Cabec¦ºalho ciclismo

Está de volta a Vuelta! Entre 22 de Agosto e 13 de Setembro, poderemos concentrar as nossas atenções para a última Grande Volta da temporada que se situa no país de “nuestros hermanos”. Nos últimos anos, tem conseguido atrair cada vez mais as atenções de todos no que toca a essas três Grandes Voltas. Antes considerada como a “menor” das 3, hoje em dia é aquela que poderá salvar uma temporada menos boa, dar mais honra e prestígio a quem falhou o objetivo maior que tinha (fosse o Giro ou o Tour) ou, por fim, culminar num feito histórico protagonizado apenas pelos melhores ciclistas – estou, obviamente, a referir-me mais às tentativas de vencer Giro-Vuelta ou Tour-Vuelta, mas não só, claro.

Esta edição promete tanto como prometia o Tour. Prevê-se que seja uma das melhores Vuelta’s dos últimos largos anos e que possa ser, deste ano, a Grande Volta que mais espetáculo irá proporcionar a todos os amantes do ciclismo (principalmente por todos os grandes ciclistas que estarão presentes para enfrentar esta prova). O percurso é algo peculiar, mas muito interessante. Não favorece os sprinters – ainda assim, terão umas 5 ou 6 oportunidades para brilhar – e o contrarrelógio aparece tarde demais para ajudar os melhores contrarrelogistas (e que se aguentam bem nas montanhas) a conseguirem algo de bom na classificação geral desta Vuelta, sendo que o júri decidiu que o CR Coletivo, na primeira etapa, iria ter os tempos neutralizados, apenas contando para a classificação por equipas, devido aos terrenos por onde irão passar (com areia, entre outras coisas). É uma Volta à Espanha mais desenhada para “punchers” (como Sagan ou Degenkolb – apesar de ambos terem um ponto de interrogação em si, visto que poderão querer apenas preparar-se melhor para os Campeonatos do Mundo que terá um percurso que favorecerá muito este tipo de ciclistas), ciclistas explosivos (principalmente na primeira semana, onde, por exemplo, “Purito” Rodriguez e Alejandro Valverde tentarão fazer a maior diferença) e, claro, não só os ciclistas mais completos, como também os puros trepadores beneficiarão deste percurso (homens como Pozzovivo, Aru ou Majka irão certamente apreciar as várias etapas de alta montanha na segunda semana de competição, não só pelas suas características, como também pelo CR na última semana que pouco os irá favorecer).

Tal como já foi dito, a primeira etapa é um (curto) contrarrelógio coletivo onde não se esperaria grandes diferenças de tempo entre os favoritos, mas, neste momento, não irão haver mesmo diferenças, devido à tal decisão de neutralizar os tempos para a classificação geral. Se pensavam que esta primeira semana iria ter uns primeiros dias mais sossegados, pois bem, não será realmente assim. A segunda etapa apresenta logo um final em subida, onde os últimos 4,7 km’s para o Alto de la Mesa terão uma percentagem média de inclinação de 6,5%. Isto fará com que os principais favoritos mostrem logo as cartas que têm na manga para conseguir levar de vencida esta Vuelta. Depois desta etapa, iremos ter 5 etapas que favorecerão os sprinters e os tais punchers. Na etapa 7 voltaremos a ter uma acesa luta entre os homens mais fortes da geral individual e onde iremos ter a primeira etapa que terminará numa categoria 1. Após mais uma etapa com dificuldades médias, voltaremos a ter uma chegada ao alto na nona etapa, sendo que a 10.ª etapa será umas das melhores oportunidades para a fuga vingar. Finalmente, depois de tudo isto, virá o primeiro dia de descanso e quão bom será para todos os ciclistas, porque o dia a seguir apresentará a etapa mais difícil de toda a Volta à Espanha! A etapa 11, em Andorra, terá “apenas” 138 km’s, mas cada quilómetro percorrido terá as suas dificuldades. Teremos 6 montanhas categorizadas (quatro categorias 1, uma categoria 2 e, também, uma categoria especial) e quase nada de quilómetros planos. A última subida do dia será também a mais inclinada: 8,7 km’s com média de 9% de inclinação! Brutal e muito duro para quem não estiver na melhor das condições. Alguns ciclistas (puros sprinters, principalmente) poderão ter dificuldades em chegar dentro do tempo limite. É daquelas etapas que não dará descanso do início ao fim e poderá ditar logo boas vantagens entre alguns dos favoritos.

