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Mercedes AMG Petronas: A Perfeição Germânica

Luís Manuel Barros · 6 min

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A história do nosso mundo tem uma relação complicada com a Alemanha. Para muitos de nós, eles são os maus da fita das duas Guerras Mundiais do nosso mundo; no meio do século XX cometeram alguns dos mais horrendos crimes contra a humanidade; e dizem os estereótipos, são das pessoas menos bem-humoradas do planeta.

Mas há um lado alemão que é impossível não admirar. Apesar de arrasados por completo na Primeira Guerra Mundial, regressaram, e tornaram-se outra vez uma das potências da Europa; foram para outra guerra, mas mais uma vez perderam. O país ficou dividido em duas partes, e cá estamos no ano de 2019 e eles são novamente a maior potência europeia. Isto é um testamento do foco, cultura e mentalidade alemã que foi trazida em 2010 para a Fórmula 1, que no primeiro ano meteu piada de tão mediana que era, mas agora cansa de tão dominante que é.

Os últimos seis anos de Fórmula 1 a que temos assistido, tem sido sinónimo de apenas uma equipa a levantar o troféu de campeão no final da época, mas esse trabalho teve as origens um pouco antes, antes até de a Mercedes entrar como construtora na Fórmula 1.

Em 2013, tiveram o segundo lugar do campeonato, mas não na beleza…
Fonte: Formula 1

Em 2009, tínhamos acabado de assistir a uma das mais lindas histórias do desporto, quando a Brawn GP, contra todas as probabilidades, venceu o título. Como os motores eram Mercedes, a gigante construtora automóvel alemã, decidiu comprar a equipa, e criar uma equipa de raiz, em vez de ser apenas fornecedora. O projeto parecia ter tudo para resultar. Tinham o nome, tinham a tradição, tinham o Ross Brawn, tinham o Michael Schumacher (acabado de regressar da primeira reforma). Ou seja, tinham tudo para ter sucesso, menos um carro rápido.

A tradição desta equipa na Fórmula 1 era maior do que muitos se lembravam, e não entraram às cegas na competição, tendo quase 20 anos de experiência na construção de motores para outras equipas. Pela primeira vez desde 1955, a equipa entrava na Fórmula 1, e com bolsos fundos para investir. Na altura era Juan Manuel Fangio, agora era Michael Schumacher, mas este não era o piloto que tinha vencido sete campeonatos, não, este era um piloto já envelhecido, e sem velocidade para acompanhar o seu colega de equipa, Nico Rosberg.

Seguiram-se três épocas da equipa a não ser boa o suficiente, com apenas uma vitória em 2012, por Nico Rosberg, e a rondar sempre o quarto e quinto lugar.

Mas em 2013, algo surpreendente aconteceu. Um tal de Lewis Hamilton, que parecia já ter raízes na McLaren, cansou-se da falta de fiabilidade de um carro prateado, e saltou para outro. Na altura, todos lhe chamaram louco, sair de uma das melhores equipas de sempre, para ir para uma que tinha acabado de ficar em quinto lugar no campeonato. Mas qualquer que tenha sido a apresentação de Power Point que mostraram ao britânico, ele aceitou o lugar, e isso, deve ter sido das melhores decisões já feitas por um piloto.

Nesse ano, não conseguiram chegar ao nível da Red Bull, mas ficaram em segundo lugar, uma clara subida de forma comparativamente aos anos anteriores. No ano a seguir, a ordem era mudada, e era criada uma das máquinas mais dominantes já vistas nas pistas.

O único homem a parar Lewis Hamilton desde 2014
Fonte: Formula 1

Em 2014 foram introduzidas as novas regras na Fórmula 1: em vez dos V8 com tecnologia KERS, os novos motores eram V6 Turbo-Híbridos. Estes motores eram autênticas maravilhas tecnológicas, do mais avançado que já tinha sido criado para qualquer veículo, e para ser simpático, digamos que nem todos conseguiram criar a melhor versão desses motores, tirando uma equipa: a Mercedes.

A falta de performance dos anos anteriores pode ser explicada pelos rumores de que a Mercedes começou a preparar-se para os novos motores híbridos a partir de 2010, onde tiveram 4 anos para tentar, e errar, para chegar à nova era como a equipa melhor preparada. Em comparação, a Renault, que fornecia a Red Bull, só começou a desenvolver a sua unidade motriz em 2013, um ano antes das novas regras.

O motor era tão melhor, que era estimado que na altura tivesse cerca de 100 cavalos a mais do que os motores da Renault e da Ferrari. Isto resultou num salto gigante de performance, que também atirou as equipas fornecidas pela Mercedes, a Force India e a Williams para o topo da tabela.

