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Sir Dave Brailsford, como? Por incrível que pareça, a Ineos-Grenadiers não vence o Tour de France há dois anos. O sucesso do projeto britânico é tal que faz parecer esta afirmação despropositada, porém, este jejum de triunfos constitui-se como um dos maiores sinais de reforma do Ciclismo moderno, agravado pelo facto de que a tendência é intensificar-se.

Retirando da equação os dois primeiros anos de World Tour (2010-2011), após a sua primeira vitória, por intermédio de Bradley Wiggins, a Ineos Grenadiers – anteriormente denominada por Team Ineos, Team Sky ou Sky Procycling -, nunca tinha falhado a conquista da camisola amarela do Tour de France num espaço de duas edições consecutivas.

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Sete vitórias em doze participações, imagine-se. No papel, acabar com esta “longa” seca, de missão impossível, não parece ter nada. O que é certo é que nem o melhor Tom Cruise poderia fazer frente a Tadej Pogacar num esforço montanhoso superior a 40 minutos ou a Primoz Roglic num contrarrelógio individual de 40 quilómetros.

O principal problema reside nisto mesmo: a Ineos-Grenadiers não tem um dos dois melhores voltistas do mundo. Não parece haver grandes motivos de discussão quanto a isto, no entanto, na sucessão da realeza eslovena segue Egan Bernal, ex-vencedor do Tour, campeão do Giro d´Italia, corredor da Ineos Grenadiers e um dos poucos que se pode vir a intrometer entre o bicampeão do Tour e o tricampeão da Vuelta a España.

O DOMÍNIO COLETIVO PARA FAZER FRENTE ÀS INDIVIDUALIDADES

Um dos maiores alicerces dos sucessos de Bradley Wiggins, Chris Froome ou Geraint Thomas foi o coletivo que rodeou esta corrente de sucesso britânica: o controlo que os seus companheiros exerciam sobre o pelotão era assustador e, acima de tudo, responsável por colocar os respetivos líderes extremamente bem posicionados para vencer.

Passado. Esta autêntica máquina de guerra vem agora perdendo influência, e não é que se trate de um decréscimo de qualidade abrupto, até porque os níveis de investimento continuam altíssimos. Uma equipa que dispõe de “gregários” como Daniel Martínez, Pavel Sivakov, Richie Porte, Tao Gheoghegan Hart ou até mesmo Adam Yates, não se pode queixar.

Como pode a equipa Ineos Grenadiers ganhar a Tour de France? 

Apesar de continuar a possuir um dos coletivos mais fortes do mundo para este tipo de competições, senão o mais forte, a tarefa de rentabilizar essa superioridade, à medida que a própria diferença qualitativa continua a equilibrar-se comparativamente com a Jumbo-Visma e UAE Team-Emirates, é cada vez mais difícil.

A curto/médio prazo, sem o número um ou dois do pelotão e sem uma estrutura francamente superior às maiores rivais, como pode a Ineos Grenadiers voltar a vencer o Tour de France? Bernal e Richard Carapaz são as maiores esperanças, sendo que o segundo teve a sua oportunidade em 2021, finalizando no pódio.

A primeira tentativa de quebrar o enguiço acontece no próximo verão. Se nenhum contratempo mudar a planificação de Dave Brailsford para 2022, o jovem colombiano de 24 anos será aposta no Tour, competição que já venceu, a par do Giro deste ano. Não obstante ter terminado o ciclo de grandes voltas com uma prestação apagada na Vuelta, a ideia de termos um Bernal no Tour ao nível do que vimos no Giro transato dá uma certa esperança de existir a possibilidade de bater os dois eslovenos em simultâneo.

Essas esperanças esbarram no perfil dos três ciclistas e nas particularidades do trajeto desta prova, nomeadamente, a quilometragem de contrarrelógio individual: serão 53 quilómetros de esforço, divido entre duas etapas e predominantemente planos (salvo alguns picos explosivos na penúltima etapa).

Outro aspeto relevante são os 11 setores de pavet que aguardam os ciclistas na etapa cinco. 19,4 quilómetros de dificuldade e uma incógnita enorme sobre aquilo que esperar dos maiores candidatos à vitória. Obviamente, as grandes montanhas do Tour estão de volta, destacando-se o Alpe d’Huez, Peyragudes e Hautacam: potencialmente, o timing perfeito para Bernal fazer diferenças, mas a falta de regularidade em termos de altitude no perfil das jornadas e as prestações monstruosas dos seus rivais neste terreno, não colocam as probabilidades do seu lado.

Estas dificuldades que se preveem servem para futuras prestações e até para futuros líderes. É verdade que correr em equipa deixa um ciclista mais perto da vitória, mas que ciclista? O melhor Bernal pode ganhar tempo na montanha ao passo que nunca conseguirá controlar as duas flechas eslovenas no contrarrelógio e até mesmo em etapas explosivas, onde Primoz Roglic se encontra bem acima de qualquer outro.

A solução? Continua a ser Bernal, pelo menos para já. É a hipótese mais rentável que a Ineos Grenadiers poderia encontrar, a solução que pode devolver Dave Brailsford e restante estrutura ao triunfo na maior competição de Ciclismo do Mundo. Como o fazer? Encontrar um nível altíssimo para disputar as etapas de montanha, defender-se no contrarrelógio (evoluir) e servir-se da equipa para se proteger de momentos menos bons e atacar nos momentos de fragilidade dos adversários.

A receita parece simples. Quase tudo vai depender da condição física em que o Ciclista se apresentar e no crescimento que vai registar quando comparado com outros ciclistas da sua geração, numa perspetiva de aposta contínua. Ainda em 2022, retirando desta análise situações de corrida inesperadas ou a mudança de planeamento dos britânicos para esta competição, especular sobre a performance de Bernal frente a uma concorrência tão forte é o caminho que separa o regresso aos triunfos da seca que promete durar enquanto os dois melhores voltistas da atualidade perdurarem no topo… E longe da Ineos Grenadiers.

Foto de Capa: Ineos Grenadiers

Artigo revisto por Joana Mendes

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