O perfil da brutal etapa 11  Fonte: Velohuman.com
O perfil da brutal etapa 11
Fonte: Velohuman.com

As etapas 12 e 13, em princípio, darão um pouco de descanso aos favoritos e poderão ser alvo de fugas com ciclistas importantes e que perderam tempo nas etapas anteriores ou, mais provável, os sprinters e aqueles ciclistas que gostam de atacar nos últimos quilómetros levarão de vencida estas duas etapas. As etapas 14, 15 e 16, situadas maioritariamente nas Astúrias, terão todas finais em alto e acredito que, ao fim destas, o top10 esteja bem encaminhado para ser o top10 final (ainda assim, o CR poderá ditar ainda algumas coisas). A seguir, mais um merecido dia de descanso, antes de enfrentarem, na 17.ª etapa, o tal contrarrelógio individual, com quase 40 km’s, e que poderá marcar algumas diferenças entre os favoritos – principalmente entre aqueles que são puros trepadores ou mais trepadores e os “all-rounders”, como Chris Froome ou Tejay Van Garderen. Esta terceira semana de prova será um pouco atípica, visto que não irá ter chegadas em alta montanha e apenas na etapa 20 teremos mais emoção entre os favoritos, com um perfil de etapa com 4 primeiras categorias, sendo que será a última etapa para se marcarem diferenças, visto que a etapa final, a 21.ª etapa, será, como normalmente, de consagração e em Madrid e estará preparada para ser um último dia de glória para os sprinters que aguentaram uma dura Volta à Espanha e conseguiram sobreviver até este dia final.

Em relação aos favoritos, tal como já enfatizei, iremos ter um grande elenco à disposição desta Vuelta. Desde logo, à cabeça, aparece o recentemente coroado vencedor do Tour de France: Chris Froome! O britânico com raízes no Quénia tinha como objetivo principal para esta época a Volta à França, mas, talvez inspirado pela ousada tentativa de Alberto Contador em vencer o Giro e o Tour, Froome optou por tentar desafiar a história e ser apenas o terceiro ciclista a conseguir a dupla Tour-Vuelta (Jacques Anquetil, em 1963, e Bernard Hinault, em 1978, foram os dois ciclistas que conseguiram esta proeza até hoje) e o primeiro a fazê-lo desde que a Vuelta foi deslocada de Abril para Setembro, em 1995. Além de ter um percurso que o poderá favorecer, também volta a ter uma excelente equipa ao seu dispor (a Sky leva com homens como Sergio Henao – possível presença no top10 final, atenção mesmo ao colombiano –, Mikel Nieve, Nicholas Roche, Geraint Thomas ou o sempre combativo e experiente Vasil Kiriyenka para ajudar Chris Froome a fazer história) Antes de continuar, é preciso salientar que a Vuelta, das 3 Grandes Voltas, costuma ser a que mais dificuldade causa em termos de prever os melhores (as recentes vitórias de Juan José Cobo e de Chris Horner provam exatamente isso). Ainda assim, existem sempre aqueles elementos que terão de ser sempre considerados favoritos, não importa qual seja a competição. É esse o caso, por exemplo, da dupla da Movistar: Nairo Quintana e Alejandro Valverde. Ambos vêm, igualmente, de uma muito boa Volta à França e ambos chegam a esta Volta à Espanha com grandes ambições. Se no Tour, Valverde apoiou Quintana, na Vuelta prevê-se que ocorra o contrário. Mas existe um fator a ter em conta, é que Quintana também se preparou durante a época para correr a Vuelta e, sendo assim, as coisas poderão acabar por voltar a ser similares ao que foram no Tour (até pelo facto de que Valverde conseguiu um dos grandes objetivos da carreira – fazer pódio no Tour – e poderá estar mais “descontraído” nesta Vuelta; ainda assim, a primeira semana favorece-o e, se individualmente, ambos têm grandes hipóteses, quanto mais como dupla e a apoiarem-se um ao outro nos mais variados momentos). De notar ainda a presença de elementos na equipa como Giovanni Visconti (vencedor da camisola da montanha no Giro) ou Andrey Amador (4.º classificado também no Giro), que poderão ser cruciais para uma Volta à Espanha vitoriosa para a equipa da Movistar.

