Perante um pavilhão do Mealhada quase cheio, com cerca de 1500 espetadores, Portugal e Espanha competiam pelo título de campeão europeu de hóquei em patins feminino de 2018. Numa partida que a seleção portuguesa tinha obrigatoriamente de vencer para conquistar a competição, a menos de três minutos do fim, quando a Espanha vencia por 3-2, o furação Leslie decidiu fazer uma aparição e estragar os últimos momentos de uma final que prometiam ser emocionantes. Jogo suspenso, tudo por decidir e todas as seleções e dirigentes de regresso a casa. Após domingo não ter sido proveitoso, em termos de alguma resolução para o problema, parece começar a existir alguma luz ao fundo do túnel. No entanto, antes de todo o aparato, refresque a memoria acerca do que se jogou.

A Espanha entrou bem e logo nos primeiros instantes da partida, fez uso da sua maior velocidade para criar muito perigo junto da baliza portuguesa. No entanto, foi a equipa quem mais perto ficou de inaugurar o marcador. Contudo, Laura Vicente contou, inicialmente, com a ajuda do poste esquerdo e pouco depois, realizou uma bela parada com a luva esquerda. A resposta lusa prosseguia e volvidos alguns instantes, Ana Catarina Ferreira enrolou o esférico ao ferro. No seguimento do lance, Sara González acabou por fazer falta para cartão azul sobre Marlene Sousa. Com uma excelente chance para abrir o ativo, a própria Marlene Sousa acabou por permitir a defesa da guarda-redes espanhola.

Em situação de porwerplay, a seleção portuguesa não deixou escapar a oportunidade e Marlene Sousa, a passe de Ana Catarina Ferra, fez o 1-0.

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A perder, a Espanha, seleção tetracampeã da europa, foi à procura de restabelecer a igualdade, tentando baralhar as jogadoras lusas, que tentavam defender de qualquer maneira, com várias trocas posicionais. Quando a bola passava, Maria Celeste Viera dava conta do recado.

Já com menos de dez minutos para a pausa, a Espanha beneficiou de uma grande penalidade, em virtude de uma infração de Inês Vieira. Natasha Lee, chamada à marcação, acabou por stickar ao lado.

Com o passar dos minutos o domínio espanhol foi-se acentuando, remetendo Portugal a defender e a procurar sair rápido para os contra-ataques. Situação que “obrigava” Maria Celeste Vieira a brilhar.

A cerca de quatro minutos para o intervalo, Marta González arrancou para uma iniciativa individual e com uma stickada à meia volta, perto da entrada da área portuguesa, restabeleceu a igualdade. Pouco depois, Portugal dispôs de uma situação de contra-ataque de três para dois, mas Laura Vicente, com uma grande intervenção, impediu o golo de Sofia Moncóvio.

Terminada a primeira metade, o marcador indicava um empate a 1-1 entre Portugal e Espanha. Resultado injusto pela quantidade de oportunidades de golo que a “La Roja” tinha conseguido construir, mas justificada pela enorme exibição de Maria Celeste Vieira. A seleção portuguesa, apesar de grande parte do tempo ter sido empurrada para junto da sua baliza, ainda conseguiu ter alguns minutos de bom hóquei e causar vários calafrios à defensiva de “nuestras hermanas”.

Marlene Sousa fez o primeiro golo da final e terminou o europeu como a melhor marcadora
Fonte: Catarina Maria

Logo nos primeiros momentos do segundo tempo aconteceu o inevitável. Segundos depois de mais uma excelente defesa de Maria Celeste Vieira, Berta Busquets, no interior da área lusa, encostou para o 2-1. A reviravolta estava, finalmente, completa. Para piorar, ainda mais, a situação, passado pouco tempo surgiu a 10ª falta de Portugal. Maria Diez foi a jogadora escolhida para a marcação do livre-direto, mas não conseguiu bater a guardiã portuguesa.

Em desvantagem, Portugal tentava contrariar o domínio espanhol. Algo nada fácil de conseguir e que condicionava imenso a capacidade de construir chances de golo que, por muitas vezes, tiveram de ser “substituídas~2 por stickadas de meia distância. Assim, não é de estranhar que, por volta da marca dos trinta e sete minutos, Renata Balonas, precisamente de meia distância, tenha feito o 2-2. No entanto, apesar de anulada a diferença, o empate não chegava para seleção portuguesa vencer o europeu, pois, o goal average era favorável à Espanha.

O golo equilibrou o jogo, fazendo com que Portugal conseguisse ter mais bola e capacidade para construir jogadas de finalização. No entanto, com a partida mais aberta, a Espanha acabou por beneficiar de um erro na defensiva portuguesa e chegar ao 3-2, por intermédio de Sara González.

Novamente em vantagem, a “La Roja” conseguiu subir as suas linhas e recuperar algum do domínio perdido. Todavia, Portugal, a perder e a jogar em casa, não atirou a toalha ao chão e procurava chegar o mais rápido possível à baliza espanhola, marcar e ficar a um tento do título.

