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Partir do pressuposto que o britânico está de volta aos seus melhores dias é, aparentemente, prematuro. As suas mais recentes exibições deixaram água na boca e, inequivocamente, despoletaram memórias passadas de um sprinter feroz, dominante… acima de tudo, temido.
Na conceção da ideia de termos novamente Mark Cavendish a grande nível, quatro vitórias na Volta a Turquia representam muita imaginação ou um aviso sério para os tubarões do sprint atual? Kristoffer Halvorsen, André Greipel e principalmente Jasper Philipsen foram mais do que advertidos pelo veterano. O que é certo é que, ao fim do dia, esta discussão esbarrará sempre em argumentos válidos de parte a parte.
Encontrámo-nos num contexto fértil a perguntas, perguntas e mais perguntas. No fundo, aquela que fica na cabeça da maioria, no desejo de muitos e na expectativa de outros: é lógico, previsível e principalmente possível ter Mark Cavendish (agora com 35 anos) como um dos nomes grandes do sprint a curto/médio prazo?
Por que razão deve a “ameaça” Mark Cavendish ser encarada com seriedade?
Mark Cavendish takes his first win since 2018! Not only is the Manx missile seemingly back to his best, but Fabio Jakobsen is also back in the peleton in his first race since his crash last year – it’s great to see him back in action!
Catch the Tour of Turkey all week on GCN+ pic.twitter.com/FJt3PFPYSi
— GlobalCyclingNetwork (@gcntweet) April 12, 2021
Nada melhor do que mencionar em primeira instância a exibição que começou a construir a narrativa em causa. Para se perceber o impacto destas vitórias, importa referir que Mark Cavendish não vencia desde 2018. A juntar a vários sprints de qualidade já com as cores da Deceuninck Quick-Step, adivinhava-se que o míssil da Ilha de Man pudesse voltar a conhecer o sabor da vitória em solo turco, mas desta forma seria pouco provável, não?
Aconteceu… e em dose quádrupla. Dentro de uma equipa com inúmeros recursos de valor para a 56ª Volta à Turquia, Mark Cavendish assumiu da melhor forma toda a responsabilidade que recaía sobre si. Na estrada, a relação entre o timing de ataque e o posicionamento do ciclista inglês na hora de se lançar ao sprint foi perpetuada de maneira competente, beneficiando de uma frescura notável e da capacidade para manter a dimensão do ataque até ao risco.
You wait 3 years for a win and then 2 come along at once! Mark Cavendish backed up yesterday’s sprint victory with another convincing win – seeing off Jasper Philipsen and Andre Greipel in the process.
You can catch the Tour of Turkey all week on GCN+ pic.twitter.com/X91NY8T4Ty
— GCN Tech (@gcntechtweet) April 13, 2021
Taticamente, aquele comboio medonho onde o antigo campeão do mundo constituía-se como a última carruagem, pronta a dizimar a concorrência, faz parte do passado. Nestes dias de glória, os sprints vitoriosos de Mark Cavendish centraram-se na procura pela roda certa, pela maior eficiência possível na questão dos cones de vento e sobretudo pelo acréscimo de confiança de etapa para etapa depois do “boost” emocional de voltar à sua segunda casa, a ribalta dos sprints mundiais.
Foram triunfos plenamente cirúrgicos. Se outrora tínhamos uma HTC, por exemplo, a comandar o pelotão, com dois ou três adversários de respeito a lutar pela roda de Mark Cavendish, desta feita tivemos um lobo solitário a fazer uso de toda a sua experiência e leitura de corrida para se colocar na melhor posição possível, aproveitando as rodas oferecidas pela Israel Start-Up Nation e Alpecin-Fenix.
Mark Cavendish makes it a threepeat at the Tour of Turkey! There’s no doubt his sprinting is back to where he wants it to be.
The Tour of Turkey is on GCN+ all week, be sure not to miss out! pic.twitter.com/rhpKMEtRgG
— GlobalCyclingNetwork (@gcntweet) April 14, 2021
Obviamente que os últimos metros não reproduzem o excelente trabalho da equipa de Patrick Lefevere na proteção do seu líder, porém, é um dado assente quando refletimos sobre a maneira fria como foram planeados os finais de etapa no laboratório belga. Este tipo de posicionamento, embora possa trazer benefícios fulcrais para o desfecho final, como o lógico aproveitamento da roda certa, pode também cortar completamente o “comboio multicultural” a meio, deixando o ciclista em causa arredado das decisões.
Entra então a questão da velocidade em congruência com a inteligência, calma e a capacidade para tomar as melhores decisões num curto espaço de tempo. Mark Cavendish mostrou tudo isso, mostrou valências mentais que o podem levar a vencer seja contra quem for, até porque experiência sem velocidade vale pouco para um sprinter, mas velocidade sem experiência traduz um caminho com mais pedras rumo ao sucesso. A diferença entre Mark Cavendish e Jasper Philipsen, um conceituado sprinter da nova geração, passou essencialmente por estes dois pesos, não desvalorizando o aspeto mais importante: a velocidade.
After witnessing his first pro win over 38 months at 2nd stage, @MarkCavendish claimed his 150th career win at #TUR2021‘s 8th stage.