O pódio do Tour de France irá voltar a animar uma Grande Volta este ano  Fonte: Facebook Le Tour de France
O pódio do Tour de France irá voltar a animar uma Grande Volta este ano
Fonte: Facebook Le Tour de France

Além da dupla mencionada anteriormente, existe um trio que dará imenso que falar nesta Volta: Vincenzo Nibali, Fábio Aru e Mikel Landa. Depois de um Tour que acabou por não ser o expetável para Nibali, o italiano vem a esta Volta a Espanha para procurar “salvar” a temporada. Ao seu lado terá 2 ciclistas com imenso potencial e que deram muito que falar no Giro – fizeram ambos pódio e valorizaram muito a vitória de Contador nessa prova. Dois ciclistas que iriam, provavelmente, partir com a liderança partilhada, não fosse a presença de Nibali na equipa. Sendo assim, poderemos vir a ter Landa a servir como um “joker” e mais um homem para atacar alguma etapa do que propriamente ir para a geral individual (até porque o seu contrato com a sua equipa irá terminar este ano) e Nibali e Aru a cooperarem como Quintana e Valverde certamente farão. De destacar, ainda, a excelente equipa que a Astana leva à Vuelta, que além dos 3 grandes ciclistas já citados conta ainda com ciclistas como Luís Leon Sanchez, Paolo Tiralongo, Dario Cataldo ou Diego Rosa. Outro dos favoritos para esta Vuelta será o espanhol Joaquín “Purito” Rodriguez, ciclista da Katusha (onde um dos diretores desportivos é o português José Azevedo), que foi ao Tour mas acabou por desiludir em termos de classificação geral e acabou a disputar apenas etapas (acabou por ser bem sucedido nesse aspeto, lutando também pela camisola da montanha). Esta poderá ser a “prova de fogo” para Rodriguez, visto que iremos comprovar se o espanhol poderá continuar a lutar com os grandes favoritos pelas grandes provas ou se estará a começar a descer na sua forma, tendo também em conta a idade que tem (36 anos). O que é certo é que a primeira semana é repleta de boas oportunidades para ele e a segunda semana será o teste principal para comprovar se teremos o Purito a lutar pela vitória nesta Vuelta (será bem secundado pelo também espanhol Dani Moreno, que estará pronto para voltar a tentar um top10 na Volta à Espanha). Domenico Pozzovivo será outro dos candidatos a estar muito bem na classificação geral e, se mostrar que está mesmo recuperado do acidente que teve na Volta à Itália, poderá ser mais um grande candidato à vitória – apesar do CR que irá ter na terceira semana, há que lembrar que o ciclista da AG2R já fez bons contrarrelógios (ainda assim, eram mais crono escaladas). Rafal Majka, na ausência do campeão em título desta Vuelta, Alberto Contador – por razões claras –, será o líder da Tinkoff-Saxo e será um dos muitos nomes a querer brilhar nas etapas de montanha. Um grande trepador e um ciclista que acredito que irá ser dos mais agitadores nas montanhas desta Vuelta.

