Cabec¦ºalho ciclismo

Está aí a Volta a Portugal em bicicleta! O momento alto do calendário do ciclismo português (apesar de a Volta ao Algarve, tendo em conta a altura em que é feita, ter ciclistas de maior renome – mas isso são conversas para outras alturas) e, mesmo para muitos portugueses, a única altura do ano em que gostam de ver ou que podem ver as bicicletas a rolar na estrada. Depois do Tour e antes da Vuelta, a Grandíssima toma o seu lugar no calendário (de 29 de Julho até 9 de Agosto).

Este ano temos um percurso equilibrado e que oferece algumas oportunidades aos sprinters, às fugas, aos puros trepadores e aos especialistas em contrarrelógio. Ou seja, iremos ter um pouco de tudo o que o ciclismo nos dá, ainda que com um ascendente para aqueles que se dão melhor na montanha, como é normal (apesar de o CR na penúltima etapa ser de ajuda para aqueles que são especialistas nessa vertente e que se defenderam bem na montanha).

Como nos últimos anos, a prólogo começará em Viseu e a última etapa terminará em Lisboa, mais propriamente na Avenida da Liberdade. O prólogo em Viseu terá 6 kms e a camisola amarela irá ficar, muito provavelmente, no corpo de um especialista em CR que saiba fazer um grande tempo em esforços curtos ou até mesmo para um sprinter (alguém com certas caraterísticas parecidas com as do Sagan, com as devidas diferenças, claro, mas, geralmente, o recente vencedor da camisola verde do Tour, neste tipo de prólogos, costuma ser dos melhores, mesmo não sendo um contrarrelogista, daí a minha comparação). As principais figuras tentarão, aqui, marcar já diferenças (ainda assim, pequenas) perante os seus rivais – sendo que também é uma hipótese o facto de virmos a ter um dos favoritos à vitória final já com a camisola amarela depois deste início.

A primeira etapa da prova irá terminar em Bragança (um regresso a essa terra). Na teoria, será uma etapa que irá terminar ao sprint, portanto, prevê-se que as equipas dos homens mais rápidos controlem a corrida. Ainda assim, será uma etapa “rompe pernas”. A segunda etapa irá levar-nos à primeira chegada em alto da Volta a Portugal. Repete-se, então, a chegada à Serra do Larouco e esta subida final irá certamente marcar as primeiras grandes diferenças entre os principais favoritos. Quem estiver bem, não só irá ter a vantagem no tempo, como também irá ter a vantagem em termos de moral.

As etapas 3 e 4 repetem um pouco a história das duas anteriores: a terceira etapa voltará a dar uma oportunidade aos sprinters de vencerem nesta Volta (será uma chegada a Fafe) e à quarta etapa teremos a mítica subida à Sr.ª da Graça. A etapa mais bonita da Volta a Portugal (por tudo o que está envolvido: por ser a um Domingo – irá levar mais pessoas às estradas – e por ser uma etapa que todos querem vencer); e quem por lá anda diz que ao passar Mondim o sentimento é realmente único. Os trepadores e os favoritos para a geral terão, sem dúvida, esta etapa marcada.

A mítica etapa à Sr.ª da Graça continua a ser uma das principais atrações da Volta a Portugal Fonte: Site oficial da CM de Mondim de Basto
A mítica etapa à Sr.ª da Graça continua a ser uma das principais atrações da Volta a Portugal
Fonte: Site oficial da CM de Mondim de Basto

As quinta e sexta etapas tanto poderão dar para vingar um sprinter como uma fuga. Ainda assim, a 5.ª etapa (chegada a Viana) estará mais talhada para os designados “punchers” (homens rápidos, mas que conseguem também aguentar certas subidas), ou seja, alguém que seja capaz de, em 3 kms, subir ao miradouro de St.ª Luzia e bater os restantes em velocidade. A principal caraterística do vencedor também terá de estar relacionada com o facto de ser “explosivo” (um pouco como o que o Purito Rodriguez fez no Mur de Huy na Volta à França deste ano). A 6.ª etapa terminará em Oliveira de Azeméis e poderemos vir a ter a maior hipótese de uma fuga vingar (antes da etapa da Torre e depois do desgaste que foi na Sr.ª da Graça, o pelotão quererá recuperar do esforço). Mesmo assim, não é de descartar uma chegada ao sprint.

À 7.ª etapa temos a tão esperada chegada à Torre. Poderá decidir-se a Volta no fim desta jornada. A subida pelo lado da Covilhã é a segunda mais dura em Portugal (são cerca de 20 kms de subida contínua). Nesta etapa poderemos ter duas hipóteses em termos de vencedor: ou alguém que perdeu tempo na Sr.ª da Graça e não é perigoso para os favoritos ou então um dos principais candidatos irá mesmo vencer na Torre. É, portanto, um dia para marcar a diferença. Na 8.ª etapa, com chegada a Castelo Branco, teremos uma situação de corrida atípica. Metade será feita a descer e a outra metade numa espécie de “rompe pernas”. Dificilmente quem esteve mal na Torre conseguirá recuperar nesta etapa. Portanto, ou uma fuga irá vingar ou voltaremos a ter um sprint compacto.