A GNR foi rápida a reagir, tendo abrigado o público e intervenientes em locais seguros do pavilhão
Fonte: WSEurope Rink Hockey

A menos de três minutos do fim, o furação Leslie decidiu fazer uma aparição no jogo de todas as decisões do campeonato europeu de hóquei em patins, tendo provocado uma falha na luz de pista. Falha essa que levou a partida a estar interrompida cerca de trinta minutos.

Por volta das 23h15, foi realizada uma tentativa de retomar a final. Contudo, cerca de um minuto depois ocorreu o pior. Para além de uma falha geral de eletricidade, que cortou a emissão de streaming, algumas partes do tecto do pavilhão da Mealhada cederam e acabaram por cair na pista e causar algum pânico. Felizmente, não houve qualquer ferido e todos os presentes do pavilhão, rapidamente, foram colocados em segurança. Inicialmente, o jogo acabou por ser suspenso e adiado para domingo. Mais tarde, através de um press release enviado aos órgãos de comunicação social, a World Skate Europe Rink Hockey anunciou que a designação do campeão da europa feminino havia sido suspensa e que mais informações seriam dadas no domingo.

Infelizmente, o hóquei em patins ainda não dispõe do mesmo orçamento que o futebol, por exemplo, por isso, na manhã de domingo, soube-se que várias das seleções e dirigentes da WSE-RH já tinham regressado a casa. Uma delas foi, precisamente, a Espanha que, por volta das 11h00 portuguesas, já tinha chegado à Catalunha.

Após o susto, a Espanha chegou a casa bem cedo e sem saber qual seria a decisão da WSE-RH
Fonte: RFEPatinaje

Com o domingo a passar e sem que a WSE-RH tornasse pública qualquer tipo de decisão, começaram a surgir alguns rumores acerca do que poderia vir a ocorrer. Visto não haver nenhum regulamento concreto para a situação, a questão poderia ser abordada, de algum modo, no capítulo 5 do livro das regras do jogo da World Skate, que foi revisto pela última vez no dia 1 de setembro, que fala sobre a “Não comparência ou abandono do jogo”.

No ponto cinco está indicado que, quando existe uma impossibilidade temporária ou permanente do uso do rinque, os árbitros devem aguardar 15 minutos. Se não houver possibilidade de retomar a partida existem, ainda, outras opções. No ponto 5.1 pode ler-se que, se o motivo for de “força maior”, como por exemplo “água no rinque” ou “falha elétrica”, o jogo será disputado noutro rinque. Havendo 90 minutos para que a mudança de local se realize. Pessoalmente, por ter jogado no pavilhão do Mealhada, sei que, pelo menos antigamente, existia um segundo rinque, mas que deve ser usado, sobretudo, para realizar o período de aquecimento. Será que esse rinque, caso existissem condições para tal, não poderia ter sido utilizado como uma solução de recurso?

Não havendo possibilidade de prosseguir com a partida, tal como aconteceu, a dupla de arbitragem composta por Massimiliano Carmazzi e Julien Thibault deveria ter informado as duas seleções que o resto do jogo não se iria disputar, o que não parece ter acontecido. Como é óbvio, esta opção prejudicaria Portugal, mas parecia o mais provável de ocorrer. O que faria com que federação espanhola recebesse as medalhas e respetiva taça de um histórico penta pelo correio e não das mães de um dirigente da World Skate.

Após mais de um dia de espera de qualquer informação oficial, na tarde de segunda-feira, a World Skate Europe Rink Hockey divulgou uma press release com a decisão tomada. Só será atribuído o título de campeão da europa de hóquei em patins feminino de 2018 se for jogado o tempo em falta, um minuto e quarenta e cinco segundos, no pavilhão do Mealhada. Com a decisão conhecida, restava saber quais seriam as posições de ambas as federações. No domingo, Carmelo Paniagua, presidente da Real Federación Española de Patinaje, disse que seria problemático ter que voltar a Portugal para terminar o jogo. Isto, porque seria necessário gastar dinheiro que não estava previsto, saber se as jogadoras estariam disponíveis no dia para qual fosse marcada a partida e adiar encontros da OK Liga, que começa já no próximo fim-de-semana. Contudo, acabou por ser a RFEP a primeira organização a responder à decisão da WSE-RH. Através de um comunicado no seu site oficial, a RFEP afirmava que aceitava a deliberação, pois, está disposta a vencer os títulos dentro de pista. Horas mais tarde, foi a vez da Federação de Patinagem de Portugal responder positivamente à decisão da WSE-RH, reiterando a vontade de jogar o minuto e quarenta e cinco segundos em falta.

Assim, os próximos dias serão decisivos para a atribuição da designação de campeão da europa de 2018, pois, caso a FPP e a RFEP não cheguem a acordo sobre uma data para a realização do tempo de jogo em falta, não haverá nenhum vencedor do europeu disputado na Mealhada.

 

 

Foto de Capa: World Skate Europe RinkHockey