Cabeçalho modalidadesO mítico “Hell of the North” (que começou a ser disputado em 1896 – uma das mais antigas do pelotão), uma das melhores e mais conhecidas clássicas do ciclismo mundial e uma das minhas provas preferidas. Temos presente, todos os anos, a competitividade, a emoção, a incerteza, o “empedrado” (ou pavé), as quedas, as táticas diversas, ciclistas e equipas de qualidade e um grande espetáculo. Quase todos, se não mesmo todos, os ingredientes precisos numa prova de elevada categoria.

Este ano não foi exceção. Uma corrida com muita imprevisibilidade até ao fim e com vários candidatos a vencerem uma das mais famosas corridas. Dois desses favoritos à vitória final eram Tom Boonen e Fabian Cancellara, o primeiro com quatro vitórias nesta prova e o segundo com três. Nenhum dos dois teve o desfecho desejado, sendo que ambos tiveram “destinos” diferentes ao longo da corrida.

Uma prova que começou bem, mas, ao fim de um certo tempo, começou a existir as primeiras incidências. Um corte no pelotão levou a que Boonen e mais um bom grupo de ciclistas (onde estava, por exemplo, Hagen ou Vanmarcke, outros candidatos à vitória) ficassem com uma vantagem importante para o grupo de Cancellara e o campeão do mundo, mais um dos favoritos, Peter Sagan (ele que, já este ano, ganhou a Gent-Wevelgem e o Tour de Flanders – para mim, tem capacidade para, daqui a uns anos, ter ganhado todos os Monumentos).

Numa fase em que o grupo do Spartacus e do camisola arco-íris se aproximava do grupo que liderava a prova, o vencedor de três Paris-Roubaix’s caiu e terminou ali com quaisquer esperanças que poderia existir para ele, pelo menos em termos de vencer a prova. Nota para a excelente capacidade técnica de Sagan, que evitou também ficar envolvido na queda com alguns outros ciclistas, conseguindo passar por cima da bicicleta do próprio Cancellara (ainda assim, este acontecimento foi o suficiente para o campeão do mundo ficar definitivamente fora da luta pela vitória). Infelizmente, a “sorte” não quis nada com um dos melhores ciclistas, não só desta prova como deste século, e que irá abandonar o ciclismo sem vencer, por uma última vez, uma das suas provas prediletas.

Foi uma despedida inglória para o enorme Spartacus Fonte 20minutes.fr
Foi uma despedida inglória para o enorme Spartacus
Fonte 20minutes.fr

Na frente da corrida, também existiram alguns “azares”. Os homens da Sky (equipa que tem estado a dominar este início de temporada mas que ainda não tem nenhum Monumento no seu palmarés), em pouco espaço de tempo, ficaram com três homens afetados, devido a duas quedas. Esse grupo passou de 10 para cinco na parte final, e esses discutiram a vitória entre si até ao final, com várias mudanças de liderança no grupo, ataques e contra-ataques. Entre eles, tínhamos, com a ordem a ir desde o quinto classificado até ao primeiro classificado deste Paris-Roubaix: Boasson Hagen (Dimension Data), Sep Vanmarcke (LottoNL-Jumbo), Ian Stannard (Sky), Tom Boonen (Etixx) e… Mathew Hayman (Orica), o grande vencedor!

Quando se previa que Tom Boonen fosse fazer ainda mais história e ser o recordista isolado de conquistas da prova francesa (tal como já foi referido, tem quatro, as mesmas do que Roger De Vlaeminck – campeão nos anos 70), Hayman, ciclista com 37 anos – completa 38 este mês – e com muito poucos ou nenhuns resultados de destaque nos últimos anos, depois de muitos quilómetros em fuga e com o grupo de Boonen, consegue arrecadar, ao sprint, a vitória provavelmente mais importante da sua longa carreira (desde 2000, pelo menos, que compete profissionalmente).

A vitória do australiano da Orica foi das maiores surpresas dos últimos tempos  Fonte: Paris-Roubaix
A vitória do australiano da Orica foi das maiores surpresas dos últimos tempos
Fonte: Paris-Roubaix

Peter Sagan foi “apenas” 11.º, Cancellara terminou no 40.º lugar, a mais de sete minutos do vencedor, algo compreensível tendo em conta a queda e a impossibilidade de não conseguir conquistar nada na prova. Kristoff, outro dos principais candidatos, teve um furo e acabou por ser prejudicado devido a isso, terminando na 48.ª posição, a mais de 14 minutos. Outros favoritos à partida para esta corrida acabaram por ter de desistir, principalmente devido às tais quedas (exemplos disso foram ciclistas como Lars Boom, Niki Terpstra ou Daniel Oss).

Apesar da parte menos boa que a prova nos “deu”, há que salientar o enorme espetáculo protagonizado pelos mais variados ciclistas. Os setores de “pavé” trouxeram a sua imprevisibilidade do costume (e umas boas dores de costas a alguns ciclistas, possivelmente…) e tivemos muitas jogadas táticas desde o início ao fim.

Uma das melhores provas do ano, uma das minhas preferidas, teve um vencedor inesperado (mas, de certa forma, justo, principalmente por todo o desgaste que teve ao longo da prova e o facto de ainda ter conseguido vencer ao sprint – a sua expressão no final “dizia” praticamente tudo), mas não deixou de ser espetacular por isso. Ainda assim, tinha preferido que o Boonen tivesse feito mais história ou o Cancellara terminasse a sua carreira com uma vitória numa das provas mais míticas do ciclismo e onde ele próprio teve bastante sucesso. Nem uma dessas situações aconteceu, mas recordar-se-á, na mesma, o grande Paris-Roubaix que tivemos em 2016!

PS: O suíço Cancellara ainda voltou a cair no final da prova, aquando das despedidas entre ele e o público, já na própria arena, mesmo na parte final e quando levava a bandeira da Suíça. Nem aí as quedas o deixaram em paz. Incrível, que infelicidade.

PS2: Tenho de salientar que, na Volta ao País Basco, outro grande ciclista e que irá terminar a carreira, em princípio, este ano, Alberto Contador, venceu, de forma justa, a prova e superou concorrência muito boa vinda de, principalmente, Henao e Quintana, respetivos segundo e terceiro lugares no final. O português Rui Costa foi sétimo na última etapa – contrarrelógio individual – e esteve muito perto de vencer uma outra etapa, ficando em segundo lugar, sendo que terminou a corrida espanhola no sétimo lugar da classificação geral.

 

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