2. etapta 38 ay sonraki ilk galibiyetine tanıklık edişimizden sonra Cavendish #TUR2021‘in 8. etabında kariyerinin 150. galibiyetini elde de etti. pic.twitter.com/qPQeatj5Db
— Tour of Turkey (@tourofturkeyTUR) April 20, 2021
Vasilis Anastopoulos, treinador do atleta britânico, admite que o ciclista apresenta ligeiras melhorias nos dados do seu sprint em relação a 2015, isto no que diz respeito à longevidade dos seus ataques. Ora, com uma informação destas, fica mais difícil descurar um nome destes do futuro do sprint. São 35 anos, tudo bem. 35 anos com selo de experiência, mentalidade vencedora, habitat ideal para vencer, esperteza e velocidade. Seja como for, nem tudo é um mar de rosas e Mark Cavendish tem obstáculos para superar.
Pés assentes na terra, nos pedais e na imaginação…
Se a competência de Mark Cavendish merece ser valorizada, existem diversos pontos a abordar de maneira a analisarmos a situação sem um excesso de romantismos. A lua-de-mel foi altamente produtiva, emancipando a questão psicológica do ciclista – o trintão é o verdadeiro exemplo do quão importante é a saúde mental e a confiança num atleta -. É difícil também ignorar essa condição física aparentemente estável e pródiga a mais momentos de sucesso, mas o panorama do sprint mudou, revolucionou-se e vários tubarões cresceram… inclusive dentro da própria Deceuninck Quick-Step.
Fantastic start to one of my absolute favourite races, @ParisNice. It’s always a great feeling to win here.
Delighted to be the Irish man defending the leaders jersey for the first time in 33 years tomorrow. Massive Irish legacy stretching longer than my life time at this race. pic.twitter.com/jtTHTcI8TU
— Sam Bennett (@Sammmy_Be) March 7, 2021
A principal contrariedade que separa Mark Cavendish e o termo de melhor sprinter do mundo depreende-se com a inclusão de Sam Bennett nas fileiras da sua própria equipa. Duas questões: a primeira diz-nos que o irlandês, se não é o melhor velocista da atualidade, anda lá perto. Além de obter excelentes resultados, podendo ser uma aposta mais sólida a longo prazo, tem demonstrado toda a sua qualidade, não fazendo sentido mudar tudo por um estímulo vindo de terras turcas. A segunda questão advém desse jogo de estatutos e reflete sobre a falta de espaço e oportunidades que Mark Cavendish terá para competir nas maiores competições, junto dos maiores nomes da atualidade.
Tudo bem que foram quatro, mas foram quatro na Volta à Turquia. Apenas três equipas do primeiro escalão alinharam à partida, o que se apresenta como um argumento importante para explicar tudo isto. Não se trata de retirar mérito a Mark Cavendish, mas quando se tem a reputação e sobretudo a mentalidade ganhadora do inglês, a questão do sprint resume-se a vencer ou a não vencer.
Mark Cavendish and his 150 wins – Mega Galleryhttps://t.co/oUiY4ZEAjG pic.twitter.com/QGvWS9MoDt
— Cyclingnews.com (@Cyclingnewsfeed) April 19, 2021
Esse tal desnível competitivo pode enganar muito boa gente. Mas o peso de quatro vitórias num ciclista tão emotivo e com uma cultura vencedora profundamente enraizada na sua forma de encarar a corrida pode ter consequências positivas. Todas as componentes analisadas acima descrevem um ciclista capaz de se adaptar a qualquer tipo de chegada rápida, e sendo que a questão da velocidade não parece ser o maior entrave, não faltarão apenas grandes confrontos para tirar ilações mais pormenorizadas?
Caleb Ewan, Pascal Ackermann, Dylan Groenewegen, Elia Viviani, Giacomo Nizzolo, Arnaud Demáre, entre outros nomes. Em que patamar se enquadra Mark Cavendish dentro destes corredores? Próximo? Acima? Abaixo? É uma questão complicada de responder. Outra razão para limitar as altas expectativas criadas induz-se na incógnita da capacidade física e regularidade do míssil da ilha da Man em competições tremendamente exigentes em termos de quilometragem e calendário, como uma grande volta. Haverá maior objetivo para Mark Cavendish do que chegar às 34 vitórias (tem 30 de momento) de Eddy Merckx na Volta à França e, quiçá, consagrar-se como o segundo ciclista mais vitorioso da História?
💥🏆 Ciclistas con más victorias de la historia:
🇧🇪 Merckx (287)
🇮🇹 Cipollini (167)
🇧🇪 De Vlaeminck (165)
🇧🇪 Van Looy (165)
🇩🇪 Greipel (161)
🇮🇪 Kelly (160)
🇬🇧 Cavendish (155)
🇮🇹 Moser (155)
🇮🇹 Petacchi (149)
🇫🇷 Hinault (147)
…
16º 🇪🇸 Valverde (128)📊 @ProCyclingStats pic.twitter.com/G2ezy3nUu3
— COPEdaleando (@Copedaleando) April 19, 2021
A Volta à Turquia demonstrou muito daquilo que pode ser o “novo” Cav. Mais do que entrar em comparações, referir que a maior vantagem que o britânico pôde tirar desta competição foi mesmo o aumento da própria confiança, sobretudo depois daquilo que foram os últimos anos da sua carreira. Se existem dados factuais, expressões táticas na estrada e uma legião de fãs a apoiar um ciclista confiante com o seu historial, a verdadeira questão só pode ser uma: será Mark Cavendish capaz de terminar a sua carreira ao nível altíssimo com que nos habituou?
Foto de Capa: Deceuninck Quick-Step












