As lições que não queremos aprender

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Nos últimos metros da etapa inaugural do Tour de Pologne, numa reta em ligeira descida e com final ao sprint, o campeão neerlandês Fabio Jakobsen tentou ultrapassar pela direita o seu compatriota Dylan Groenewegen. Sem pernas para responder à perseguição do seu jovem oponente, Groenewegen teve que recorrer a truques menos limpos e encosta-se à direita, fechando o espaço a Jakobsen, que ao forçar a passagem, acaba por ser empurrado contra as barreiras e perde o equilíbrio.

O cenário não é alegrante, mas é repetitivo, de já tantas vezes visto no passado. Nos 200 metros finais, os sprinters descontrolam-se e, por vezes, vão longe demais na luta pela vitória. O normal seria Groenewegen acabar desclassificado, indo o triunfo na jornada para o segundo a cruzar a meta, e a queda resultar nalgumas lesões de baixa ou média gravidade para os envolvidos.

Mas, não foi isso que aconteceu na Polónia. Quando Jakobsen embateu nas barreiras, estas não deram qualquer suporte de forma a manter o ciclista na estrada, pelo contrário, não providenciaram qualquer proteção e o atleta da Deceuninck – Quick Step acabou projetado para lá das mesmas, o que resultou em lesões graves e uma estadia prolongada no hospital que incluiu quase dois dias em coma induzido.

É compreensível que nem todas as centenas de quilómetros de corrida estejam em perfeitas condições ou que um ciclista tenha uma queda grave a descer uma montanha. São riscos que aceitámos. O que não podemos aceitar é que esses riscos sejam os mesmos na zona mais controlada da corrida e em que já sabemos que um enorme pelotão vai passar em velocidade de ponta.

Quem não parece ter compreendido bem a severidade da situação foi a UCI, que se limitou a emitir um curto comunicado em que sacudia tuda a culpa para cima de Groenewegen. Ora, é certo que o sprinter da Jumbo-Visma errou e teria de ser punido regulamentarmente por uma manobra ilegal, mas querer culpabilizá-lo pela gravidade das consequências da queda é fugir às responsabilidades.

Nos últimos anos, já nos habituamos à passividade da UCI face a vários problemas de segurança que se têm levantado nas provas de ciclismo. É triste que ciclistas, equipas e adeptos estejam à mercê de um órgão cuja única preocupação parece ser desculpabilizar-se. A UCI não quer aprender e quem paga são os Jakobsen, os Maas, os Lambrecht…

Foto de capa: Deceuninck – Quick Step

José Baptista
José Baptista
O José tem um amor eclético pelo desporto, em que o Ciclismo e o Futebol Americano são os amores maiores. É licenciado em Direito (U. Minho) e em Psicologia (U. Porto).

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