Num fim-de-semana em que o Atletismo voltou a mostrar que está vivo e recomenda-se, com grandes marcas um pouco por todo o lado, estivemos presentes num dos eventos que marcou o calendário atlético, com a presença nos dois dias dos Anniversary Games, o Meeting de Londres da Diamond League! Mas afinal o que faz dos eventos Diamond League algo tão especial?

Organização

Tendo estado presente neste mesmo estádio nos Mundiais do ano passado (na altura, na condição de adepto do desporto) e nos Mundiais de Pista Coberta de Birmingham (já através da colaboração Bola na Rede / Planeta do Atletismo), a Organização que pude presenciar neste Meeting não ficou muito a dever à desses eventos. Claro que é um evento que dura menos tempo – principalmente o programa principal – e que não comporta em termos logísticos o peso de uns Campeonatos Mundiais. Ainda assim, no que diz respeito ao calendário, cumprimento de horários, áreas facilmente identificáveis para público/media/atletas, tudo isso foi muito parecido com o que encontrei anteriormente nesses dois eventos globais.

Existiu um factor, no entanto, que chamou mais à atenção e marcou a diferença. Estando os atletas fora da pressão de campeonatos globais, a proximidade dos mesmos com o público, acedendo a vários pedidos é muito maior. Para isso também muito contribui a fantástica área de aquecimento do Olímpico de Londres, em que não tendo o público acesso à mesma, consegue ver o que lá se vai passando e saber exactamente quando os seus atletas favoritos irão passar. No final, é também na mesma zona que os atletas se juntam, e aí já descontraídos, assiste-se àquele tipo de proximidade atleta/fã que estamos mais habituados em competições nacionais do que a nível internacional.

No que diz respeito à área de imprensa, as condições que o Estádio Queen Elizabeth proporciona estão ao nível das melhores do mundo, com duas salas de imprensa, mais a tribuna para os media, onde temos acesso aos resultados (e palavras dos atletas) em tempo real num monitor e acesso às imagens televisivas num outro que nos mostra aquilo que os espectadores veem em casa. Para quem ainda prefere os métodos antigos, existem sempre voluntários a correr com as startlists atualizadas impressas em papel para auxiliar. No interior do estádio, o acesso a outro tipo de informações em tempo real é uma constante, sendo os membros da imprensa alertados em tempo real acerca de qualquer novidade que possa existir respeitante ao evento através do email pessoal (como foi o caso da ausência de Christian Coleman lesionado no aquecimento, por exemplo).

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Fonte: Planeta do Atletismo/Bola na Rede

Público/Speaker

É difícil comparar o público britânico com qualquer outro. Vivem o Atletismo de forma diferente, especialmente quando se tratam de atletas locais ou outros mundialmente famosos (como é o caso de Yohan Blake ou Dafne Schippers, muito aplaudidos). Ainda assim, foi uma das edições deste meeting com menos público, o que será resultado da (nossa opinião, má) estratégia de ter 4 dias de Atletismo de elite em apenas 10 dias no mesmo estádio e com preços nada abonatórios. É que uma semana antes tinha decorrido a Athletics World Cup. E se pensarmos que o estádio comporta até 60.000 pessoas…Ainda assim, os presentes foram bastante ruidosos, fizeram a festa, embora aqui se deva destacar o papel que os speakers devem ter no Atletismo e têm em Inglaterra. A função de animar o público e o espectáculo é importante, mas mais importante ainda é a forma como esta função é vista em Inglaterra, com constantes informações pertinentes acerca dos atletas e das evoluções constantes nos concursos, relembrando dados importantes a quem o sabe e ensinando um pouco o público menos experiente nestas andanças, para que não se percam no meio de tantos e diferentes números. Por vezes sentimo-nos em casa a ver o concurso pela televisão com um comentador a dar-nos todas as informações importantes, o que num estádio ainda ganha um maior relevo, pois existem várias coisas a acontecer em simultâneo.

Os Resultados

O meeting dividiu-se em dois dias e essa divisão não podia ter sido mais distinta em termos de emoções e resultados. O primeiro dia produziu alguns interessantes resultados, mas foi um dia morno para os padrões da Diamond League. Vivíamos a ressaca de um dos mais espetaculares meetings de sempre (o do Mónaco, que tinha sido na sexta-feira) e a primeira notícia do dia não era nada animadora: Christian Coleman estava fora dos 100 metros! Ainda assim, existiram 3 grandes momentos a destacar do primeiro dia.

Primeiro, a qualidade das eliminatórias e da final dos 100 metros no masculino, com 6 atletas a baixar dos 10 segundos, mais um grande triunfo de Ronnie Baker, com Yohan Blake a correr pela primeira vez abaixo dos 10 segundos em 2018. Em segundo lugar, os 100 metros femininos que nem eram uma prova Diamond League, mas que nos deram um dos resultados que mais nos fez sorrir no fim-de-semana: Shelly-Ann Fraser-Pryce, regressada da maternidade, correu em 10.98, pela primeira vez este ano abaixo dos 11 segundos, tornando-se mesmo a primeira mulher da história a fazê-lo com menos de um ano após dar à luz! Como terceiro momento, destacamos Karsten Warholm nos 400 metros barreiras. Tal como o próprio admitiu, tem sido um ano estranho para ele, a correr mais rápido do que nunca, mas a perder mais vezes do que o habitual (muito por culpa do monstro chamado Abderrahman Samba). Em Londres, correu em 47.65 segundos, batendo o recorde nacional norueguês e o recorde do meeting!

