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A questão é recorrente e muitas teorias existem. Mas antes de aprofundarmos o tema, convém frisarmos que mesmo entre quenianos ou etíopes, existem diferentes tipos de apetência e conseguimos perceber que a grande maioria dos atletas profissionais vêm das mesmas tribos e regiões: 3/4 dos corredores quenianos são Kalenjin e na Etiópia, o povo Oromo – que representa a grande maioria dos corredores – dividem com os Kalenjin a mesma origem dos povos do Nilo. Curioso também é que mesmo no Uganda, todos os corredores de elite pertencem aos Sebei que…têm a mesma origem dos Kalenjin (são na verdade um subgrupo). E o britânico Mo Farah até nasceu ali ao lado na Somália…
O mais aceite na actualidade é que não exista um factor explicativo, mas sim várias razões que levam a que estes países do leste africano apresentem o domínio praticamente absoluto no que diz respeito às distâncias mais longas. De forma a tornar as coisas mais fáceis de entender, deixaremos de parte certos termos científicos e iremos dividir em seis grandes grupos:
O Factor Genético e o Corpo Humano: É o argumento mais vezes apontado por quem se encontra no Ocidente. Tem peso? Os estudos feitos ainda não o conseguiram comprovar, mas é bastante sugestivo que sim. Quadris estreitos, estatura relativamente pequena, pouca massa gorda, pernas mais longas, mais finas, permitem diminuir o consumo energético em até 8% por quilómetro em comparação com corredores de elite nórdicos que não possuam essas características e é um factor que contribui positivamente para a economia de corrida ideal. Por outro lado, estas diferenças de características também irão “obrigar” a que o tipo de treino também seja totalmente diferente, adaptando os seus treinos para sessões bastante mais intensas e exigentes para estarem preparados para longas distâncias.
A Geografia: Durante muito tempo se pensou que a vantagem competitiva se devia maioritariamente à geografia destes povos e à altitude de onde são provenientes. Também contribui. Claro que existem muitos outros povos por esse mundo fora que vivem em elevadas altitudes e não possuem os mesmos resultados desportivos do leste africano, muitos aliás nunca sequer produziram um atleta de topo. Verdade também é que um dia se pensou que os finlandeses dominavam devido à sua geografia e à suposta “energia climática” presente. Ainda assim, é um facto que o facto de estarem habituados a viver e treinar em altitude (em alguns casos, acima dos 2000 metros), permite que os pulmões dos habitantes destas regiões tenham uma maior capacidade de oxigenação que irá influenciar o rendimento e consequentemente a economia de corrida. A tudo isso junta-se o facto de correrem em terrenos em terra batida e montanhosos, requerendo um treino de maior força. Mesmo entre quenianos, existe uma comprovada diferença entre os que vivem em regiões onde têm que se deslocar para a escola – quando crianças – a pé, a correr ou os que utilizam outros meios de transporte. Ainda que este seja um argumento várias vezes negado como crucial, o gráfico abaixo comprova a diferença entre quenianos comuns (no grupo controlo) e quenianos atletas de alta competição, podendo perceber o peso que essa força do hábito pode vir a ter nos atletas do futuro. Conforme nos explica o treinador formador de muitas estrelas no leste africano, Renato Canova “É bem mais pelo tipo de vida que levam: dez quilómetros a pé para ir e voltar da escola e, quando chegam a casa, brincam mais três ou quatro horas, a correr”.

A Dieta: Uma dieta rica e simples baseada em carbohidratos é o maior sonho do nosso nutricionista ou personal trainer, mas nesta região do globo isso é algo que acontece desde bem cedo, de forma natural, sem ser necessário qualquer esforço extra. Arroz, muita massa de milho (ugali) várias vezes ao dia, muito leite, muitos legumes, chá, pouca carne e praticamente nenhum alimento processado. Parece monótono, mas é a combinação ideal que permite aos atletas destas regiões manterem os baixos níveis de massa gorda no corpo, ajudando no treino e na recuperação diária. Sozinha nada faz e todos podemos replicar (em certa medida) a mesma alimentação. Mas contribui.
