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Portugal de luxo em fortes Europeus Indoor | Atletismo

Pedro Pires · 11 min

Foto: European Athletics

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Os Campeonatos Europeus em pista coberta decorreram de 4 a 7 de março e o atletismo português saiu dos mesmos com nota bastante positiva. Três medalhas, três de Ouro e cinco finalistas no total (mais uma presença na final, mas sem direito a diploma de finalista) ajudam a ter uma boa percepção da grande prestação das cores nacionais. Mas há mais.

A nível geral, foram uns Campeonatos com bastante emoção, até em provas onde os vencedores se consagraram com resultados algo banais para os padrões habituais. Outros elevaram o nível e o número de marcas líderes europeias e líderes mundiais que saíram de Torun acabaram por surpreender quem vaticinava que estes seriam uns campeonatos mais fracos do que o habitual.

A EXCELENTE PRESTAÇÃO PORTUGUESA

Ouro para Auriol Dongmo. Ouro para Pedro Pablo Pichardo. Ouro para Patrícia Mamona. Quarto lugar de Francisco Belo. Quinto lugar de Carlos Nascimento. No que diz respeito ao número de medalhas e finalistas, era precisamente esse o número que tinhamos apontado, embora tenhamos apontado para apenas duas das medalhas serem de Ouro. Nascimento bateu o seu recorde pessoal nos 60 metros; Belo bateu primeiro o recorde pessoal (21.04 metros) e, depois, o recorde nacional indoor, com enormes 21.28 metros; e Patrícia Mamona aumentou o seu recorde nacional em pista coberta no Triplo.

Em relação às medalhas de Ouro, o caminho para elas foi diferente. Auriol Dongmo entrou como favorita, cumpriu os mínimos na qualificação, e fez logo uma grande lançamento, ao segundo ensaio na final do concurso do Peso (19.21 metros). Ainda assim, um totalmente inesperado recorde nacional sueco de Fanny Roos ao quinto ensaio (19.29 metros), virava o concurso e colocava a sueca em primeiro. No entanto, Auriol demonstrou uma grande frieza e, logo de seguida, ainda no quinto ensaio, respondeu com 19.34 metros, conseguindo com essa marca alcançar o Ouro.

Foi um grande concurso de Auriol, que pode não se ter aproximado do seu recorde nacional, mas teve quatro lançamentos válidos e todos eles acima dos 19 metros! Na cerimónia de entrega de medalhas, a atleta não conseguiu evitar as suas emoções, sentindo o hino, como já pouco estamos habituados a ver.

Já Pedro Pablo Pichardo teve um concurso totalmente oposto. O português saltou logo a 17.30 metros no primeiro ensaio e se quisesse poderia, de imediato, ter voltado para a caminha. Os outros três saltos válidos que fez chegariam na mesma para o Ouro, mas foram mais curtos que o inicial, não conseguindo, ainda, bater o recorde nacional de pista coberta, que pertence a Nelson Évora, com 17.40 metros. Ainda assim, isto são Campeonatos, não se ligue muito a marcas, pois o mais importante foi feito. Medalha de Ouro para casa e esperamos que seja a primeira de muitas medalhas internacionais de Pichardo com as cores portuguesas.

Os outros elementos do pódio (Alexis Copello e Max Hess), ao menos, passaram os 17 metros. Mas Copello (Prata) ficou a…26 centímetros de Pichardo, o que demonstra bem a superioridade do português!

Por fim, Patrícia Mamona foi o Ouro menos esperado. Não que a portuguesa não tivesse já mostrado um bom momento de forma semanas antes em Madrid (14.21m). Ela estava bem e isso dava para perceber, mas havia a espanhola Ana Peleteiro – que tinha sido a campeã em Glasgow – e havia a grega Paraskevi Papachristou, que é a atual campeã europeia ao ar livre e que já tinha saltado a 14.60 metros este ano, na mesma arena dos campeonatos. Na Qualificação, a atleta portuguesa pôs todas em sentido ao fazer, logo ao primeiro salto, 14.43 metros, a um cm do seu recorde nacional em pista coberta e melhor marca da qualificação.

Na final, Mamona começou muito forte, logo a 14.35 metros, subindo para 14.38 metros ao segundo ensaio, mostrando que estava consistente (o seu salto válido mais curto foi a…14.29 metros!), mas foi o seu terceiro salto, a 14.53 metros, um novo recorde nacional indoor, que lhe viria a dar a vitória na prova. Mas com sofrimento…a alemã Neele Eckhardt alcançou um recorde pessoal, ao terceiro ensaio, a um cm de Patricia…e Ana Peleteiro (que ficou com a Prata) saltou no último ensaio também a 14.52 metros!

Assim, a distância do primeiro ao terceiro posto foi de apenas um centímetro (!), mas, felizmente, para as cores nacionais quem saltou mais longe foi mesmo Patrícia Mamona, que alcançou o seu primeiro título europeu em pista coberta (havia sido Prata em Belgrado), depois de ter sido campeã ao ar livre em Amesterdão, em 2016.

