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Terminou este domingo mais um apaixonante e duríssimo Giro d’Italia. Quando se chega ao final de uma grande prova e se faz o seu balanço, habitualmente encontram-se decepções, revelações e afirmações. O que já não é tão habitual encontrar, numa prova desta dimensão, é um domínio tão grande de ciclistas do mesmo país. “Il Giro d’Italia” significa “Volta à Italia”, mas a verdade é que este ano se poderia ter chamado “O passeio da Colômbia na Itália”. Foi um desempenho avassalador aquele que vimos por parte dos ciclistas colombianos (não só os que representavam a equipa do seu país, mas também os que corriam defendendo as cores de outras equipas).

É verdade que nos últimos anos já se pressentia que algo assim estaria prestes a acontecer: vários jovens ciclistas cafeteros começaram a participar nas mais importantes provas do circuito mundial apresentando desempenhos muito interessantes e dando a sensação de que estava de facto a aparecer uma “geração de ouro”, mas de qualquer forma ninguém estava verdadeiramente preparado para assistir a uma invasão desta natureza por parte da “brigada colombiana”, muito menos numa prova desta magnitude. 4 vitórias em etapas, 1º, 3º e 5º na classificação da camisola azul, 1º e 5º na classificação da camisola branca e, mais importante do que tudo, 1º e 2º na classificação da camisola rosa. Verdadeiramente extraordinário! Nairo Quintana, Rigoberto Uran, Moreno Arredondo, Gomez Chalapud e Sebastian Henao formaram uma constelação colombiana que brilhou bem alto.

Uran e Quintana  Fonte: www.cyclingweekly.co.uk
Miguel Angel Rubiano, campeão colombiano, à conversa com o compatriota Nairo Quintana 
Fonte: roadcycling.com

Partindo para uma análise mais individual, temos de falar do vencedor, o pequeno grande Nairo Quintana. Depois de um segundo lugar no Tour de 2013, agora um primeiro lugar no Giro de 2014. Se levarmos em conta que já conseguiu estes resultados (que a grande maioria dos ciclistas não consegue em toda a carreira) e que tem apenas 24 anos de idade, resta-nos especular que no seu futuro próximo o céu é o limite. Assim o deixem correr. Infelizmente já está confirmada a sua ausência do Tour de 2014 e, compreendendo nós que Valverde é o líder da Movistar e que Quintana já tem um estatuto grande demais dentro da equipa para ir como gregário de luxo, a verdade é que todos os amantes do ciclismo ficam com um enorme amargo de boca por serem privados de ver um dos melhores trepadores da actualidade naquela que é a prova mais mediática do circuito. Seria como ter o Mundial de futebol sem Messi ou Ronaldo. Cada vez que virmos Froome a disparar ataques nas montanhas francesas iremos todos pensar no que faria Quintana se lá estivesse. Nairo Quintana entra assim directamente para a categoria das afirmações da prova. Se ainda restassem algumas dúvidas sobre a sua qualidade, ficaram arrumadas de vez. Depois de uma primeira semana complicada, onde existiu inclusivamente a possiblidade de desistência por motivos de saúde, o pequeno colombiano fez uma reviravolta fantástica, com prestações de alto nível nas etapas de mais dura montanha e ganhando até a crono-escalada, que o consagrou definitivamente como um justíssimo vencedor.

Felizmente na categoria das decepções cabe apenas um nome: Cadel Evans. Para sermos realmente justos, nem é assim uma decepção tão grande. O ciclista australiano conseguiu um lugar no top 10 (8.º mais concretamente) tendo 37 anos, o que na realidade ajuda a cimentar ainda mais o respeito que todos os seguidores do ciclismo têm por ele. No entanto, a verdade é que muitos o consideravam favorito para estar no top 3 quando o Giro terminasse e não foi o caso. Para além disso, não houve um desempenho digno de destaque em nenhuma etapa de montanha – passou sempre por grandes dificuldades para conseguir acompanhar os restantes favoritos. Analizando o talento e a juventude da concorrência, não será previsível que Evans volte a conseguir melhores feitos nas grandes provas que lhe restam na carreira.

Nairo Quintana e Rogoberto Uran - dois colombianos nos dois primeiros postos da classificação geral  Fonte: www.cyclingweekly.co.uk
Rogoberto Uran, Nairo Quintana e Fabio Aru – o pódio final do Giro 2014  teve dois colombianos
Fonte: cyclingweekly.co.uk

No lado mais positivo deste Giro encontramos também as prestações dos jovens que preencheram o top 10, como Kelderman, que conseguiu um impressionante 7º lugar na sua primeira participação em provas desta dimensão, Rafal Majka, que conseguiu a 6º posição, e, acima de tudo, o surpreendente Fabio Aru, que chegou a este Giro para apoiar Scarponi e que com a mudança de planos aproveitou para ser a grande revelação da prova – brilhou na mais alta montanha e terminou num 3º lugar que tem tanto de honroso como de imprevisível à partida.

No cômputo geral, este foi mais um Giro apaixonante. Aquela que é considerada a prova de ciclismo mais dura do mundo apresentou várias reviravoltas que a tornaram imprevisível com o passar dos dias, revelações surpreendentes, etapas épicas em montanhas repletas de neve e com pendentes de inclinação sobre-humanas e até alguma polémica com descidas que estavam neutralizadas, mas que afinal já não estavam. É disso que nós gostamos. Para o ano há mais. Viva il Giro!

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