O domínio era tão grande, que se deram ao luxo de durante três anos terem dois pilotos “alfa”, às turras, e muitas vezes a destruírem a corrida um do outro sem usarem ordens de equipa. Um exemplo disto seria a fantástica corrida no Bahrain em 2014, em que Lewis Hamilton e Nico Rosberg batalharam sem quartel durante toda a corrida, com o piloto mais próximo a 24 segundos de distância.

Bottas tentou, mas nunca conseguiu.
Fonte: Formula 1

Nesses anos, Lewis Hamilton venceu dois títulos, em 2014 e 2015, e Nico Rosberg em 2016. O alemão decidiu deixar o desporto e dedicar-se à família (durante 1 ano), e para o seu lugar, chegou o finlandês que estava a surpreender na Williams, Valtteri Bottas.

A chegada de Bottas em 2017 foi, porém, na mesma altura das novas regras, que tornaram os carros mais largos e agressivos, que correspondeu a uma ascensão da Ferrari, como a primeira equipa capaz de competir com o domínio da Mercedes. E desta vez, sem um companheiro de equipa capaz de competir com ele, Lewis Hamilton tinha a batalha pelo título só para ele, com apenas Sebastian Vettel para incomodar.

O que é certo é que até à corrida de Singapura, Vettel estava na frente do campeonato, mas erros do alemão em Singapura e problemas de fiabilidade do Ferrari no Japão e na Malásia, mataram as hipóteses do título.

Chegamos a 2018, e a dose volta a repetir-se: dois carros muito equivalentes, com algumas corridas a serem da Ferrari e outras da Mercedes, mas com Sebastian Vettel e a própria equipa a deitar fora chance atrás de chance de derrotar Lewis Hamilton e a Mercedes, com os erros do piloto, ou as estratégias insanas da equipa. Enquanto isso, a Mercedes continuava sem sucumbir, apesar da pressão ser maior do que alguma vez foi.

Já lá vão 6, venha o 7.
Fonte: Formula 1

Pela primeira vez em vários anos, parecia que a equipa alemã seria destronada, que a Ferrari ia pegar no bom trabalho dos anos anteriores, corrigir os erros, e competir cara a cara com a Mercedes. A versão simples é que estávamos completamente enganados.

A Mercedes fez algo muito estranho em 2019. Geralmente as equipas começam o ano com uma versão básica do carro, que vai sendo melhorada ao longo da época. Mas a Mercedes não é uma equipa normal, eles começaram o ano, com a melhor versão possível do carro deles, sendo que até ao Canadá, este ano parecia uma repetição de 2016, em que a Mercedes ganhou todas as corridas menos duas.

Basicamente, nas oito primeiras corridas, a Mercedes ganhou todas, conseguindo uma dobradinha em seis delas. Nas corridas seguintes, a Ferrari e a Red Bull ainda responderam, particularmente a Ferrari na segunda metade do ano, mas este domínio inicial marcou este ano, e mostrou que em Brackley, por muito que se ganhe, nunca se relaxa.

Que 2021 traga uma nova ordem da tabela…
Fonte: Mercedes AMG Petronas

Por muito que digam que a Mercedes em anos anteriores só venceu porque a Ferrari tropeçava em estratégias e os seus pilotos gostavam de fazer “donuts” em plena corrida, isso não é uma crítica, é um elogio, porque em seis anos, contam-se pelos dedos de uma mão a quantidade de vezes que os mesmos erros aconteceram na Mercedes. O facto de se ser o melhor vai-se sempre ser odiado, e vamos sempre querer mudança, mas isso não significa que se possa tirar o mérito à quase perfeição do trabalho de quem vence consistentemente.

Eu sou uma pessoa que adora desportos competitivos, e acima de tudo, sou uma pessoa esperançosa. No caso da Fórmula 1, digo sempre que no próximo ano será uma equipa diferente a vencer, mas honestamente, acho que 2020 vai cair outra vez no colo da Mercedes e de Lewis Hamilton. Porque não há ninguém melhor, não há um piloto mais completo que Lewis Hamilton, não há uma equipa que funcione tão bem em todas as vertentes como a Mercedes.

Neste momento, não existe, na Fórmula 1, pura e simplesmente, e todo este trabalho genial de perfeição germânica, foi o que resultou nestes 6 anos de hegemonia.

Foto de Capa: Mercedes AMG Petronas

artigo revisto por: Ana Ferreira

Luís Manuel Barros

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