir a final (correu em 11.16), na melhor performance de uma atleta britânica em Mundiais. É treinada por Jonas Dodoo, em Londres, num grupo de treino que conta, por exemplo, com Reece Prescod.
Bianca Williams (12/1993)
PB (100m): 11.17 (+1.0)
PB (200m): 22.58 (+0.4)
Finalista por duas vezes dos 200 metros em Europeus, ficou à beira do pódio em 2014 (4ª). Este ano, conseguiu a sua primeira medalha de Ouro em Europeus, sendo parte integrante da equipa dos 4×100, repetindo uma medalha que já havia ganho no início do ano nos Jogos da Commonwealth.

Fonte: Bianca Williams/Nike
Ambos os recordes pessoais (100 e 200) já persistem desde 2014, o seu melhor ano da carreira, quando conquistou, além de outra medalha nas estafetas, a medalha de Bronze individual nos Jogos da Commonwealth nos 200 metros. Esteve presente nos últimos Jogos Olímpicos e Mundiais e é a 6ª britânica mais rápida da história no duplo hectómetro. É treinada por Lloyd Cowan em Enfield Town, Londres.
Kristal Awuah (19 anos)
PB (100m): 11.16 (-0.1)
A cumprir a sua última época de júnior, Kristal Awuah foi terceira nos Mundiais de Sub-20 de Tampere, mas atrás de dois nomes que muito prometem (a jamaicana Briana Williams e a norte-americana Twanisha Terry). E aí ainda a atleta britânica não tinha mostrado todo o seu esplendor. Mais tarde, em Julho correu em 11.20 na Holanda e fechou o ano com 11.16 no ISTAF de Berlim, uma marca de “gente grande”, ficando muito próxima do recorde júnior britânico de Dina Asher-Smith (11.14).
É certamente um dos nomes mais entusiasmantes do momento e será interessante perceber como será o seu crescimento ao longo destes 3 anos, prometendo roubar uma vaga a algumas das mais experientes atletas. Treina em Streatham, Londres, sob as orientações de Matthew Thomas.
Laviai Nielsen (22 anos)
PB (400m): 51.21
É a única integrante dos 400 metros nesta lista e não deverá ter grande concorrência a nível interno nos próximos tempos. É o evento da velocidade em que as britânicas parecem estar menos confortáveis e onde não parecem igualar os níveis de outrora, embora existem outros nomes que podem despontar em breve. Para já, Nielsen é a maior esperança, tendo este ano sido 4ª classificada nos Europeus de Berlim, depois do título europeu júnior há 3 anos na Suécia.
Conquistou a Prata nos 4×400 dos Mundiais de Londres e a mesma medalha nos Europeus Indoor de Belgrado, onde na prova individual foi 4ª. Antes deste ano tinha um recorde pessoal de 52.25 (desde 2015) e este ano correu em 51.21 em Berlim, provando uma enorme evolução, no primeiro ano em que foi treinada por Christine Bowmaker, também ela uma ex-sprinter.
Os recordes britânicos da velocidade
100m (M): 9.87 (+0.3), Linford Christie, 15 de Agosto de 1993
A marca de Linford Christie que dura há mais de 25 anos encontra-se sob séria ameaça. Linford, que tem a particularidade de ter sido suspenso por doping já numa fase terminal da sua carreira, afirma que, por vezes, é colocado de parte pela Federação nacional por essa suspensão, que o mesmo continua a afirmar ter sido injusta.
Muita gente na Grã-Bretanha deseja que esta marca caia e depois de ter sido tão ameaçada por outro (comprovado) atleta dopado (Dwain Chambers) é de bom grado que se vê vários atletas já na casa dos 9.9x prontos para atacar este recorde. Reece Prescod ou Zharnel Hughes parecem as apostas mais seguras.
200m (M): 19.87 (+1.8), John Regis, 31 de Julho de 1994
A marca de Regis é de topo mundial, mas só há 3 britânicos a terem baixo dos 20 segundos e dois estão em atividade. Mitchell-Blake e Gemili tiveram o seu melhor momento em 2016, mas parecem prontos para voltar a atacar este recorde. Ainda assim, Hughes teve próximo de baixar dos 20 segundos em 2015, com apenas 20 anos, e pode procurar aqui também fazer história. Irá depender muito das apostas de cada atleta. Os britânicos têm profundidade para diferentes tipos de apostas para o triénio que se aproxima.