No segundo dia, os grandes resultados foram uma constante! Desde logo, começámos com uns surpreendentes 1:42.05 de Emmanuel Korir nos 800 metros, que são a nova marca líder do ano, recorde do meeting e tornam Korir no 6º mais rápido de sempre na distância! Depois vimos, um jamaicano ficar muito próximo de um recorde de…Usain Bolt! Akeem Bloomfield, de apenas 20 anos, correu os 200 metros em 19.81, bem próximo do recorde do meeting (19.76). Um enorme recorde pessoal para o jamaicano.

Mas no feminino, as coisas também correram bastante bem. Nas duas provas mais esperadas da tarde, duas lideranças mundiais! Primeiro, com Kendra Harrison a dominar de forma exemplar os 100 metros barreiras e a vencer um elenco fortíssimo (pela primeira vez na história, 9 mulheres abaixo dos 12.80!), com um tempo de 12.36.

Por fim, Sifan Hassan (foto de capa) correu como nunca na distância da Milha e terminou em 4:14.71, o terceiro tempo mais rápido de toda a história da distância, numa prova recheada de recordes pessoais e nacionais.

Nos Saltos, a qualidade também foi elevada. No primeiro dia, vimos um Sam Kendricks a levar a melhor na Vara, com um salto de 5.92 metros e no segundo dia vimos Luvo Manyonga brilhar no Comprimento, batendo por 3 vezes o recorde do meeting, a última vez com recorde do estádio, ao saltar 8.58 metros!

Já no feminino, um enorme concurso de Salto em Altura, igualou o melhor de Lasitskene nesta temporada (2.04 metros), sendo que a grande surpresa foi a italiana Elena Vallortigara que passou 2 metros e 2 centímetros, enorme recorde pessoal!

Outros Eventos

No restante fim-de-semana, destaque para o Meeting do Mónaco, onde vimos grandes marcas, incluindo um recorde mundial a cair com estrondo! Beatrice Chepkoech correu os 3000 metros obstáculos em 8:44.32, retirando mais de 8 segundos ao anterior recorde de Jebet!

Beatrice Chepkoech, a nova recordista mundial dos 3.000 metros obstáculos
Fonte: IAAF

No feminino, vimos também Shaunae Miller-Uibo correr pela primeira vez abaixo dos 49 segundos (48.97), o tempo mais rápido desde 2009, sendo já a 10ª mais rápida de sempre, numa fantástica prova em que Naser correu em 49.08 no segundo lugar (!), com novo recorde asiático.

No masculino, destaque para uma prova de 1500 metros, recheada de melhores marcas, que contou com a líder do ano por parte de Timothy Cheruiyot (3:28.41) e com mais um recorde para o jovem de 17 anos norueguês, Jakob Ingebrigtsen (3:31.18), neste caso o novo recorde europeu júnior. Na mesma prova, o seu irmão Filip bateu o recorde nacional norueguês! Nos 200 metros, Noah Lyles continuou o seu show e baixou o seu melhor pessoal nos 200 metros para 19.65, sendo já o 8º mais rápido da história e o Triplo contou com Pichardo e Évora, numa prova vencida pelo habitual Christian Taylor (17.86, +2.1). Pichardo fez 17.67 (+2.4) na segunda posição e Évora foi oitavo, com 16.24 (+1.9).

Por Portugal, foi fim-de-semana de Nacionais de Clubes, com poucas surpresas na I Divisão. O Sporting venceu de forma confortável no feminino e o Benfica venceu no masculino, talvez com maior conforto do que se esperaria também. Curiosamente, em termos de marcas os melhores resultados vieram, no masculino e no feminino, de atletas do Sporting, com Patrícia Mamona a saltar 14.19 metros no Triplo (repetindo o que já tinha feito em França a meio da semana) e Carlos Nascimento a mostrar mais uma vez a sua boa forma com duas vitórias (10.31 nos 100 metros e 21.05 nos 200 metros, este um recorde pessoal).

O Sporting venceu 23 títulos nos últimos 24 anos no Feminino!
Fonte: FPA

Os Nacionais ficaram também rodeados de alguma polémica pela participação de estrangeiros com condições de admissibilidade questionadas por clubes e outras entidades.

 

Foto de Capa: European Athletics

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O Pedro é um amante de desporto em geral, passando muito do seu tempo observando desportos tão variados, como futebol, ténis, basquetebol ou desportos de combate. É no entanto no Atletismo que tem a sua paixão maior, muito devido ao facto de ser um desporto bastante simples na aparência, mas bastante complexo na busca pela perfeição, sendo que um milésimo de segundo ou um centimetro faz toda a diferença no final. É administador da página Planeta do Atletismo, que tem como principal objectivo dar a conhecer mais do Atletismo Mundial a todos os seus fãs de língua portuguesa e, principalmente, cativar mais adeptos para a modalidade.                                                                                                                                                 O Pedro escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.