Nos dias que antecederam a Amstel Gold Race já era possível perceber que algo iria acontecer no sul da Holanda. Nos pequenos hotéis espalhados pelas pequenas vilas em redor de Maastricht viam-se os carros e as caravanas das equipas.

Pelas subidas mais famosas, como o Cauberg, os nomes dos ciclistas já estavam inscritos na estrada. Perto de Valkenburg, a escassos quilómetros do local da chegada, em Vilt, cartazes gigantes com a figura de Mathieu Van der Poel tapavam as casas. O jovem ciclista holandês estava debaixo dos olhos de todos e era em quem todos os habitantes locais depositavam as suas esperanças.

Chegado o dia da corrida, Maastricht (local da partida simbólica), mais de duas horas antes da partida, a cidade estava quase deserta. Mas, à medida que nos íamos aproximando da praça central a música começava a fazer-se ouvir.

Palavras de apoio aos ciclistas cobriam a subida do Cauberg
Fonte: Ana Rita Nunes

A zona da partida, as grades, o palco, as tendas do merchandising, tudo estava pronto para receber os ciclistas. A hora da apresentação das equipas aproximava-se e as pessoas começavam a chegar-se ao palco e a rodear todas as barreiras junto ao local onde passariam os seus atletas favoritos. Eis que as equipas começaram a chegar para assinar o livro de ponto. Por entre as equipas mais desconhecidas iam surgindo os atletas de topo. A primeira equipa do World Tour a chegar foi a UAE que trouxe à Amstel ciclistas como Sergio Henao, o português, Rui Costa e Tadej Pogacar, vencedor da Volta ao Algarve.

A hora da partida aproximava-se e os grandes nomes do ciclismo mundial começaram a aparecer: Michael Valgren (vencedor da edição anterior), Matteo Trentin (campeão europeu), Jakob Fuglsang, Peter Sagan, Greg Van Avarmaet, Julien Alaphillippe, Philippe Gilbert (vencedor de várias edições da corrida), Alejandro Valverde (campeão mundial), Michal Kwiatkowski (ex-campeão mundial). Estes são apenas alguns daqueles que estiveram presentes, tendo em conta que o público teve o privilégio de ter contacto com um pelotão de luxo.

Julien Alaphillippe a dirigir-se ao palco sob o olhar atento do público
Fonte: Ana Rita Nunes

Pouco depois, os ciclistas alinharam para a partida e houve quem chegasse em cima da hora e não tivesse tempo para ir para o “fim da fila”. Uma situação caricata protagonizada por Peter Sagan e mais um par de ciclistas. A chegada tardia do ciclista da Bora parecia fazer prever a desastrosa prestação na corrida que se avizinhava. A estrela eslovaca viria a abandonar a corrida.

Dada a partida era hora de seguir para outra paragem. Sair pelo meio da multidão em direção á estação dos comboios não foi fácil. No comboio não cabia nem mais uma pessoa. Milhares de pessoas pela rua juntavam-se à festa do ciclismo que seguiu de Maastricht para Valkenburg.

Chegando à pequena cidade holandesa foi fácil perceber onde iriam passar os ciclistas. Centenas de pessoas concentravam-se pela cidade ao longo das ruas com bandeiras à espera de ver o pelotão passar. A seguir à curva, iniciava-se uma das mais famosas subidas: Cauberg. Para a primeira passagem do pelotão ficámos na base da subida. Olhando para cima, um mar de gente cobria a berma da estrada até perder de vista.

Local onde, antes do início da subida, as pessoas se posicionaram para ver os ciclistas
Fonte: Ana Rita Nunes

Depois de os ciclistas passarem, grande parte das pessoas iniciou a subida, na esperança de encontrar um lugar para assistir à segunda passagem no Cauberg. À passagem dos atletas, o entusiasmo do público fazia-se sentir de forma inacreditável. Era gente de todos os cantos do mundo a gritar pelos seus favoritos. T-shirts das equipas, chapéus tradicionais, bandeiras, cânticos, buzinas… Cada um apoiava à sua maneira.

No entanto, esta festa não acontecia apenas quando o pelotão masculino passava. A corrida feminina decorria em simultâneo e, quem esteve presente na zona da subida, teve a possibilidade de ver as três passagens do pelotão feminino pelo local. Para quem está habituado a outras andanças, assistir a tamanho entusiasmo pela corrida feminina foi deveras surpreendente.

Subir o Cauberg em direção à meta não foi tarefa fácil, principalmente com o calor que se fazia sentir. No entanto, a atmosfera festiva e de celebração ao longo do caminho atenuou o cansaço.

À medida em que surgia a placa do quilómetro final para a meta é que percebi a dimensão da reta. Dirigi-me para a marca dos 150 metros e, olhando para trás, a distância é realmente incrível.

No momento em que os ciclistas se aproximavam dos quilómetros finais, todo o público ouvia atentamente as voz do speaker que anunciava Julien Alaphillippe e Jakob Fuglsang como os fugitivos e, quando os dois surgiram no início da reta a emoção do público aumentou e, à medida que se aproximavam do local onde nos encontrávamos, o som das palmas das mãos a bater nos placards das grades era ensurdecedor.

Na altura em que os ciclistas passaram pelo local onde nos encontrávamos todos ficaram um pouco confusos pois os dois ciclistas não vinham sozinhos. Um grupo maior tinha-se juntado e, como estávamos a alguns metros da meta foi quase impossível decifrar quem teria sido o vencedor.

Quando toda a gente começou a festejar efusivamente, a abraçarem-se uns aos outros numa loucura total percebi que o vencedor teria certamente sido Mathieu Van der Poel. Um vencedor inesperado, e um momento desportivo para mais tarde recordar. Posso dizer que nunca tinha assistido a uma festa desportiva tão grande, no que diz respeito ao ciclismo. Sem dúvida que na Holanda, o ciclismo é vivido de forma diferente.

Local onde se viria a realizar a festa em honra do vencedor, que surge num cartaz gigante ao fundo
Fonte: Ana Rita Nunes

No caminho de volta a casa, a festa era em todo o lado. Por todo o lado viam-se bares e cafés com dezenas de pessoas na rua a festejar, a dançar, a cantar a vitória do ciclista holandês. Uma sensação incrível que todos os amantes de ciclismo deveriam ter a oportunidade de viver.

 

 

Foto de Capa: Ana Rita Nunes

 

 

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