Cabec¦ºalho ciclismo

Todos os anos, no dia seguinte à final do Tour, a sensação é a mesma. Uma vontade enorme de voltar atrás no tempo. É que esperar mais um ano para ver esta corrida mágica parece sempre uma eternidade! Seria bem mais fácil carregar no rewind e andar três semanas para trás. Este ano esse sentimento é redobrado. Sinto que as quedas nos roubaram o que poderia ter sido uma das melhores Voltas à França dos últimos (largos) anos. À partida tínhamos Froome, Contador e Nibali em busca da camisola amarela e, sabendo agora o nível que Nibali apresentou, que luta fantástica teria sido entre eles. Tínhamos Cavendish que queria aproveitar o facto de a prova começar no seu Reino Unido para mostrar ao mundo que ainda é o melhor sprinter do mundo. Tínhamos também (agora um interesse mais nacional) Rui Costa como chefe de equipa, o que me despertou uma enorme curiosidade pois tanto eu como muitas gerações passadas nunca tivemos oportunidade de ver um português nesse papel, ainda por cima com a camisola de campeão do mundo! Um lugar no top10 parecia realisticamente alcançável e com possibilidade de sonhar com um pouco mais. Pois é, não tivemos nada disso e fica também um sentimento de grande frustração. Apesar de tudo, não foi um Tour para esquecer, muito pelo contrário – tivemos uma boa corrida com momentos memoráveis, mas é impossível não pensar no que poderia ter sido.

Destaques

Vicenzo Nibali -> Começo pelo óbvio, que prestação sensacional! O italiano terminou com uma vantagem superior a 7min30s do segundo classificado, apresentando um nível muito acima de toda a concorrência que, apesar de ter sido privada dos dois maiores nomes, não era propriamente composta de meninos de coro. Ainda havia Valverde, Pinot, Rui Costa, Garderen, Mollema, Ten Dam, Rolland… A verdade é que o tubarão se destacou de tal maneira nas montanhas que parecia que estava a nadar num mar cheio de sardinhas. 16 anos depois de Pantani, um italiano volta a ganhar o Tour e junta-se ao restrito grupo daqueles que venceram as três grandes provas. Fica também para a história uma etapa memorável em que, apesar de ser o camisola amarela e ter mais de 5min de vantagem sobre o segundo classificado, Nibali atacou de uma forma que já não se via um líder da classificação fazer há muitos, muitos anos, deixando a mensagem clara de que ele estava num planeta à parte de todos os outros e que, mesmo que houvesse Froome e Contador no pelotão, não seria fácil batê-lo.

 

Rafal Majka -> Antes de começar a prova refilou publicamente com a sua equipa porque não queria ir ao Tour, preferia ficar a preparar-se para a Vuelta. Apesar disso, desde cedo que lançou o desafio a Rodriguéz pela luta da camisola da montanha. Venceu esse duelo com larga vantagem e trouxe a camisola das bolinhas para casa. Pelo meio venceu duas etapas e deu muito espetáculo nas montanhas. Para quem não queria ir, nada mau! Disse depois que se apaixonou pela prova (como não?) e que mal pode esperar para voltar. Depois do que fez no Giro mostra-se cada vez menos como uma promessa de futuro e cada vez mais como um grande ciclista da actualidade.

 

A “brigada francesa” -> Há muitos anos que a França não colocava um homem no pódio do Tour, mas este ano colocou dois. Dois no top3 e três no top6. Péraud, Pinot e Bardet fizeram provas impressionantes e sempre com duelos interessantes entre si. Péraud e Pinot disputaram até ao contra relógio um lugar no pódio com Valverde e durante a etapa, quando rapidamente se percebeu que Valverde estava em dificuldades, ofereceram-nos um duelo ao segundo pela segunda posição no pódio. Já entre Pinot e Bardet, para além da luta na classificação geral, havia também outro duelo particular, o duelo pela camisola branca, que premeia o melhor jovem. Se Pinot perdeu a luta com Péraud, venceu a luta com Bardet conquistando a camisola branca com 3min11s de vantagem. Para além disso, a equipa AG2R venceu a classificação por equipas com 34min46s de vantagem sobre a Belkin, segunda classificada, e com uma vantagem superior a uma hora para todas as outras equipas. Em França, esta edição não será esquecida tão rapidamente.

 Belkin -> Tenho de fazer uma pequena menção à equipa holandesa que, além de levar uma etapa para casa, ficou em segundo lugar na classificação por equipas e a par da AG2R é a única equipa a colocar dois ciclistas no top10.

Rafal Majka, um dos grandes destaques da prova.  Fonte: Cyclingweekly.co.uk
Rafal Majka, um dos grandes destaques da prova.
Fonte: Cyclingweekly.co.uk

Surpresas

A “brigada francesa” -> Novamente. Foi a grande surpresa do ano e nada mais se compara. Ninguém apostava à partida em três franceses no top10, quanto mais em dois no pódio. É verdade que isto se deve ao facto de não haver Froome e Contador, mas mesmo depois dos seus abandonos, muito poucos acreditavam que isto poderia acontecer.

 Desilusões

Valverde -> Nunca conseguiu um lugar no pódio do Tour e este ano não soube aproveitar a melhor oportunidade que alguma vez teve ou terá. Sem Froome e sem Contador, todos esperavam que Valverde fosse no mínimo terceiro classificado, mas apresentou-se no contra relógio em tão má forma que desceu de segundo para quarto e não esteve à altura da camisola de campeão espanhol que envergou nesse dia. O desastre foi tão grande que, aos 35 anos de idade e com um Quintana a disparar na mesma equipa, parece que acabou a aventura do Tour para este ciclista que marcou o século XXI. É pena vê-lo sair da ribalta desta forma, mas parece-me que apenas lhe resta a Vuelta, e isto por ser a prova do seu país natal.

 

Rui Costa -> Coloco o ciclista português nas desilusões não tanto pelo seu desempenho na estrada, mas por não ter tido capacidade física este ano para resistir às durezas do Tour. Rui Costa fica doente e abandona a prova mais cedo deixando uma série de expectativas por cumprir. Felizmente para ele, ainda está na fase da carreira em que há sempre o próximo ano.

Peter Sagan teve um Tour agridoce Fonte: cyclingperspective.com
Peter Sagan teve um Tour agridoce
Fonte: cyclingperspective.com

 PS: Não posso acabar este artigo sem mencionar Peter Sagan. A verdade é que não sei em que categoria o colocar. Sagan esteve em destaque por vencer novamente a camisola verde (já a 3ª consecutiva), mas também foi uma surpresa e desilusão o facto de não ter conseguido vencer nenhuma etapa.

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