400m (M): 44.36, Iwan Thomas, 13 de Julho de 1997
É um recorde que corre o sério risco de cair já em 2019 e que até se previa que poderia ter caído em 2018. Apenas Matthew Hudson-Smith tem condições para o bater, e já ficou bem próximo quando correu em 44.48 nos Jogos do Rio. Por esta altura já se esperava que o tivesse feito, mas falhou esse objetivo em Berlim, apesar do título europeu. Apesar de tudo, parece uma inevitabilidade.
4×100 (M): 37.47 (Ujah, Gemili, Talbot, Mitchell-Blake), 12 de Agosto de 2017
Com a evolução dos sprints britânicos, é lógico que esta marca andará sempre sob constante ameaça. Parece tentador retirar Talbot da equação e colocar um dos homens mais rápidos do ano (Hughes ou Prescott), mas estafetas não é apenas a soma dos melhores tempos e há atletas que se adaptam melhor à prova, a determinado percurso e à passagem do testemunho, sendo que até a altura do atleta a passar e/ou a receber pode significar a diferença entre um sucesso ou um desastre. Ainda assim, surpreenderia muito que nos próximos 2 anos esta marca se mantivesse.
4×400 (M): 2:56.60 (Thomas, Baulch, Richardson, Black), 3 de Agosto de 1996
Aqui a questão é muito diferente da prova individual. Se acreditamos que Hudson-Smith vai bater o recorde dos 400 em breve, não parece existir uma grande profundidade na distância para a tentativa imediata do recorde das estafetas. Martyn Rooney, Yousif e Cowan foram semi-finalistas em Berlim, mas os 3 + Hudson-Smith não parece ser o suficiente para ameaçar esta marca. Há ainda assim novos nomes que prometem despontar, como Cameron Chalmers ou Thomas Staines. A médio prazo pode voltar a ser uma possibilidade.
100m (F): 10.85 (0.0), Dina Asher-Smith, 7 de Agosto de 2018
A marca de Dina Asher-Smith, em Berlim, marca o começo de uma nova era no sprint feminino britânico, mas as fabulosas marcas da campeã europeia podem no futuro ser ameaçadas pelas chegadas de Imani Lara-Lansiquot e Kristal Awuah, que tiveram um ano de 2018 fantástico. A curto prazo, Asher-Smith apenas poderá ser batida por…Asher-Smith.
200m (F): 21.89 (+0.2), Dina Asher-Smith, 11 de Agosto de 2018
Se a marca dos 100 metros é enorme, o que dizer da dos 200 metros. A 2ª mais rápida inglesa da história (Kathy Cook) correu o seu melhor pessoal em 22.10 e a 3ª, Jodie Williams, fê-lo em 22.46, quando ainda muito prometia. Nos últimos 23 anos, Dafne Schippers foi a única europeia a correr mais rápido do que Dina. Será a detentora da marca por muitos anos, resta saber se a poderá melhorar.
400m (F): 49.41, Christine Ohuruogu, 12 de Agosto de 2013
Parece ser o recorde mais seguro por alguns anos. Ohuruogu é uma estrela local e há boas razões para isso.
É uma das 5 britânicas que baixou dos 50 segundos e foi campeã olímpica e mundial. Laviai Nielsen promete muito, mas não parece ainda ter o que é preciso para chegar ao nível de Ohuruogu.
4×100 (F): 41.77 (Philip, Henry, Asher-Smith, Neita), 19 de Agosto de 2016
8 das 9 melhores marcas foram obtidas nos últimos 3 anos, o que permite perceber a consistência pós-Maguire. Com o aparecimento em força de novos nomes como Lansiquot ou Awuah, a melhoria da marca será algo natural. O recorde não durará muito tempo. Se será com a mesma (ou semelhante) equipa não o sabemos. Mas, mesmo que seja exactamente o mesmo quarteto, essa é uma grande possibilidade.
4×400 (F): 3:20.04 (Ohuruogu, Okoro, McConnell, Sanders), 2 de Setembro de 2007
Tal como na prova individual, este é um recorde que não cairá tão cedo. Por muito bem que esteja a ser feito o trabalho nas estafetas, sem ovos não se podem fazer omeletes. Neste momento, a Grã-Bretanha não consegue ter uma seleção de atletas para correr na casa de 3:20 ou andar lá perto. Veremos o que reserva o futuro, que, para além de Nielsen, tem nomes como Zoey Clark, Hannah Williams ou Cheriece Hylton, que dependendo da evolução, podem fazer sonhar.
Foto de Capa: European Athletics
Artigo revisto por: Rita Asseiceiro













