cartaaberta

Bruno,

Foi assim que nos dirigimos a ti nos diversos autógrafos pedidos (o mais antigo que encontrámos já data de 2003, do Rali dos Açores), nos tímidos “boa sorte” desejados, e é assim que hoje te falamos. Não nos conheces (seria impossível, com tantas abordagens das mais variadas pessoas, com as mais variadas idades!), mas nós, assim como todos os fãs de rali, conhecemos-te.

Estás, neste momento, a disputar uma das mais duras batalhas da tua carreira: a luta por ser campeão europeu de ralis. Há pouco mais de um ano, o país parou para assistir à tão desejada conquista do Campeonato da Europa de futebol, depois da tragédia grega de 2004. O desporto nacional tem vindo a evoluir num sentido bastante positivo e tu fazes parte dessa evolução. Estás a 23 pontos da liderança do europeu, faltam dois ralis. É difícil? Sim. Afinal, estás a lutar contra o actual bicampeão europeu, Kajetan Kajetanowicz, que está tão empenhado na vitória quanto tu.

E tal como o teu adversário não facilita, também a constante falta de apoios das empresas portuguesas tem sido notória. A dúvida sobre se terás patrocinadores mantém-se a cada inscrição num novo rali, o teu futuro é sempre uma incerteza.

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A 1 de Abril deste ano, ganhaste o Rali dos Açores e colocaste Portugal em mais um primeiro lugar. No entanto, e ao contrário do que seria de esperar, essa vitória não surtiu os efeitos desejados – as marcas mantinham a falta de disponibilidade para apoios. Disseste, no final deste Rali, “ganhámos o nacional, estamos à frente no campeonato da Europa e agora vamos para casa!”. Não foste para casa, mas as condições para continuares têm sido más.

É a Seajets que nos permite sonhar com o título europeu Fonte: ERC
Fonte: ERC

Conseguiste ir às Canárias e manter a liderança do ERC, mas… em vez de ganhares apoios, perdeste um. O sonho parecia próximo do fim. A apenas poucos dias do Rali da Grécia conseguiste confirmar a presença nos dois ralis seguintes, graças a um patrocínio grego. É estranho, sim: eras o líder do europeu e, mesmo assim, só na Grécia conseguiste dinheiro para continuar.

Para nós é estranho reconhecer que se não fosse uma empresa grega, os portugueses não teriam o prazer de te ver brilhar, mas, ao mesmo tempo, deixa-nos felizes que no estrangeiro o teu valor seja reconhecido. Tal como em tantos outros exemplos de talento e profissionalismo portugueses, o estrangeiro, por vezes, dá mais condições e reconhecimento do que o próprio país. Não culpamos as marcas nacionais, mas questionamos o porquê de ser assim. Queremos acreditar que não se trata de falta de apoio e de vontade de te ver vencer, mas sim impossibilidade, medo do risco, incerteza quanto ao retorno.

Estamos a duas semanas da próxima prova do ERC e, enquanto os teus principais rivais treinam para o rali em Itália, a tua luta é outra: a procura de apoios. Sabemos que a situação é totalmente desmotivadora e frustrante para ti e, por isso, é a ti que esta carta se dirige.

A tua dedicação, assim como a do Hugo Magalhães, é inspiradora. A tua força dá-nos a certeza de que a frase “todos os caminhos vão dar a Roma” foi criada para este teu momento. Estaremos deste lado a apoiar-te.

Conta connosco,

Francisca Carvalho e Rodrigo Fernandes

Foto de Capa: Bruno Magalhães

Artigo revisto por: Francisca Carvalho