Além dos já citados grandes resultados de Francisco Belo e Carlos Nascimento, houve outros resultados pessoais de enorme valia. Mariana Machado bateu o recorde pessoal e sub-23 nacional (8:59.39) e marcou presença na final dos 3.000 metros (embora sem o diploma de finalista, por não ter ficado entre as oito primeiras). Também nos 3.000 metros, Samuel Barata bateu, por larga margem, o seu recorde pessoal na distância, finalizando em 7:53.39. Na velocidade, Rosalina Santos também sairá satisfeita por, na sua estreia em grandes competiçoes internacionais, ter conseguido chegar às semi-finais dos 60 metros.

Grandes campeonatos para Francisco Belo, cada vez mais elite mundial
Fonte: European Athletics

É verdade que, talvez, fosse esperado mais de algumas prestações, dado o que esses atletas já nos mostraram no passado (Marta Pen Freitas e Ricardo dos Santos à cabeça), mas era complicado pedir melhor, sabendo das limitações dos referidos atletas na preparação para estes Campeonatos, bem como sabendo que o principal foco da temporada está lá mais para a frente.

No geral, Portugal foi o segundo país a conquistar mais Medalhas de Ouro (apenas atrás da Holanda) e foi nono no que diz respeito ao total de medalhas, tabela que foi dominada pela Grã-Bretanha (12), seguida da Polónia (dez) e da Holanda (sete). Portugal conseguiu ainda alcançar o maior número de pontos da história de participações nestes campeonatos (33) e igual o número máximo de medalhas (também foram três em Valência, em 1998), mas desta feita só com Ouros!

INTERNACIONAL: HOUVE DE TUDO E NÓS RESUMIMOS EM CINCO PONTOS!

À partida, estes eram uns campeonatos que muitas “más-linguas” não depositavam grandes esperanças. Algumas estrelas não tinham demonstrado interesse em participar para se focarem só nos Jogos de Tóquio, muitos atletas tinham tido uma preparação deficitária devido à pandemia mundial e alguns atletas pareciam longe da melhor forma.

A verdade é que estes campeonatos tiveram de tudo um pouco e foram quatro dias fantásticos para qualquer amante de atletismo.

1.

As estrelas não desapontaram – Desde Kevin Mayer a Nafi Thiam, passando por Mondo Duplantis, Pedro Pichardo ou Yaroslava Mahuchikh, quase todas as maiores estrelas mundiais apresentaram-se em grande forma e mostraram levar bem a sério estes campeonatos. Deles vieram recordes pessoais, recordes nacionais e recordes dos campeonatos, mostrando que, se não estivessem no seu melhor, aqui não estariam.

Mas a grande estrela, entre as estrelas, foi mesmo Jakob Ingebrigtsen, que conquistou o Ouro nos 1.500 metros e nos 3.000 metros, ultrapassando um calendário bastante exigente (impossível para a maioria!) e parecendo fazê-lo num ritmo totalmente controlado. Às vezes, até pode parecer arrogante nas suas atitudes, mas se o for, até temos que o perdoar um pouco.

2.

Quem muito prometia nos meses antes, provou já estar no patamar… das estrelas – Nadine Visser vinha fazendo uma temporada verdadeiramente fantástica e aqui confirmou que meteu uma mudança extra em 2021, devendo ser levado a sério por todas as adversárias em qualquer competição.

Havia outros nomes que, a caminho destes Europeus, ainda não eram estrelas, mas que se começavam a mostrar com grandes resultados – marcas de elite na Europa e no Mundo. Keely Hodgkinson, Auriol Dongmo e Wilhem Belocian provaram que o estatuto de favoritos que traziam não era por acaso e não tremeram nem um bocadinho, mesmo em provas onde foram fortemente pressionados.

Mas o grande destaque neste campo tem mesmo que ser Femke Bol. A jovem holandesa, de 21 anos, e que é especialista nos 400m barreiras, provou em Torun que deve ser tida em conta para tudo a nível mundial e que, talvez, até não esteja assim tão longe do nível de Sydney McLaughlin e Dalilah Muhammad nas barreiras. É para acompanhar, daqui a pouco tempo, ao ar livre, mas, para já, mostrou uma autoridade incrível, tanto na prova individual, quanto a comandar o último percurso das estafetas, sendo uma das estrelas dos campeonatos.

3.

A redenção chegou… e com qualidade! – Patrícia Mamona ainda não tinha um título europeu em pista coberta (tinha ao ar livre) e, finalmente, chegou ao Ouro. Não foi por demérito das adversárias. A portuguesa teve que bater o recorde nacional para chegar à glória! Mas não foi a única. Isto pode parecer estranho para quem segue o Atletismo com regularidade – mas podem confirmar! – a ucraniana Maryna Bekh-Romanchuk ainda não tinha um grande título internacional no Comprimento. Alcançou-o aqui e de uma forma gloriosa: no último ensaio, saltou a 6.92 metros, marca líder do ano, ultrapassando a campeã mundial e grande favorita, a germânica Malaika Mihambo.