Cultura de Corrida: Todos os dias é comum ver grupos de dezenas, 100, 200 corredores em conjunto, guiados por actuais ou antigas estrelas da resistência. Isto vê-se no Quénia, na Etiópia, mas é uma visão impensável para quem se encontra no Ocidente. É o desporto, por excelência, da grande maioria dos que aspiram a ser atletas, porque além de ser o “mais fácil” (afinal, é “só” correr), é ainda o mais barato (poucos ou nenhuns custos associados ao treino) e no qual existem referências nacionais ali junto a eles. Claro que o gosto pela corrida também se explica pela busca pela melhoria das condições financeiras. Um atleta de nível intermédio (não atingindo o estrelato internacional) poderá ganhar mais dinheiro do que um professor ou um agente da polícia em ambos os países. Imaginar que podem chegar ao nível máximo do reconhecimento internacional e associar isso ao factor financeiro pode ser um grande elemento motivador no percurso destes atletas. Kipchoge “Kip” Keino no Quénia, Adebe Bikila na Etiópia foram pioneiros nos seus países e são dos maiores responsáveis pelo sucesso fora de portas. São mais de cem clubes de atletismo registados oficialmente no Quénia, mas muitos outros existem de forma não oficial.
Trabalho / Treino: Não é um argumento que cai muito bem no Ocidente, mas a verdade é que, embora todos os factores apresentados contribuam, a chave deverá mesmo estar aqui. O tipo de treino e intensidade dos treinos nesta zona do globo são bastante mais exigentes do que os que estamos habituados no Ocidente. O respeito pelo descanso e pela importância da recuperação está presente na sua rotina, mas isso não impede que treinem regularmente mais do que uma vez por dia desde pequenos, em terrenos difíceis, com várias elevações, muitos treinos em ritmo de corrida, muitos treinados intervalados e intensidade bastante elevada. Claro que muito desse espírito vem dos factores anteriormentes apresentados. Muitas vezes é a motivação dos pares ou a questão financeira apresentada no ponto anterior, que imputa essa força de vontade e espírito de sacrifício acima da média. Se no Ocidente, o Atletismo é visto como um desporto que paga mal (Usain Bolt à parte), em certas regiões do globo é a via mais fácil para um vida financeira estável e isso só se consegue com muito trabalho. No Quénia e na Etiópia toda a gente treina. E muito. A competição interna é tão intensa quanto a internacional e é aqui a base de tudo. Se não mostrarem a diferença internamente, nunca alcançarão a glória no exterior. Ser o melhor não é fácil e exige um trabalho extra, único, que não tem paralelo em outro pais a nível do Atletismo (talvez apenas os EUA na velocidade – com ou sem barreiras – se assemelhem a nível de exigência interna). “Se fores o melhor no teu país, podes muito bem ser o melhor do mundo. Treina duro, sê humilde, reconhece as tuas fraquezas e no final as recompensas aparecerão.”.
Crenças – O factor psicológico: Numa pequena cidade etíope, Bekoji, com apenas 16.000 habitantes já se viu entrar mais medalhas olímpicas do que, por exemplo, Portugal tem em toda a sua história do Atletismo olímpico. As irmãs Dibaba, Bekele ou Derartu Tulu são apenas alguns dos gigantes que ali nasceram e cresceram. Olhando para os exemplos que os rodeiam, quem dessa comunidade faz parte sabe do seu sucesso, convive com ele todos os dias, sabe que isso é possível e quer repetir os feitos. É como se existisse um sentimento de responsabilidade e de tradição a seguir. A crença que existe no mundo de que os atletas desta região são superiores e imbatíveis acaba por influenciar no espectro psicológico. Afecta os leste-africanos porque se consideram, de facto, mais fortes e com um legado a respeitar e honrar. Afecta todos os outros porque assumem a superioridades dos leste-africanos antes mesmo das provas iniciarem, antevendo que não serão capazes de dar resposta e falhando assim nos momentos importantes. Muitas vezes o que se vê no olhar de quenianos/etiopes é aquele sentimento de imbatibilidade em que eles próprios acreditam. O mesmo que os jamaicanos acreditam e demonstram desde bem cedo na velocidade. Alguém se recorda da expressão e do comportamento de Conseslus Kipruto (KEN) em Londres este ano, ao terminar a prova em primeiro lugar e conquistando o Ouro? E o favorito este ano até era o americano Evan Jager. No final, algo correu mal e Jager ficou com o Bronze. Ou correu bem. Afinal, correu como toda a gente pensa que acabará por correr. Com a vitória de quem é superior.
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Gostaríamos de encontrar uma razão que explicasse todo o sucesso do leste-africano na resistência. Mas essa razão não existe. Existem vários factores que explicam esta superioridade e que só em conjunto podem resultar. Resta-nos apreciar o cenário e imaginar até onde os limites do corpo humano podem chegar a nível de resistência física.
Foto de Capa: Traininkenya.com