Por fim, as duas últimas etapas desta Volta a Portugal: na penúltima etapa teremos um CR individual com cerca de 35 kms (situado em Leiria). Será difícil recuperar as diferenças que se fizeram na etapa da Torre, mas não é impossível. Irá ser uma etapa muito boa para os puros contrarrelogistas. É, também, nesta etapa que os espanhóis costumam fazer as maiores diferenças para os portugueses. Veremos se acontecerá o mesmo este ano… Chegada a última etapa da Volta, é altura de consagrar os vencedores e esperar que tenha sido uma Volta a Portugal com motivos para se elogiar das mais variadas formas e em relação aos diversos acontecimentos. Espera-se, como de costume, um sprint na chegada à Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Em relação aos favoritos, há que destacar novamente a “luta” entre portugueses e espanhóis. Apesar de um ou outro ciclista de outra nacionalidade que se poderá intrometer, dificilmente não voltaremos a ter a disputa pela camisola amarela entre os nossos portugueses e “nuestros hermanos”. O pelotão conta apenas com uma equipa ProContinental, a também espanhola Caja Rural. A qualidade das equipas presentes não é muita, mas as equipas portuguesas (não só, mas principalmente estas) tudo farão para dignificar esta Volta a Portugal (costumam ter uma grande entrega e empenho).

Temos três vencedores da Volta a Portugal presentes neste elenco (dois espanhóis e um português), que certamente serão, novamente, dos principais agitadores desta competição. Refiro-me a Gustavo Veloso (da equipa W52 – Quinta da Lixa), o último vencedor da prova; Alejandro Marque (Efapel), o vencedor de 2013; e Ricardo Mestre (Tavira), campeão em 2011. O português poderá ser o ciclista que mais se aproxima das vantagens que os dois espanhóis têm: são excelentes no CR, são bons na montanha (sabem defender-se da melhor forma) e têm consigo três das equipas mais fortes da prova.

Ricardo Mestre está de regresso à nossa volta e pronto para voltar a lutar pela vitória Fonte: Cyclingfans.net
Ricardo Mestre está de regresso à nossa volta e pronto para voltar a lutar pela vitória
Fonte: Cyclingfans.net

Duas duplas que estarão na luta talvez mais por um lugar no top10/top5 do que pela vitória são: Rui Sousa e Frederico Figueiredo (ambos da Rádio Popular ONDA Boavista) e Hernâni Broco e Amaro Antunes (ambos da LA Alumínios – Antarte). Rui Sousa é já um experiente ciclista e, tal como Cândido Barbosa até se retirar, tem procurado por várias vezes vencer a Volta a Portugal, mas não tem tido, até agora, tal felicidade. No ano passado, fez 2.º na classificação geral, mas este ano o pódio será mais difícil, não só pela maior concorrência, mas também pela idade que já tem (o ano passado provavelmente a “história” era a mesma e acabou por ser o vice-campeão, portanto, ainda assim, não se pode descartar este ciclista dessa luta). Frederico Figueiredo é ainda um jovem ciclista e que este ano já foi, por exemplo, 9.º classificado na Route du Sud (prova ganha por Alberto Contador e onde o 2.º lugar foi para Nairo Quintana). Será um dos mais fortes candidatos a vencer a classificação da juventude, e poderá mesmo ter a liberdade para conseguir uma camisola como a da montanha. Broco e Antunes são ciclistas já com algumas participações na Volta a Portugal, principalmente o primeiro mencionado (alguns top10 na classificação geral final). Amaro Antunes fez top10 o ano passado e os dois provavelmente quererão, desta vez, estar nos 10 melhores (ou até mais) desta Volta.

Outros nomes para discutir a corrida estarão ao cargo de: Alberto Gallego, jovem ciclista da Rádio Popular ONDA Boavista, que teve boas prestações, este ano, em provas como a já mencionada Route du Sud (foi 7.º classificado), a Volta a Madrid, entre outras; Délio Fernandez e Joaquim Carvalho, ambos da W52 – Quinta da Lixa  serão boas alternativas ao seu colega Gustavo Veloso para a classificação geral; Sandro Silva e Hugo Sabido (Louletano – Ray Just Energy); Joni Brandão (Efapel); Evgeny Shalunov (Lokosphink); Byron Guama (Team Equador); Gaetan Bille e Dimitri Claeys (Verandas Willems Cycling Team) e, por fim, Ricardo Vilela (Caja Rural – Seguros RGA).

Em termos de sprints, os ciclistas que mais se destacam são: Manuel Cardoso (Tavira), Filipe Cardoso (Efapel), Samuel Caldeira (W52 – Quinta da Lixa), Marco Zanotti (Parkhotel Valkenburg CT) e, por fim, o vencedor da camisola verde dos pontos da Volta a Portugal 2014, Davide Vigano (Team Idea 2010 ASD).

Está assim tudo pronto para o começo de mais uma Volta a Portugal. Se conseguirem, tentem apoiar os ciclistas na estrada e mostrar que os portugueses também apreciam muito uma modalidade como o ciclismo. É preciso não deixar desvanecer o sentimento que uma corrida como a Volta a Portugal ainda transmite a muitos portugueses por esse país fora. Que comece a festa, que comecem as bicicletas a rolar e que comece a nossa volta, a Grandíssima!

Foto de capa: Facebook da Volta a Portugal

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