Outro que não vão acreditar: apesar de muitas medalhas, o checo Tomas Stanek nunca tinha chegado a um Ouro internacional! Para o conseguir, chegou aos 21.62 metros, ao quinto ensaio, batendo a estrela da casa (Michal Haratyk), que se apresentava como o campeão europeu, tanto ao ar livre, quanto em pista coberta!

Por fim, Óscar Husillos. O espanhol tem a carreira marcada por, em 2018, ter corrido em recorde europeu, para o que seria o Ouro mundial. Fotos foram tiradas, festejos efusivos à volta da pista, mas…acabou por ser desqualificado por pisar na linha, numa decisão que pareceu demasiado rigorosa. Nos Europeus de Glasgow foi Prata, mas aqui, em Torun, conseguiu finalmente o Ouro, numa prova em que foi incrivelmente corajoso: não era favorito, não trazia grandes marcas este ano, mas impôs um nível altíssimo na primeira parte da corrida, obrigando todos a tentar ir com ele. Mereceu.

4.

A velocidade curta afinal estava viva – Muita gente dizia que os 60 metros eram as provas menos interessantes dos campeonatos. Afinal, a maioria da elite masculina e feminina parecia ter abdicado de cá estar e até a favorita da casa, Ewa Swoboda, acusou COVID um dia antes da prova! Tudo se comprovou ser bastante exagerado. As qualificações foram bastante equilibradas e emocionantes, mas, ainda assim, ninguém estava preparado para as duas corridas monstruosas, duas marcas líderes mundiais do ano nas finais: Marcell Jacobs provou que a transição forçada do Comprimento para a velocidade tem corrido muito bem (6.47m) e Ajla Del Ponte (7.03) mostrou que, provavelmente nem Swoboda a pararia.

5.

Emoções ao limite – Claro que o Triplo, onde Mamona se sagrou campeã, é o exemplo máximo disso: Do Ouro ao Bronze houve um centímetro de separação! Mas houve mais provas bastante competitivas e algumas de forma bem surpreendente. O já referido Comprimento feminino viu a liderança mudar no último salto, mas no masculino o nível também foi bastante elevado, com quatro cm a separarem o Ouro (de Miltiadis Tentóglou) da Prata (e o Bronze a sete cm da Prata). F

alando de saltos, é impossível esquecer o fantástico concurso da Altura masculina: nem podemos apontar nada a Gianmarco Tamberi por não ter alcançado o esperado Ouro, saltou a 2.35 metros, uma grande marca…mas, certamente não contaria que Maksim Nedasekau batesse o recorde nacional e chegasse à liderança mundial, com 2.37 metros, principalmente num dia em que as coisas pareciam tremidas para ele!

A prova de 60 metros barreiras não poderia ter sido mais equilibrada com o campeão mundial, Andy Pozzi a perder no mínimo possível (7.42 / 7.43), mas também a meia distância, sobretudo a feminina, nos 1.500m e 3.000m, deram-nos disputadas até ao último segundo, mesmo que as estratégias dos atletas nem sempre tenham sido as melhores. Isto é Atletismo.

Todos os novos campeões europeus em pista coberta:
60m (m): Marcell Jacobs (ITA), 6,47 WL
60m (f): Ajla Del Ponte (SUI), 7.03 =NR, WL
400m (m): Óscar Husillos (ESP), 46.22
400m (f): Femke Bol (HOL), 50.63 NR EL
800m (m): Patryk Dobek (POL), 1:46.81 PB
800m (f): Keely Hodgkinson (GBR), 2:03.88
1.500m (m): Jakob Ingebrigtsen (NOR), 3:37.56
1.500m (f): Elise Vanderelst (BEL), 4:18.44
3.000m (m): Jakob Ingebrigtsen (NOR), 7:48.20 PB
3.000m (f): Amy-Eloise Markovc (GBR), 8:46.43 PB
60m barreiras (m): Wilhem Belocian (FRA), 7.42 EL PB
60m barreiras (f): Nadine Visser (HOL), 7.77 NR WL
Salto em Altura (m): Maksim Nedasekau (BLR), 2.37m NR WL
Salto em Altura (f): Yaroslava Mahuchikh, 2.00m
Salto com Vara (m): Mondo Duplantis, 6.05m CR
Salto com Vara (f): Angelica Moser (SUI), 4.75 PB
Salto em Comprimento (m): Miltiadis Tentóglou, 8.35m WL
Salto em Comprimento (f): Maryna Bekh-Romanchuk (UKR), 6.92m WL
Triplo Salto (m): Pedro Pablo Pichardo (POR), 17.30m
Triplo Salto (f): Patrícia Mamona (POR), 14.53 NR
Lançamento do Peso (m): Tomas Stanek (CZE), 21.62m
Lançamento do Peso (f): Auriol Dongmo (POR), 19.34m
Pentatlo (f): Nafi Thiam (BEL), 4904 pontos NR
Heptatlo (m): Kevin Mayer (FRA), 6392 pontos
4×400 (m): Holanda, 3:06.06
4×400 (f): Holanda, 3:27.15 CR

 

Foto de Capa: European Athletics

Pedro Pires

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