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O basco apareceu para o ciclismo profissional da mesma forma que tantos outros da sua região, subindo na estrutura da Euskaltel-Euskadi, primeiro através de um ano na equipa satélite, a Orbea-Oreka SDA, e passando depois três anos com a formação World Tour. No seu tempo com a equipa, os resultados foram aparecendo com o tempo e, apesar de ainda muito jovem, começou a mostrar o seu talento nas provas montanhosas com boas exibições em várias provas continentais espanholas.
Foi assim que o homem a que muitos apelidam de ‘Landani’, pelas semelhanças na forma de correr com o histórico italiano Marco Pantani, subiu mais uma vez de nível e com o estatuto de promessa chegou em 2014 a uma das melhores equipas do mundo, a Astana.
O primeiro ano foi de aprendizagem e, depois de vencer uma etapa e ser décimo da Geral do Giro del Trentino, fez parte das equipas do Giro e da Vuelta, ajudando o também jovem Fabio Aru a ser, respetivamente, terceiro e quinto e a afirmar-se como homem para provas de três semanas. Mas, em 2015, tudo mudou. Após um bom início de época em que venceu uma etapa na Vuelta al Pais Vasco e foi segundo em duas tiradas e na Geral do Giro del Trentino, Landa foi ao Giro com o objetivo de ajudar Fabio Aru a vencer a Grande Volta italiana.
Os problemas surgiram com o passar dos dias, já que, à medida que Alberto Contador ia impondo a sua autoridade na corrida, Mikel Landa parecia melhor que o seu líder e mostrou-o na estrada ao vencer as duras etapas 15 e 16, ascendendo ao segundo lugar da Geral, apenas atrás de Contador e à frente de Aru. No entanto, a equipa preferia apostar em alguém que já tivesse provas dadas em três semanas e insistiu em dar a Aru a liderança. O italiano melhorou e viria a ganhar também duas etapas, ainda que com a ajuda de um Landa forçado em certos momentos a sacrificar-se pelo colega de equipa. No final, Aru seria segundo e Landa terceiro, mas o espanhol saía com a convicção de ser o melhor dos dois e revoltado por não ter tido o apoio da equipa quando era ele o mais próximo adversário de ‘El Pistolero’.

Fonte: Astana Pro Team
Três meses volvidos e o duo voltava a encontrar-se para disputar a Vuelta. Landa teria um mau dia à etapa nove e ficaria arredado da luta pela Geral. Por isso, duas etapas depois, na mais dura dessa edição, foi para a fuga e venceu a tirada isolado. Só que, pelo meio, num ato de rebeldia, tirou do ouvido o auricular do rádio e, em vez de esperar e ajudar Aru que havia atacado no grupo dos favoritos para ganhar segundos importantes, seguiu sempre, apenas preocupado com a sua vitória individual. A partir daí, apenas depois de assegurar o seu sucesso pessoal, trabalhou em prol do seu companheiro e foi peça importante para que Fabio Aru conseguisse destronar Tom Dumoulin e vencer a Vuelta.
A aventura que se seguiu foi a Team Sky, a mais forte do mundo em provas por etapas e casa do indiscutível Chris Froome. O plano de Landa era simples, liderar no Giro e ajudar Froome no Tour. A época começou bem, vencendo mais uma etapa na volta ao seu País Basco e uma etapa e a Geral do Giro del Trentino. Chegado ao primeiro grande objetivo da época, começou discreto, mas uma boa prestação no contrarrelógio – ele que tinha indicado a vontade de melhorar nos esforços individuais como uma das grandes razões para escolher a Sky – colocou-o como um dos grandes favoritos à vitória final, mas acabaria por ter de abandonar na etapa seguinte devido a doença.
Assim, até ao final da época ficou confinado ao papel de gregário de luxo e esteve em bom plano na equipa que ajudou Chris Froome a vencer o Criterium du Dauphiné e o seu terceiro Tour. Apesar da desilusão no Giro, parecia que algo estava a funcionar bem na Sky e, por isso, o plano para 2017 incluía os mesmos pontos, Giro e Tour, liderar e ajudar.
Entretanto, começou também a despontar na Sky como homem para as provas por etapas o britânico Geraint Thomas e a equipa atribuiu-lhe o mesmo plano que a Landa, partilhando a liderança. Assim foi no Tour of the Alps, em que Thomas ganhou uma etapa e a geral e houve lugar a uma demonstração da união do duo quando na terceira tirada os dois chegaram isolados e Landa deixou Thomas vencer já que este precisava das bonificações para a luta pela classificação Geral.

