O Sporting de Nuno Dias é, há vários anos, a modalidade que nos tem dado mais alegrias. E mesmo no último ano, em que perdeu o campeonato para o seu maior rival, conseguiu prendar-nos com um título europeu, que há tanto perseguíamos. Ainda assim, vou deixar aqui alguns reparos à actual equipa de futsal do Sporting, tentando que seja encarada como uma crítica construtiva.

Desde meados da época desportiva de 2018/2019, e principalmente após o empate com o Benfica para a Champions League em que passámos pela diferença de golos – porque tivemos sorte nesse empate (as conquistas também têm uma parte de sorte) – que eu dizia começar a ver um Sporting com dificuldades para ter ascendente sobre o rival.

Desde aí, e depois de termos também sofrido uma derrota por 4-1 para o campeonato com o nosso mais directo adversário, até hoje, temos tido muita dificuldade em controlar esses jogos mais exigentes. Aliás, depois deste jogo, em confrontos diretos com os encarnados, tivemos uma vitória por 6-1 quando já estamos a 5 pontos do primeiro lugar e na final tivemos a única vitória da mesma, já no prolongamento e com auto-golo do adversário.

É verdade que estas dificuldades só surgem em jogos complicados contra adversários que apresentam uma qualidade equivalente à nossa, no entanto preocupa que comece a transparecer um ascendente do adversário nesses mesmos confrontos. E esses mesmos embates tornam-se cada vez mais importantes, uma vez que as restantes equipas do campeonato não apresentam capacidade de tirar pontos aos dois candidatos ao título. No ano passado, para além de uma derrota contra a equipa que foi campeã, apenas tivemos um empate contra a Quinta dos Lombos e terminámos a fase regular em segundo.

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O que quero dizer é que o Sporting, a meu ver, tem pecado por contratar demasiados craques. Confuso? Passo a explicar. E com craques quero dizer jogadores que gostam do um-contra-um, correr com a bola ou segurar para definir.

O Sporting tem jogadores como Merlim, Alex, Taynan, que dão prioridade à definição individual, que muitas vezes resulta, mas perde maior percentagem de sucesso contra guarda-redes de qualidade, e equipas que defendem com muita qualidade tanto individual como colectiva. Temos também dois excelentes pivots, mas param muito o jogo, principalmente Rocha que muitas vezes segura a bola dando as costas ao adversário, para poder fletir para dentro e rematar. Depois temos jogadores rápidos como Deo, Pany Varela ou Pauleta que são muito rápidos com bola, mas por vezes desastrados com a mesma, também devido à rapidez do seu jogo.

Ou seja, temos excelentes jogadores, individualmente, que estão a jogar muito menos colectivamente. Temos jogadores rápidos, mas não jogamos rápido. Os nossos jogadores, ao optarem pela finta, ou por segurar a bola, tiram rapidez ao jogo colectivo, dando possibilidade de reposicionamento ao adversário. E é por isso que muitas vezes, nos últimos tempos, temos chegado ao fim com a sensação de que fomos melhores, mas a equipa adversária foi mais efectiva no ataque. Porque também eles têm qualidade (apesar de muitas vezes nos custar admitir por ser aquele adversário) e colocam essa qualidade em prol do jogo rápido e coletivo.

Devo dizer que tinha este texto preparado antes dos jogos da taça da liga, e não vou mudar uma virgula ao que escrevi. Porque efectivamente, mais uma vez, o adversário nos criou dificuldades, e mais uma vez, apesar de ficarmos com a sensação de sermos superiores no jogo, eles parecem mais competitivos, mais colectivos, com jogadas rápidas, trocas rápidas.

Fiquei com a sensação, não sei se correcta porque não consegui rever todos os golos dos nossos jogos do fim de semana, que a maioria dos nossos surgiram de bolas paradas, o que também vai de encontro ao que dizia antes. O nosso jogo está a tornar-se previsível pelos lances de Merlim ou Alex, pelas paradas, flexões para dentro e remate de rocha, pelo lance rápido junto a linha de Deo ou Pany. Estamos com menos jogo coletivo, e, por isso, mais previsíveis.

Adoro as jogadas do Merlim, gosto dos golos do Rocha, do Cardinal, do Cavinato. Acho que temos mesmo muita qualidade, mas com jogo muito menos colectivo.

E antes de terminar deixo uma afirmação que talvez não seja compreendida, ou bem aceite, mas sabem quem fazia falta? Mais que Dieguinho ou Fortino? Cary (ou outro com as suas características).

A equipa do Sporting tem sentido dificuldades nos jogos contra os eternos rivais
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Digo isto porque Cary é um jogador rápido, sabe defender, sabe atacar, joga rápido colectivamente, não segura a bola, define bem. É um dos que trabalha para que outros brilhem. Estamos a precisar de mais jogadores menos exuberantes e que joguem para a equipa e em equipa. Ele raramente perdia bolas em zonas de perigo, o que acontece com Erick e Leo por exemplo.

A menos conseguida Champions desta época também pode ser um reflexo disso mesmo. E no último jogo dessa competição levámos um banho de uma equipa que não tinha as individualidades que nós temos.

Com este texto não quero criticar a equipa, os jogadores, ou os treinadores. Os jogadores são o que são. Se os obrigamos a jogar de outra forma talvez se tornem jogadores vulgares. Assim, acho importante fazer um upgrade a esta equipa com um ou dois jogadores mais colectivos.

Não vejam este texto como uma crítica a uma equipa que já nos deu tanto. Vejam como um alerta de um adepto que pensa ser essa a mudança a fazer para que continuemos a ser a melhor equipa da Europa. Se a mudança puder acontecer com os jogadores que temos, ótimo, porque temos jogadores de grande qualidade.

Antes de terminar quero também deixar mais um pormenor relativamente ao adversário que tem lutado pelo título com o Sporting. Parabéns pelo autocontrolo dos jogadores. Nunca fazem a sexta falta. Quase sempre chegam à quinta, mas nunca metem a sexta. Alias, não é só no futsal. Quem não se lembrará de um jogador que andou com 4 amarelos desde a quinta ou sexta jornada da primeira liga de futebol, e conseguiu estar toda a restante época se ver um único cartão? É obra.

Quanto ao que nos resta para esta época. Temos taça de Portugal e Campeonato para conquistar. Juntando esses à supertaça, será novamente um ano inesquecível para o FUTSAL do SPORTING. Mas temos de melhorar um pouco, e, para isso, temos um excelente treinador capaz de o fazer.

Foto de Capa: Carlos Silva/Bola na Rede

Artigo revisto por Joana Mendes

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