Cabeçalho modalidadesPhil Gaimon foi um ciclista mediano que correu duas épocas no World Tour, mas que se destaca mais como autor, com uma escrita cativante e reveladora sobre ciclismo. Recentemente, lançou o seu terceiro livro, “Draft Animals”, em que conta a sua experiência no escalão mais alto do ciclismo e que gira, em grande parte, à volta da sua relação com Tom Danielson, um grande amigo que esteve implicado em casos de doping. Tal é de grande interesse porque Gaimon é um conhecido ativista por um desporto limpo e tem até uma tatuagem no braço com a palavra “clean”.

Ora, a imprensa internacional decidiu criar um caso, aproveitando-se do que é dito no livro sobre o uso de doping mecânico. Lá, Gaimon escreve que acredita que tal deve ter existido, mas que após as suspeitas terem vindo a público já não ocorrem casos desses no pelotão de hoje. Nomeadamente, falou em particular das polémicas acelerações de Cancellara nas clássicas do paralelo em 2010, afirmando que do que tinha ouvido e observando as imagens televisivas, realmente parecia haver algo estranho e que era provável que o suíço estivesse mesmo a utilizar um motor. Sucederam-se um conjunto de respostas desde o Presidente da União Ciclística Internacional (UCI) a prometer investigar a Cancellara exigir a retirada do livro do mercado.

É preciso compreender que Gaimon nem sequer lá estava, em 2010 corria na Kenda, uma pequena equipa americana que nem sequer sonhava em poder participar em provas como a Ronde van Vlaanderen e o Paris-Roubaix, dois dos 5 Monumentos do ciclismo e os que Cancellara ganhou na mesma época com as tais suspeitas. Nem Gaimon tenta dizer o contrário, deixa bem claro que a sua opinião se baseia em relatos de outros e nas imagens televisivas. E, verdade seja dita, perante a vinda a público da existência da tecnologia para esconder um motor na bicicleta, é difícil ver as imagens sem ficar desconfiado, especialmente a forma como distancia Tom Boonen na Ronde van Vlaanderen.

Fabian Cancellara é o grande suspeito de ter recorrido ao doping mecânico Fonte: Trek-Segafredo
Fabian Cancellara é o grande suspeito de ter recorrido ao doping mecânico
Fonte: Trek-Segafredo

Também curioso é que se ignore o contexto em que são proferidas as afirmações. Gaimon fala do tema exatamente para referir que a ter acontecido foi algo isolado e que não terá par na atualidade. Por isso, parecem exageradas certas reações, especialmente do Presidente da UCI, que, apesar de ter prometido na sua campanha eleitoral combater seriamente o doping mecânico, não fica propriamente bem na fotografia ao levar tão a sério declarações baseadas no ouvir dizer e que o próprio autor desvaloriza.

Ainda assim, não há dúvidas que o trabalho da UCI está a meio e que são precisas novas medidas para assegurar a credibilidade do desporto. Sendo certo que são poucos os casos comprovados de recurso à ‘fraude tecnológica’, como oficialmente se designa, e apenas um em provas profissionais, o da atleta de Ciclocrosse Sub23 Femke Van den Driessche que foi banida por seis anos, não o é menos que têm vindo a público informações que preocupam que pretende um ciclismo limpo e justo.

Quando os primeiros rumores sobre o tema vieram à tona, o conceito existente era o de um pequeno motor inserido no quadro da bicicleta e o modo de fiscalização foi, além de muito raros raios-X, o recurso a um tablet com uma aplicação específica para detetar o motor. No entanto, uma recente investigação revelou as debilidades dessa opção, mostrando-a como pouco fiável. Em adição, a tecnologia parece ter evoluído para um modelo à base de rodas eletromagnéticas que não pode ser detetado usando o tal tablet.

Perante estes desenvolvimentos, exige-se à UCI uma tomada de posição de força que permita, de uma vez por todas, restaurar total confiança aos adeptos de que as bicicletas não andam sozinhas e que os atletas só têm mesmo como motor o próprio corpo. Ainda assim, e como Gaimon diz e bem, tudo aponta para que este não seja um problema generalizado e que seja mais um pretexto para criar manchetes do que outra coisa e, portanto, só prejudica a modalidade que o seu mais alto representante lhe dê uma importância maior que a que tem e ajuda a descredibilizar o ciclismo junto do cidadão comum.

 

Foto de Capa: Ronde van Vlaanderen

Comentários