Quando a Team Sky foi lançada com o intuito de ser uma das melhores do mundo, o seu Diretor Dave Brailsford anunciou a política da equipa face ao doping: Tolerância Zero. Tal aplicava-se aos atletas, que só seriam contratados se nunca tivessem sido sancionados e despedidos se apanhados nas malhas do doping, e estendia-se aos staff, com vários elementos da equipa técnica a saírem da equipa após terem admitido infrações com substâncias ilícitas aquando das revelações do escândalo Armstrong/US Postal.

A prova da conformidade da Sky com esta ideia era David Millar. Um dos melhores ciclistas britânicos da história e amigo pessoal de Brailsford, Millar tinha servido uma suspensão de dois anos, após a qual ajudara a fundar a equipa Slipstream, uma das mais vocais na defesa de um desporto limpo. A sua história de redenção, as suas credenciais atléticas em conjunto com a nacionalidade faziam dele o candidato perfeito a integrar a equipa, mas tal nunca chegou a acontecer, porque a Sky insistiu em cumprir sempre a sua política que não admitia perdão.

A ideia por trás da ação era de que quem o fizera uma vez, não teria tanto pudor em voltar a fazê-lo e poderia transmitir os valores errados aos muitos jovens talentos que a equipa integrava. No entanto, como se pode facilmente perceber, nem sempre é essa a melhor forma de abordar este problema e talvez a presença de alguém que já cometeu esses erros pudesse dar uma outra perspetiva e outro tipo de conselhos.

De qualquer forma, foi curioso que, apesar dessa política apertada, a Sky nunca aceitou aderir ao Movimento por Um Ciclismo Credível (MPCC), uma associação de equipas que pretende diminuir a influência do doping na modalidade. Criado por várias equipas, o MPCC tem hoje entre os seus membros 7 equipas World Tour e 23 conjuntos Continentais Profissionais, sendo que os membros se comprometem com regras ainda mais apertadas que as que são impostas pela UCI e pela WADA. Por exemplo, impõe que os ciclistas tenham um período de 8 dias fora de competição quando têm níveis baixos de cortisol. Por exemplo, se a Sky tivesse aderido ao MPCC, Bradley Wiggins não teria podido participar no Tour de 2012 que ganhou, já que estaria a cumprir esses dias sem competir em vez de recorrer a um TUE.

Os casos Henao e Froome tiveram tratamento diferenciado pela Team Sky
Fonte: Team Sky

Ora, a Sky teve um primeiro teste à sua conduta por conta de Sergio Henao. Por duas vezes, houve dúvidas quanto a certos valores do Passaporte Biológico do ciclista e a Sky reagiu suspendendo o colombiano da competição, forçando-o até a falhar um Giro d’Italia em que deveria ser uma peça fulcral para a equipa. A Sky não tinha de o fazer, mas a sua política interna compeliu-a a agir desse modo. A verdade é que Henao seria inocentado, com a culpa neste caso a recair na altitude da sua terra natal e na forma como esta afeta o crpo humano.

Essa decisão não encontrou, ainda assim, paralelo esta época com o caso Chris Froome. Mais uma vez, o ciclista não está impedido de correr pelas leis do desporto, mas, nesta ocasião, a Sky relaxou a sua postura interna. Por um lado, compreende-se que seja difícil ter a maior estrela da equipa parada meses a fio à espera de uma decisão final da UCI, mas quando se diz estar tão comprometido com o combate anti-doping como a Sky afirma, esse é um pequeno preço a pagar pelo defesa de um desporto limpo e justo. Por isso, a Sky deveria ter sido coerente com as suas palavras e abster-se de fazer alinhar Froome até se saber se este iria ou não enfrentar uma sanção.

Adicionalmente, há uma outra questão que a Sky vai ter de responder e que fará o juízo final sobre a sua (cada vez mais diminuída) credibilidade. Se Froome for mesmo suspenso – como é provável –, irá a equipa cumprir a sua Tolerância Zero e despedi-lo? Ou preferirá ficar do lado da sua estrela maior e, finalmente, abdicar da postura imaculada que há anos alega ter?

Foto de Capa: Team Sky

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