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Ciclismo: Credibilização do desporto para a promoção do espetáculo

Duarte Pereira da Silva · 5 min

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A imprevisibilidade é a chave para o sucesso de qualquer desporto. Quanto maior for a incerteza relativamente ao vencedor de determinada competição, maior será o interesse do público em seguir essa mesma prova. Consequentemente, maiores serão os dividendos financeiros que se podem retirar de determinado evento desportivo. No ciclismo acontece exatamente o mesmo.

INCERTEZA COMO CHAVE PARA O SUCESSO

A edição deste ano do Tour de France ficou marcada por uma tremenda incerteza relativamente ao vencedor final. Na minha opinião, a ausência de Chris Froome foi uma das razões que ajudam a explicar a maior competitividade na Volta a França 2019.

Nos últimos sete anos, o britânico venceu quatro edições. Se tivermos em conta que desistiu devido a queda em 2014, o cenário é ainda mais “assustador”. Em duas dessas vitórias, Froome triunfou nos Campos Elísios com uma vantagem superior a quatro minutos.

Se a estes dados juntarmos o facto de a Ineos (antiga Sky) ter um orçamento bastante superior ao de qualquer outra equipa, é fácil perceber que quem sair a perder é a competitividade da modalidade em geral.

Curiosamente, no ano em Chris Froome desistiu devido a queda o vencedor foi Vincenzo Nibali com uma vantagem superior a sete minutos. No entanto, será importante dizer que por exemplo Alberto Contador, um dos principais favoritos na altura a vencer a prova, também desistiu.

A NBA E A PREMIER LEAGUE COMO MODELOS A SEGUIR

O público do ciclismo não gosta por norma de comparações com outras modalidades, sobretudo com o futebol. É certo que o ciclismo tem uma realidade bastante particular e que as comparações com outros desportos, sobretudo coletivos, podem ser pouco produtivas.

No entanto, existem alguns bons exemplos que podem servir de inspiração para tornar o ciclismo uma modalidade com uma maior presença mediática.

O caso da NBA é paradigmático. A principal preocupação da liga passa por tornar o seu campeonato o mais competitivo possível. São inúmeras as restrições colocadas às equipas de forma a evitar que se construam planteis de superestrelas. Nos últimos anos, a discussão em torno dos Golden State Warriors levantou bastantes questões sobre as regras que atualmente estão em vigor e como pode a própria liga dificultar ainda mais a vida às equipas de forma a evitar este cenário. O objetivo é claro e passa exclusivamente por promover a maior incerteza possível sobre o vencedor final.

Outro bom exemplo é a Premier League. Num continente diferente e também perante uma realidade completamente oposta, a liga promove a maior competitividade possível entre as equipas. Neste caso, o segredo assenta numa redistribuição dos direitos televisivos mais equitativa e que diminua a diferença entre as equipas.

Em ambos os casos, a tónica está em colocar a maior incerteza possível no resultado final.

CREDIBILIZAR O DESPORTO

Apesar de tudo o que disse anteriormente, o ciclismo enfrenta hoje um problema de credibilização perante o grande público. O caso Lance Armstrong foi um autêntico murro no estomago no que à reputação da modalidade diz respeito.

Não me querendo alongar sobre o tema, a verdade é que o norte-americano era um dos principais embaixadores da modalidade. A sua história de superação – Armstrong superou um cancro – inspirou milhões por todo o mundo e trouxe outros milhões para a modalidade.

Contudo, o mais preocupante em toda esta história foi a forma sistemática e metódica como todo o sistema foi enganado. Não tenhamos a menor duvida de que ainda hoje o ciclismo sofre em virtude das ações praticadas por Armstrong e aqueles que o acompanharam.

Outro ponto de vista relativamente a esta matéria é o de que Armstrong não era o único que corria fora das regras e que todo o pelotão também estava dopado.

A Volta a França é uma das grandes competições de ciclismo do calendário anual
Fonte: Le Tour de France

Diogo Santos, diretor do site especializado ciclismo 24 por 24, partilha dessa opinião e não tem dúvidas em afirmar que “o escândalo Lance Armostrong foi encomendado, pensado e realizado pelos media (…) E no final do dia, para mim, Lance Armstrong venceu sete Tours de France. Pois, até hoje, ainda não me provaram que um ciclista do ‘seu’ pelotão estivesse 100% limpo”.

Relativamente ao facto de o ciclismo ser bastante associado a casos de dopping, Diogo Santos é da opinião de que “o doping é um problema do desporto em geral. Enquanto não se aceitar isso, será mais difícil o seu combate”.

Tentámos também perceber o porquê de o ciclismo não ter tanto mediatismo no nosso país: “em Portugal, o público assíduo de ciclismo tem aumentado e até rejuvenescido. As audiências do Eurosport comprovam isso. No entanto, os jornais, nomeadamente os desportivos, continuam a não ter a coragem de fazer uma capa sem ser a falar de futebol”. Diogo Santos afirma ainda que “no estrangeiro os jornais deram grande destaque ao Tour. O HLN fez cadernos especiais ao longo da prova. O N Het Nieuwsblad não deixou dar destaque com +/- 10 páginas diárias. O L’Equipe (jornal francês mas que por razões naturais também se destaca por ali) fez capa atrás de capa com o Julian Alaphilippe. Nos Países Baixos, o Steven Kruijswijk foi capa do De Telegraaf após fechar no pódio da prova francesa ao lado do Max Verstappen que ganhou em F1 o Grande Prémio da Alemanha”.

Por último, tentamos perceber de que forma pode o ciclismo promover uma maior competitividade e espetáculo. Sobre o recente domínio da SKY/INEOS, o diretor do ciclismo 24 por 24 é da opinião de que “a INEOS não dominou este Tour como dominou outros. Ainda assim, fechou em 1º e 2º, feito que só fizera na vitória do Sir Bradley Wiggins. Agora, este domínio tem o devido mérito. Apresenta sempre o alinhamento mais forte. O mais talhado para o percurso, o que está em melhor forma. Além disso, tem por detrás uma estrutura técnica que faz a diferença”. Questionado sobre a possibilidade de limitar o orçamento da INEOS, Diogo Santos questiona-se se ao estarmos a limitar os orçamentos, não estaremos a limitar o desenvolvimento do próprio ciclismo?.

Foto de Capa: Le Tour de France

artigo revisto por: Ana Ferreira

Duarte Pereira da Silva

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