Duas outras duplas que estarão em destaque são também bem conhecidas: Tejay Van Garderen/Samuel Sánchez e Andrew Talansky/Daniel Martin. A dupla da campeã do mundo de contrarrelógio, a BMC, não tem um líder mais favorito do que o outro, porque Sánchez, segundo a equipa, é o líder designado, mas Van Garderen é Van Garderen e, se estiver na melhor forma e recuperado de todos os problemas que tem vindo a ter (essa é a maior incógnita, serão precisas as primeiras etapas para se ver as indicações dadas pelo americano), será um sério candidato ao top5, principalmente pelo CR, onde costuma fazer boas diferenças para muitos dos favoritos (John Darwin Atapuma poderá ser também um elemento interessante para se acompanhar nesta Vuelta e irá dar uma boa ajuda a esta dupla da sua equipa). A decisão de ter o espanhol como líder é a mais indicada, devido a estas incógnitas do TJ, até porque Sánchez tem muito bom historial na Vuelta e foi 12.º classificado neste último Tour (de notar que é uma dupla que, em princípio, se sairá muito bem no CR na última semana). Em relação à dupla da Cannondale-Garmin, ambos partem como líderes da equipa e ambos terão muito boas oportunidades para se mostrarem nesta Volta à Espanha. Talansky quererá superar a classificação que teve no Tour nesta Vuelta e Martin quererá voltar ao melhor nível exibicional (sendo que também terão a boa ajuda de um ciclista de 24 anos que está a começar a ter melhores resultados na sua carreira – Joe Dombrowski). São dois ciclistas que gostam de atacar (sendo que Talansky poderá ser um daqueles nomes a ganhar bom tempo no CR individual), principalmente Dan Martin (terá alguns finais de etapa bem ao seu estilo). Outros favoritos para lutar pelo top10 são: Daniel Navarro (costuma mostrar-se sempre “mais vivo” durante a Vuelta), Pierre Rolland (depois do Tour que fez, prevê-se que também faça uma boa Vuelta), Jurgen Van den Broeck, Esteban Chaves, Frank Schleck, Przemyslaw Niemiec ou Fábio Duarte.

Tendo em conta as poucas oportunidades para os puros sprinters, a concorrência nesse aspeto não é das melhores, mas, mesmo assim, temos alguns ciclistas de qualidade para disputar estas etapas. Nacer Bouhanni é o nome que mais se destaca entre todos e que, certamente, será candidato a todas essas etapas, sendo que também é um ciclista que consegue subir relativamente bem para um puro sprinter. Este último fator poderá levá-lo a ter uma grande luta com Peter Sagan e John Degenkolb (outros dois nomes que irão animar os sprints desta Vuelta, mas que, provavelmente, estarão na prova para também prepararem melhor os Campeonatos do Mundo) por outro tipo de etapas e, quem sabe, pela camisola dos pontos. O jovem promessa Caleb Ewan irá fazer a sua primeira Grande Volta e estou muito expetante para ver como irá ele encarar tal desafio, mas é quase certo que será outro dos principais candidatos para as etapas ao sprint. Matteo Pelucchi, Danny Van Poppel, José Joaquín Rojas, Kris Boeckmans, Kristian Sbaragli, Tom Van Asbroeck, Maximiliano Richeze, Jempy Drucker, Kévin Réza, entre outros, também poderão estar na discussão destas etapas.

Bouhanni tentará salvar uma época pouco famosa para si mesmo  Fonte: Velonews.competitor.com
Bouhanni tentará salvar uma época pouco famosa para si mesmo
Fonte: Velonews.competitor.com

No que diz respeito aos portugueses em prova, iremos ter 6 elementos: Sérgio Paulinho (Tinkoff-Saxo), já vencedor de uma etapa numa Volta à Espanha, Nélson Oliveira (Lampre-Merida), se tiver a liberdade que teve no Tour e mostrar a forma com que estava na Clasica Ciclista San Sebastian poderá ser uma das boas surpresas desta Vuelta, André Cardoso (terá a responsabilidade de ajudar na montanha os seus líderes da Cannondale-Garmin), Tiago Machado – chamado à última da hora para substituir Giampaolo Caruso na equipa da Katusha – e, por fim, a dupla da Caja-Rural e que esteve em evidência na nossa Volta a Portugal, José Gonçalves e Ricardo Vilela (acredito que poderão estar presentes nalgumas fugas).

Amanhã começa a última Grande Volta deste ano no mundo do Ciclismo. Muito expetativa para o espetáculo que irá ser proporcionado pelos mais variados elementos do pelotão internacional. Sem dúvida, temos todos os ingredientes certos para uma excelente Vuelta a España!

Foto de capa: Ciclismoafondo.es

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