Cabec¦ºalho ciclismo

Antes de mais nada, tenho de começar por fazer uma declaração de interesses: eu adoro Mundiais e todas as outras competições em que se defende uma seleção e não um clube. Não por motivos de patriotismo bacoco, que me passam completamente ao lado, mas sim por gostar da ideia de ver atletas que durante muito tempo competem entre si representando clubes rivais a deixarem, por um curto período de tempo, tudo aquilo que é acessório de lado e a esforçarem-se para honrar uma camisola que representa muito mais que eles próprios. Na minha opinião, é aquilo que está mais perto, nos dias de hoje, do que é (e deveria sempre ser) realmente o desporto.

Sei que há sempre excepções, sei que o grau de desportivismo não é igual em todas as modalidades, sei que com o avançar da “era moderna” cada vez nos afastamos mais desta ideia, sei disso tudo! Deixem-me, no entanto, agarrar com todas as forças esta réstia de pureza desportiva que faz com que pessoas que vivem como inimigas durante quase toda a sua carreira dêem tudo quanto têm uns pelos outros, não para justificar o seu salário, não para conseguirem um contrato melhor, mas simplesmente porque querem vencer em nome do seu país.

Um pelotão com as camisolas nacionais é sempre mais bonito  Fonte: velonews.competitor.com
Um pelotão com as camisolas nacionais é sempre mais bonito
Fonte: velonews.competitor.com

Falando agora concretamente dos Mundiais de Ciclismo de 2014, houve dois países que claramente se destacaram, a Alemanha e a Austrália. Cinco e sete medalhas, respectivamente, exercem um domínio avassalador sobre estes Mundiais, levando doze das trinta e três medalhas que havia para distruibuir. A Alemanha arrecadou três medalhas de ouro e duas de prata, enquanto a Austrália arrecadou duas de ouro, três de prata e duas de bronze. O mais interesante aqui é verificar onde é que as medalhas foram conseguidas: principalmente nas provas de juniores e de sub-23. A Alemanha venceu o contra-relógio e a prova de fundo dos juniores masculinos e a Austrália venceu o contra-relógio feminino de juniores, o contra-relógio masculino de sub-23, fez segundo na prova de fundo masculina de sub-23 e terceiro no contra-relógio masculino e feminino de juniores. Se juntarmos isto às medalhas de Tony Martin, Lisa Brennauer e Simon Gerrans, verificamos que a Alemanha e a Austrália não são só dois países que neste momento têm ciclistas de elite para vencer qualquer prova, mas sim que há toda uma nova geração que vem aí para dominar por completo o ciclismo mundial. É, mais uma vez, o resultado de uma formação pensada e estudada em todos os desportos que alguns teimam em ignorar, preferindo viver à sombra de alguns talentos que pontualmente aparecem, quase por geração espontânea.

Basta olhar para os resultados de Espanha, Itália e Reino Unido para vermos que algo de facto vai mudar. Os países que nos últimos tempos têm vindo a dominar o circuito mundial com Contador, Nibali e Froome tiveram, os três somados, apenas uma medalha nos escalões dos mais novos (Sofia Bertizzolo conquistou, para a Itália, a prata na corrida de fundo de juniores femininos) e isso é um sinal que berra alto demais para ser ignorado. Aliás, não fossem os nada jovens Valverde e Wiggins e nem a Espanha nem o Reino Unido teriam algo de positivo a retirar destes Mundiais.

Anúncio Publicitário
O pódio da prova de contra-relógio de elites: Martin, Wiggins e Dumoulin  Fonte: cyclingfans.com
O pódio da prova de contra-relógio de elites: Martin, Wiggins e Dumoulin
Fonte: cyclingfans.com

Não posso, obviamente, continuar sem falar sobre a prestação de Portugal. É verdade que Portugal não trouxe nenhuma medalha para casa (nem se podia esperar isso de um país que não tem sequer uma equipa pro-continental), mas a verdade é que estivemos lá muito perto! Rafael Reis ficou em quarto lugar (que é sempre o pior lugar) no contra-relógio masculino de sub-23, tendo sido empurrado para fora do pódio pelo último ciclista a cortar a meta. Pode ter um sabor um pouco amargo, mas tem de ser encarado como um fantástico resultado que nos enche de esperança e curiosidade sobre o seu futuro. Tenho também de destacar Nelson Oliveira e Tiago Machado, que fizeram, respectivamente, sétimo e décimo primeiro no contra-relógio de elites e Rui Costa, que, apesar de não ter conseguido revalidar o título mundial, esteve na luta praticamente até ao final e isso é tudo o que se lhe pode exigir.

Para terminar, falar só sobre três homens: Wiggins, que conseguiu o seu grande objectivo da época e aquilo que o separava de ter um ano muito bom de um ano miserável; Valverde, que leva mais uma medalha para casa e que teima em mostrar ao mundo que está longe de estar acabado; e, claro, Michal Kwiatkowski (o nome mais difícil que já escrevi na minha vida!), que é o novo campeão do mundo e que, juntamente com Rafal Majka, faz um dupla de jovens polacos que tem tudo para conquistar muita coisa importante na próxima década.