Fonte: Team Sky
No Giro, também não houve lugar a rivalidades, mas por razões diferentes. Após chegarem ambos no grupo principal na subida ao Etna, estiveram envolvidos na queda causada por uma moto da organização na etapa montanhosa seguinte e perderam a possibilidade de lutar pelos lugares de topo. Thomas desistiria passados uns dias e Landa agarrou-se à sua combatividade para vencer uma etapa e a classificação da montanha.
Em seguida, veio o Tour e uma polémica a sério. Landa apareceu em grande forma e na chegada a Peyragudes foi lutar pela vitória na etapa enquanto Froome passava dificuldades o que lhe valeu uma discussão em público com o seu Diretor Desportivo. No dia seguinte, esteve na fuga e ganhou tempo, mas a certa altura foi a própria a Sky a comandar a perseguição, provando que algo estava mal. Ainda assim, Landa e Froome conseguiram colaborar melhor daí para a frente e o espanhol acabaria em quarto a apenas um segundo do podium, mostrando que se a equipa tivesse gerido a situação de outra fora poderia ter acabado com dois homens na celebração final em Paris.
No restante da temporada, Landa ainda arranjou forças para voltar a mostrar que, quando quer, é um excelente ciclista de equipa e foi crucial na vitória de Michal Kwiatkowski na Clasica San Sebastian e para vencer duas etapas e a Geral da Vuelta a Burgos. Só que o verniz havia mesmo estalado e o ciclista vai mudar de ares no próximo ano, representando a Movistar.
Como a sua fama, nem sempre merecida, de rebelde já é bem conhecida, a receção não foi a melhor e Nairo Quintana, o líder da sua nova equipa, sentiu necessidade de dizer publicamente que é ele o líder para o Tour. Entretanto, a equipa começou a preparar a época e a reunião pareceu correr bem e, pelo menos publicamente, as questões parecem sanadas e o grupo preparado para a época que aí vem.
Ainda novo, Mikel Landa tem muitos anos de ciclismo pela frente e um novo chefe que quer fazer dele “o porta-estandarte do ciclismo espanhol”, mas também uma fama de rebelde que o persegue e que vê as redes sociais encherem-se de críticos e apoiantes que recorrem à #FreeLanda para, ora ironicamente ora convictamente, opinar sobre as ações deste. A verdade, parece-nos, fica a meio do caminho.

Fonte: Carlos Barbero
Landa já mostrou vez após vez que é um verdadeiro gregário de luxo e que sabe sacrificar-se pelos companheiros, mas nota-se também que sente que tem capacidade para mais e que vê os anos passarem e aquela grande vitória a continuar a não aparecer e, por isso, quer também oportunidades para liderar e obter os seus resultados. Pode-se dizer que o basco é um rebelde de vez quando, porque nunca parece totalmente comprometido com a sua rebeldia e as experiências anteriores mostram que quando o é, não deixa depois de, ainda assim, ser fiel à equipa e ajudar o líder designado. Aliás, as suas ações deixam adivinhar que se trata mais de alguém que quer afirmar a sua posição do que de um mau profissional. Veremos o que a passagem pela Movistar lhe reserva, mas parece que se bem gerido e tendo direito às suas oportunidades para provar o seu inegável valor, Mikel Landa pode ser ativo valioso e afirmar-se como um dos grandes da sua geração.
Foto de Capa: Team Sky












