Cabeçalho modalidadesO ciclismo tem várias particularidades que o diferenciam dos restantes desportos de equipa e uma delas é a não partição das equipas em divisões estanques como acontece no basquetebol ou no hóquei. A tradição até é a do total liberalismo, mas neste milénio a União Ciclista Internacional (UCI) conseguiu impor um sistema de escalões, hoje conhecido como World Tour.

Ora, o World Tour é o escalão mais alto do ciclismo profissional e a sua premissa é simples: nele estão as 18 melhores equipas do mundo que ganham convite automático para as melhores provas – as de escalão homónimo. Os restantes lugares vagos serão ocupados por equipas do segundo nível, Profissionais Continentais, enquanto as equipas Continentais não podem aceder a esse nível de competição. Para exemplificar, as equipas portuguesas, como a W52/FC Porto e o Sporting CP/Tavira, são continentais, a CCC Polkowice onde corre Amaro Antunes ou a Cofidis de Nacer Bouhanni são Profissionais Continentais e a Sky de Chris Froome e a UAE Team Emirates de Rui Costa são World Tour. Há ainda lugar a equipas amadoras cujo registo é apenas nas Federações nacionais e não na UCI, tendo Portugal várias destas equipas, como a Sicasal-Constantinos-Delta.

As restantes provas podem convidar as equipas que quiserem, desde que respeitando limites consoante os escalões destas, que vão do mais elevado .HC ao mais baixo .2, passando pelo intermédio .1. É justamente esse sistema de convites que causa maiores condicionamentos às equipas, porque estão sujeitas à arbitrariedade das organizações das provas e acabam por fazer parte da época com o calendário indefinido e sem saber se irão ou não fazer certas provas.

Esta época começou exatamente com questões sobre a decisão da organização do Tour de deixar de fora a Vital Concept de Bryan Coquard sem esta ainda ter corrido um único quilómetro para poder demonstrar a força da sua candidatura, mas críticas às escolhas dos organizadores não se resumem ao Tour nem somente à presente época. Um dos exemplos mais gritantes é o do Giro d’Italia, especialmente desde que deixou de haver qualquer equipa transalpina no escalão máximo. Uma vez que há 4 equipas Pro Continentais italianas, seria de esperar que ocupassem os 4 lugares disponíveis para equipas convidadas, mas não tem sido esse o caso. Esta época, a Nippo ficou de fora para dar lugar à Israel Cycling Academy o que,  até se pode compreender já que o Giro começará em Jerusalém, não faz sentido do ponto de vista desportivo, já que os italianos têm muito mais pergaminhos. Adicionalmente, a Nippo poderia também ter entrado no lugar da Bardiani, que em 2017 começou a prova com menos dois, devido a casos de doping conhecidos na véspera da corrida.

Apesar dos bons resultados desportivos, a Androni tem sido várias vezes preterida na atribuição de wildcards Fonte: Team Androni Giocattoli
Apesar dos bons resultados desportivos, a Androni tem sido várias vezes preterida na atribuição de wildcards
Fonte: Team Androni Giocattoli

Ainda assim, a seleção deste ano é muito mais aceitável que a do ano anterior em que à Nippo se juntou a Androni em ficar de fora, para dar lugar aos polacos da CCC e aos russos da Gazprom. Em resposta da Androni à incompreensível nega da organização foi dada na estrada, vencendo a Taça de Itália e ganhando automaticamente um dos convites. Ainda assim, não deixam de ser preteridos em provas da RCS, a entidade que organiza o Giro, e, por exemplo, este ano vão falhar o Tirreno-Adriatico.

E também nas clássicas há casos destes, a Wanty, que ganhou o ranking Europeu em 2017, vai ficar de fora do Paris-Roubaix, mesmo tendo em Yoann Offredo um bom outsider que o ano passado terminou em 14º. Também a Filippo Pozzato de nada lhe valeu o seu 8º na Ronde van Vlaanderen 2017, já que este ano a organização decidiu não convidar a Wilier Triestina onde corre.

Já em Portugal, a maioria das competições não tem equipas interessadas em número suficiente para chegar ao limite de participantes, pelo que apenas na Volta ao Algarve se colocam este tipo de questões. Também aqui a decisão não foi livre de polémica, especialmente por se ter deixado de fora a CCC equipa de Amaro Antunes, ciclista algarvio que em 2017 foi 5º da Geral e quebrou uma seca de muitos anos de vitórias de etapas de portugueses.

E, então, qual é a solução? Não há, pelo menos para já. O que temos de manter sempre em mente é que as organizações têm o direito de convidar quem querem, as prova são delas, são elas que as gerem e arranjam financiamento, por isso têm que ter autonomia para escolher. Ou seja, é preciso aceitar que há interesses económicos e nacionais que têm de ser respeitados. No entanto, é preciso não ignorar os resultados desportivos e deixar equipas de fora e com calendários remendados à última da hora apenas porque não são tão fortes no lobbying.

Para finalizar, uma sugestão de como se pode diminuir estas injustiças: a fixação de critérios desportivos. A UCI e as Federações Nacionais devem incentivar – mas nunca obrigar, já que a autonomia das organizações deverá sempre ser preservada – a que as entidades organizadoras estabeleçam critérios de base desportiva para alocar uma parte dos convites disponíveis, como a RCS faz no Giro com a atribuição de um wildcard à equipa vencedora da Taça de Itália e que permitiu à Androni dar a volta às negas.

Foto de Capa: Le Tour de France

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

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