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Depois da tempestade vem a bonança, não é assim? A harmonia destes vocábulos proverbiais esclarece uma ideia por demais evidente, mas essa certeza de positividade à posteriori é tudo aquilo que está por descobrir neste caso em específico. Afinal, quão impactante será a hipotética redenção de Mark Cavendish? O que motiva esta discussão e por que razão devemos (ou não) “desenterrar” um dos melhores velocistas da História?

Partir do pressuposto que o britânico está de volta aos seus melhores dias é, aparentemente, prematuro. As suas mais recentes exibições deixaram água na boca e, inequivocamente, despoletaram memórias passadas de um sprinter feroz, dominante… acima de tudo, temido.

Na conceção da ideia de termos novamente Mark Cavendish a grande nível, quatro vitórias na Volta a Turquia representam muita imaginação ou um aviso sério para os tubarões do sprint atual? Kristoffer Halvorsen, André Greipel e principalmente Jasper Philipsen foram mais do que advertidos pelo veterano. O que é certo é que, ao fim do dia, esta discussão esbarrará sempre em argumentos válidos de parte a parte.

Encontrámo-nos num contexto fértil a perguntas, perguntas e mais perguntas. No fundo, aquela que fica na cabeça da maioria, no desejo de muitos e na expectativa de outros: é lógico, previsível e principalmente possível ter Mark Cavendish (agora com 35 anos) como um dos nomes grandes do sprint a curto/médio prazo?

Por que razão deve a “ameaça” Mark Cavendish ser encarada com seriedade?

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Nada melhor do que mencionar em primeira instância a exibição que começou a construir a narrativa em causa. Para se perceber o impacto destas vitórias, importa referir que Mark Cavendish não vencia desde 2018. A juntar a vários sprints de qualidade já com as cores da Deceuninck Quick-Step, adivinhava-se que o míssil da Ilha de Man pudesse voltar a conhecer o sabor da vitória em solo turco, mas desta forma seria pouco provável, não?

Aconteceu… e em dose quádrupla. Dentro de uma equipa com inúmeros recursos de valor para a 56ª Volta à Turquia, Mark Cavendish assumiu da melhor forma toda a responsabilidade que recaía sobre si. Na estrada, a relação entre o timing de ataque e o posicionamento do ciclista inglês na hora de se lançar ao sprint foi perpetuada de maneira competente, beneficiando de uma frescura notável e da capacidade para manter a dimensão do ataque até ao risco.

Taticamente, aquele comboio medonho onde o antigo campeão do mundo constituía-se como a última carruagem, pronta a dizimar a concorrência, faz parte do passado. Nestes dias de glória, os sprints vitoriosos de Mark Cavendish centraram-se na procura pela roda certa, pela maior eficiência possível na questão dos cones de vento e sobretudo pelo acréscimo de confiança de etapa para etapa depois do “boost” emocional de voltar à sua segunda casa, a ribalta dos sprints mundiais.

Foram triunfos plenamente cirúrgicos. Se outrora tínhamos uma HTC, por exemplo, a comandar o pelotão, com dois ou três adversários de respeito a lutar pela roda de Mark Cavendish, desta feita tivemos um lobo solitário a fazer uso de toda a sua experiência e leitura de corrida para se colocar na melhor posição possível, aproveitando as rodas oferecidas pela Israel Start-Up Nation e Alpecin-Fenix.

Obviamente que os últimos metros não reproduzem o excelente trabalho da equipa de Patrick Lefevere na proteção do seu líder, porém, é um dado assente quando refletimos sobre a maneira fria como foram planeados os finais de etapa no laboratório belga. Este tipo de posicionamento, embora possa trazer benefícios fulcrais para o desfecho final, como o lógico aproveitamento da roda certa, pode também cortar completamente o “comboio multicultural” a meio, deixando o ciclista em causa arredado das decisões.

Entra então a questão da velocidade em congruência com a inteligência, calma e a capacidade para tomar as melhores decisões num curto espaço de tempo. Mark Cavendish mostrou tudo isso, mostrou valências mentais que o podem levar a vencer seja contra quem for, até porque experiência sem velocidade vale pouco para um sprinter, mas velocidade sem experiência traduz um caminho com mais pedras rumo ao sucesso. A diferença entre Mark Cavendish e Jasper Philipsen, um conceituado sprinter da nova geração, passou essencialmente por estes dois pesos, não desvalorizando o aspeto mais importante: a velocidade.

Vasilis Anastopoulos, treinador do atleta britânico, admite que o ciclista apresenta ligeiras melhorias nos dados do seu sprint em relação a 2015, isto no que diz respeito à longevidade dos seus ataques. Ora, com uma informação destas, fica mais difícil descurar um nome destes do futuro do sprint. São 35 anos, tudo bem. 35 anos com selo de experiência, mentalidade vencedora, habitat ideal para vencer, esperteza e velocidade. Seja como for, nem tudo é um mar de rosas e Mark Cavendish tem obstáculos para superar.

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