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Onde há competição, é natural que surjam também outros interesses. Se há competição, há eventos, há público, há merchandising, vendas de comida, receitas de bilheteira, apostas, vendas e compras de passes de jogadores e tudo aquilo que, extrapolando um pouco, sabemos existir nos desportos ditos convencionais.
Os desportos electrónicos são, mais do que um exemplo disso, um caso paradigmático. Eventos que enchem estádios em menos de meia hora são caso para arregalar o olho mais céptico. E, quando o fazem uma e outra vez, sucessivamente, o cepticismo torna-se em interesse.
Assim, aos poucos, gradualmente, os clubes – de futebol, de basket, de futebol americano… – foram investigando e, aos poucos, investindo nos esports. Digo “aos poucos” mas, se no ano passado conseguia indicar um a um as perto de três dezenas de clubes envolvidos, hoje em dia tal é-me impossível. A nomes como Paris Saint-Germain, Schalke 04 ou Manchester City, juntaram-se outros como o Ajax, o Wolfsburg, o Santos, o Valencia e outros, muitos outros.
E não, não é só lá fora. Por cá, outros se seguiram ao primeiro passo dado pelo Sporting CP. O Boavista FC, o Feirense, o CF Belenenses e outros têm vindo gradualmente a abrir os olhos para um mercado que é cada vez mais global, cada vez maior. Sinal disso é a divisão de esports criada pela Federação Portuguesa de Futebol, puxando para si a responsabilidade e a competição em torno do jogo FIFA.

Fonte: Dexerto
Convenhamos que, pese embora seja um universo interessante para se explorar, se compreende alguma reticência por parte dos clubes. Afinal, os esports não são um ou outro, são vários. É possível ter-se uma boa equipa de FIFA e ter-se uma péssima equipa de League of Legends e não se ter nenhuma equipa de Counter-Strike ou Overwatch. E, para a visão minimalista dos esports que reina num público ainda pouco formado, isso é difícil de encaixar. Esports não são uma modalidade. É um conjunto delas. Provavelmente o melhor exemplo é com os desportos motorizados.
Há carros, motas, barcos, aviões, camiões… E, dentro de cada um deles, há outras disciplinas ou desportos. Fórmula 1 é diferente de Fórmula Indy ou um Rally. Uma prova de motos de pista é diferente de uma de motocross. A questão é que isso já faz parte da nossa cultura. Vamos conseguindo encaixar, com maior ou menor precisão, as peças do puzzle no sítio devido. E não preciso – e não sou mesmo – de ser grande perito em automobilismo para perceber que um Dakar é diferente de umas 24h de Le Mans. São carros na mesma. Mas o “jogo” em si é diferente.

Fonte: Esports Observer
Ora, num mercado imaturo e sem grandes pressas para se tornar estável – uma vez que o crescimento agrada a todos – isso pode ser também uma barreira a ultrapassar para novas apostas. Como é também um entrave uma aposta num mercado onde, longe de se ser líder, se tem muito – tudo! – para aprender. É uma lição de humildade. E também de muito trabalho, de estudo mas, sobretudo, de visionarismo. Podemos argumentar que é fácil seguir. Não é fácil tomar a iniciativa. Por cá, o Sporting foi pioneiro no salto para os esports.
Fê-lo com algum mediatismo mas com uma inegável falta de resultados e até de impacto numa comunidade competitiva. Começou mal, poderia dizer-se. Sem as equipas inicialmente propostas – fruto daquilo que pareceu uma leitura errada do mercado de então – atravessou um pequeno marasmo com a nota positiva pelo ecletismo e pioneirismo. Falaremos mais tarde especificamente do mercado português, mas aqui importa salientar o assumir do risco e do investimento para uma visão abrangente do mercado do desporto em geral.

Fonte: Dexerto
A aposta nos esports por parte do Sporting ou de outros clubes é uma aposta na marca também. É um sinal claro de atenção ao mercado e às novas tendências e um estender de braços para toda uma nova vaga de futuros adeptos. Num país em que o clube de eleição é geralmente transmitido pelos familiares, este apelo aos videojogos, às paixões que movem a massa de jovens potenciais adeptos, esta proximidade para com os seus gostos e paixões, temperada com bons executantes, bons eventos e bons resultados trará, inegavelmente, bons resultados para os clubes.
Qualquer jovem num seio familiar de cor clubística diferente que venha a seguir o Sporting ou outros clubes porque participam no seu jogo de eleição ou porque está lá o famoso jogador A ou B é uma vitória desse investimento, é um passo face ao crescimento do clube enquanto marca que procura extravasar as fronteiras do local. E isto, naturalmente, aplica-se a todos os clubes e sublinha também a oportunidade que alguns vão deixando passar ao lado. É que o investimento é, comparativamente com outros desportos e modalidades, muito reduzido. E o retorno, em capital emocional e afectivo, em potenciais incrementos do número de adeptos e sócios, esse, é difícil de quantificar, mas claramente positivo.
Foto de Capa: Real Clear Life














