Cabeçalho modalidadesO calendário World Tour 2017 está a chegar ao fim, com a Volta a Turquia e o Tour de Guangxi a fecharem a época do mais alto escalão do ciclismo profissional. É curioso que este termine com duas das suas mais polémicas provas, cuja inclusão no alargamento deste ano dominou a discussão ao longo da época e foi um dos temas mais falados da recente eleição do novo Presidente da União Ciclística Internacional (UCI).

Além destas duas provas, várias outras como a Volta a Califórnia ou a Ride London foram adicionadas ao World Tour, mas, perante críticas das equipas pela extensão do calendário, ficaram com um estatuto de segunda categoria, em que as 18 equipas do escalão não eram obrigadas a participar. Ora, uma vez que estas provas apenas podem ter participação de equipas World Tour ou Continentais Profissionais, havia a possibilidade de fiascos e foi isso mesmo que se passou, em grande escala, na Volta a Turquia que, sem possibilidade de convidar equipas Continentais e com apenas 4 equipas do World Tour disponíveis para participar, foi para a estrada com um pelotão reduzido de apenas 104 ciclistas, uma humilhação para uma prova supostamente tão importante. Para comparação, a Volta a Portugal, dois escalões a baixo e preterida por várias equipas graças à sua extrema dureza, tinha este ano um pelotão de 141 ciclistas.

As críticas têm sido muitas, desde logo por se estar a descredibilizar o mais importante escalão do ciclismo, mas também por terem sido elevados provas com menor história e estatuto, mas provenientes de locais com maior capacidade financeira para pagar o exigido pela UCI. E este é realmente um ponto fulcral da discussão, porque a escolha destas localizações exóticas é defendida por muitos como uma forma de expandir o ciclismo às zonas do globo onde a modalidade tem pouca expressão. No entanto, a verdade é que muitas destas escolhas parecem ter como grande razão o dinheiro e que, por outro lado, está a ser ignorado o crescente desaparecimento de provas na Europa.

Prova disso mesmo é a insistência em provas na China, que têm repetidamente fracassado e a muito menor preocupação com o continente africano, onde o ciclismo tem uma muito maior importância na sociedade, mas que, por falta de fundos, tem uma expressão a nível competitivo bastante inferior à que poderia assumir. E, como falámos, na Europa, ainda o grande motor do ciclismo, várias provas históricas de dimensão inferior estão a desaparecer e também não se vê a UCI a apresentar propostas para lidar com esses problemas.

Também em termos de equipas é necessário olhar para o cenário com atenção e tentar reverter a tendência decrescente que este ano fez com que somente 18 equipas concorressem para ser World Tour em 2018, apenas as suficientes para ocupar os lugares disponíveis, com algumas a mostrarem incapacidade de serem competitivas durante todo o ano e tendo a Cannondale estado perto de encerrar portas.

A Volta a Turquia ascendeu este ano ao World Tour, mas apenas atraiu quatro equipas desse escalão Fonte: Trek-Segafredo
A Volta a Turquia ascendeu este ano ao World Tour, mas apenas atraiu quatro equipas desse escalão
Fonte: Trek-Segafredo

Posto isto, é claro que a UCI precisa de ter uma postura diferente daqui por diante. Primeiro, está na altura de ser revisto o modelo de financiamento do desporto. Este é um tema recorrente há muitos anos, mas com muito poucas consequências práticas. A distribuição dos direitos televisivos, os eventos premium, como testou a Hammer Series com sucesso, ou mesmo o limite de salários que Contador recentemente propôs devem ser debatidos seriamente na comunidade com vista à definição de um caminho a percorrer no longo prazo.

Depois, é também preciso compreender que a expansão do ciclismo para novos mercados não se faz apenas colocando uma prova no tal local. É preciso um trabalho de base a começar pelas camadas jovens e um plano sustentável para o futuro, em que se faça crescer o interesse e o mediatismo da modalidade nessas zonas.

Finalmente, há que incentivar o ciclismo em África, uma mina de talentos que está a ser desperdiçada. O ciclismo gosta de se vender como um desporto para todas as classes e, em parte, tal é verdade, mas não é menos verdade que há uma clara falta de oportunidades para os africanos devido aos parcos recursos existentes nesta região. Apesar de ter um grande número de adeptos e praticantes, África é o verdadeiro parente pobre do ciclismo e precisa que a UCI canalize parte dos seus fundos para combater esta desigualdade competitiva e, se o souber fazer, conseguirá criar condições para que em alguns anos o continente seja auto-suficiente e dê um muito maior contributo para a modalidade.

Estas são algumas das situações que precisam de ser tratadas pela UCI e por quem se preocupa com o ciclismo. Obviamente que as soluções aqui apresentadas são apenas linhas gerais a necessitar de desenvolvimento em profundidade, mas o mais relevante é aceitarmos que é mais que tempo de deixarmos de dizer que estes assuntos têm de ser tratados e começar mesmo a agir.

Foto de Capa: ORICA-Scott

 

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