

A temporada de 2025 da McLaren será recordada como o ano em que a “Fénix de Woking” completou finalmente o seu voo. Dezassete anos depois, o título de pilotos regressou a casa pelas mãos de Lando Norris, acompanhado pelo histórico 10.º Campeonato de Construtores. Foi um ano de supremacia técnica clara, mas também de maturidade estratégica colocada à prova até ao último quilómetro.
A McLaren não se limitou a vencer. Definiu o padrão competitivo da Fórmula 1 moderna. Ainda assim, por detrás dos troféus, ficou a sensação de que a equipa esteve perigosamente perto de comprometer o seu domínio por fidelidade excessiva a uma filosofia de equidade absoluta.
MCL39: do estado de graça à gestão do amanhã
O MCL39 iniciou a temporada num verdadeiro estado de graça. Nas mãos de Lando Norris e Oscar Piastri, o monolugar parecia imbatível. Aliava uma eficiência aerodinâmica avassaladora a uma gestão de pneus que deixava a concorrência sem resposta. Durante largos meses, a McLaren correu numa categoria própria.
A segunda metade do ano contou uma história diferente. Com o título de construtores praticamente assegurado e os olhos já postos no projeto de 2026, o desenvolvimento do MCL39 entrou em modo de contenção. Enquanto Mercedes e Red Bull, já sem Christian Horner, encurtavam distâncias, a McLaren optou por gerir vantagem em vez de a esmagar.
O trabalho técnico manteve-se de alto nível, mas essa decisão estratégica deu aos rivais uma esperança que, num cenário ideal, deveria ter sido anulada bem mais cedo.
Lando Norris e Oscar Piastri: dois talentos, um só problema
2025 confirmou aquilo que muitos já suspeitavam, a McLaren possui a dupla mais equilibrada da grelha. Lando Norris e Oscar Piastri partilham uma leitura técnica quase simétrica, uma abordagem idêntica à gestão de corrida e uma consistência desconcertante volta após volta.
Lando Norris atingiu finalmente o estatuto de campeão, mas Oscar Piastri foi tudo menos figurante. Manteve o britânico sob pressão constante e recusou assumir o papel de segundo piloto. E foi precisamente aqui que surgiu o paradoxo da McLaren.
Ao serem demasiado semelhantes em rendimento, Lando Norris e Oscar Piastri roubaram pontos entre si. Se a equipa tivesse optado por uma hierarquia clara desde cedo, Max Verstappen nunca teria chegado a Abu Dhabi com hipóteses matemáticas. A maior força da McLaren, a sua dupla, foi também o fator que prolongou a incerteza no campeonato.
Para os amantes do desporto, este tipo de equilíbrio interno é raro. É positivo ver duelos diretos, desta vez não entre equipas, mas dentro delas, num cenário que remete para o confronto entre Nico Rosberg e Lewis Hamilton.
“Papaya Rules”: liberdade, romantismo e risco
A filosofia das “Papaya Rules” tornou-se um dos temas centrais da época. A insistência de Andrea Stella numa liberdade total entre pilotos foi coerente com os valores da equipa, mas revelou-se arriscada num campeonato tão apertado.
A ausência de pragmatismo estratégico durante o verão permitiu que Max Verstappen, mesmo com um carro inferior, permanecesse na luta. A McLaren demonstrou alguma imaturidade na gestão do sucesso.
A lição de 2025 é clara: para construir uma dinastia, nem sempre a harmonia interna pode sobrepor-se à frieza competitiva.
Las Vegas: a falha que quase custou tudo
Num ano de execução quase irrepreensível, o Grande Prémio de Las Vegas foi a mancha no currículo. A desqualificação de ambos os carros, fruto de uma infração técnica, foi um choque num projeto assente na precisão absoluta.
Foi o momento de maior tensão da temporada, aquele em que os fantasmas do passado pareceram regressar. Ali, a McLaren percebeu que o título de pilotos poderia escapar por um detalhe administrativo.
Vitória absoluta, dilema intacto
A McLaren fecha 2025 no topo da Fórmula 1. Com Lando Norris campeão e Oscar Piastri a apenas 13 pontos de distância, a equipa confirmou que a reconstrução iniciada em 2023 foi o projeto mais bem-sucedido da década.
O 10.º título de construtores coloca a McLaren num patamar histórico apenas superado pela Ferrari. O colosso de Woking recuperou, finalmente, o seu lugar natural.
O desafio para 2026 será claro: manter a supremacia sem permitir que a liberdade interna se transforme em complacência. Lando Norris é o rei, mas Oscar Piastri é o herdeiro e a McLaren voltou, sem reservas, a ser a dona da Fórmula 1.

