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À espera que Lappartient se decida

José Baptista · 4 min

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Recentemente, estava a ler o livro de Emma O’Reilly em que ela fala sobre o seu tempo na US Postal e tudo o que se passou depois. O’Reilly trabalhou como soigneur na equipa americana e foi até a responsável por tratar Armstrong durante a sua primeira vitória no Tour de France e viria depois a ser a primeira voz a falar publicamente e sem anonimato sobre o recurso a substâncias proibidas no conjunto de Armstrong e Bruyneel.

Um dos episódios que a irlandesa recorda é uma situação em que no fim duma etapa quando conduzia Armstrong para o hotel, este ter ligado ao então presidente da UCI, Hein Verbruggen, para se queixar das ações de um Comissário. Ora, é claro que este comportamento é claramente inapropriado e esta e outras situações deixaram a UCI com um problema profundo de credibilidade.

O sucessor de Verbruggen também não deixaria saudades. Apesar de deixar a UCI numa posição mais respeitável que aquela em que a encontrou, diz tudo sobre o mandato de Pat McQuaid que seja mais lembrado por durante o seu tempo à frente da UCI o seu filho se ter tornado no principal agente de ciclistas a nível mundial que por outro qualquer motivo.

Finalmente, com a chegada de Brian Cookson a UCI parecia ter entrado num novo ciclo. Apesar de também não ser imune a conflitos de interesses, nomeadamente no respeitante às questões britânicas, onde tinha anteriormente chefiado a Federação nacional, é incontornável o legado que deixou na modalidade.

Pragmático na sua abordagem aos problemas, deu um grande impulso ao ciclismo feminino, à pista e ao paraciclismo e deu ao ciclismo de estrada masculino uma estabilidade que este não encontrava há algum tempo, tanto nas competições como fora delas em termos organizativos e de fiscalização.

Cookson lançou o World Tour feminino em 2016
Fonte: The Women’s Tour

No entanto, não era tão forte no agradar aos interesses dos presidentes das diversas federações e, ao fim de somente um mandato, foi substituido pelo francês David Lappartient. E, o que dizer de Lappartient?

Uma boa palavra para descrever a sua presidência até ao momento é fiasco. Desde a ataques diretos à Team Sky/Team INEOS, incluindo a apresentação de medidas direcionadas a parar o seu domínio no Tour (ainda sou do tempo em que devia haver imparcialidade e o que importava era o desenvolvimento do desporto, não impedir uma determinada equipa de vencer), a avanços e recuos em supostas mudanças regulamentares ou à imposição de limites de tamanho das meias dos ciclistas.

Dave Brailsford, o Diretor da INEOS, fez-lhe certa vez uma acusação que encaixa perfeitamente em Lappartient, dizendo que este ”ainda tem a mentalidade de um Mayor local francês” (Lappartient é também o Maire de Sarzeau desde 2008). A verdade é que parece mesmo que Lappartient está mais interessado em sorrir para fotos e ter alguma popularidade barata a ter um impacto real e positivo no desporto do qual é o órgão máximo.

A azelhice atinge agora limites nunca antes vistos e, a poucos meses do final da época, ninguém sabe o que vai acontecer em 2020. Equipas e patrocinadores deparam-se com uma total incerteza quanto a vários aspetos regulamentares e têm de construir uma equipa mesmo sem ter acesso a todas as informações que precisam.

Veja-se, então: primeiro, era suposto que, a partir do próximo ano, as duas melhores equipas Profissionais Continentais terem acesso às provas World Tour que quisessem, depois já era para aumentar o número de equipas no World Tour de 18 para 20 e, agora, ninguém sabe afinal qual vai ser a decisão tomada pela UCI.

De realçar que qualquer destas medidas vai tirar autonomia às organizações e, diminuindo os wildcards disponíveis, pode acabar por também matar várias equipas em países como Itália, Espanha ou EUA, em que a impossibilidade acesso às principais provas nacionais deixa os patrocinadores sem interesse em investir.

Mas, há também outras questões como a suposta obrigatoriedade das equipas Profissionais Continentais terem no mínimo 20 ciclistas, outra regra que foi anunciada, mas que ainda não está confirmada. A Hagens Berman Axeon, uma das mais bem cotadas equipas de desenvolvimento, já anunciou que vai descer de Continental Profissional para Continental em 2020, porque não pode suportar o incremento de custos que teria a confirmarem-se as novas regras. Equipas como a W52/FC Porto, a Bardiani ou a Novo Nordisk são outras que poderão ser outras afetadas.

A UCI é uma instituição bafienta e pouco democrática, como prova o facto de Lappartient ser apenas o seu 11.º presidente em 119 anos, e com um historial de decisões que acabaram por prejudicar o desporto, mas há mínimos que são precisos cumprir, coisa que este Presidente se está a demonstrar incapaz de fazer.

Já não estamos nos 1900’s em que uns senhores belgas e franceses mandavam na modalidade, mas parece que alguém se esqueceu de avisar Lappartient (e também a ASO). Pelo bem do Ciclismo, é urgente que os destinos da UCI voltem a ser entregues a alguém responsável, que saiba o que está a fazer e perceba como fazer o ciclismo avançar no tempo.

Foto de Capa: Le Tour de France

Revisto por: Jorge Neves

José Baptista

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