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Na passada semana, com o arranque dos quartos de final da Lliga Catalana, uma prova de pré-época em que participam várias equipas da região da Catalunha, o sistema do vídeo-árbitro estreou-se na modalidade.

A iniciativa de estrear o VAR na modalidade partiu da Federació Catalana de Patinatge e da Televisió de Catalunya que, a partir do seu canal Esports3, transmitiu os últimos sete encontros da competição, que veio a ser vencida pelo Barcelona, após derrotar o CE Lleida na final por 1-0, no prolongamento.

O sistema do VAR foi utilizado nesta prova de uma forma semelhante, em relação ao que acontece na NHL, a mais importante liga de hóquei no gelo a nível mundial. Cada treinador teve a possibilidade de pedir, com o encontro parado, o visionamento das imagens de um determinado lance em cada parte. Caso o pedido correspondesse ao reclamado pelo treinador, a equipa que pediu o visionamento das imagens mantinha o pedido de visualização das imagens. Contudo, caso o visionamento das imagens representasse a opinião inicial dos árbitros, a equipa perdia a possibilidade de pedir de visualização das imagens. A equipa de arbitragem, por sua vez, poderiam recorrer ao sistema de vídeo-arbitragem as vezes que assim entendessem.

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As novidades da transmissão, efectuada pela Esports3, não se ficaram apenas pelo uso do VAR pois, também, foi possível escutar as comunicações realizadas entre os árbitros com todos os intervenientes de cada jogo. Desta maneira, foi possível ouvir as conversas com treinadores e jogadores a explicar o porquê de terem marcado uma determinada falta e o que viram quando era pedida a intervenção do VAR ou quando os próprios decidiam recorrer ao sistema.

Como é óbvio, o VAR não vai terminar com os erros de arbitragem, tal como é possível ver em várias competições de futebol ou na NHL, por exemplo, mas é uma forma de os reduzir.

O primeiro caso em que o VAR foi utilizado, ocorreu na partida entre o Girona CH e o CP VIC, a contar para os quartos-de-final da competição. Em causa, estava a possível marcação de uma grande penalidade. Inicialmente, a dupla de arbitragem assinalou uma falta fora da grande área do Girona. No entanto, a equipa do VIC pediu para serem revistas as imagens desse lance. Apesar do lance ser bastante difícil de analisar, mesmo com o recurso ao vídeo-árbitro, a conversa entre os árbitros enquanto estão a visualizar as imagens é muito esclarecedora. Realmente, o jogador do VIC sofreu uma falta para penalti no interior da área do Girona. Contudo, momentos antes, o mesmo atleta do VIC sofreu uma falta fora da área do Girona. Algo que é mencionado por um dos árbitros e motivo pelo qual não foi alterada a decisão inicial.

Na final da competição, que colocou frente a frente o FC Barcelona e o CE Lleida, o VAR também foi utilizado. Nem um minuto estava jogado e o Lleida fez o 1-0, através de uma stickada de meia distância de Joan Cañellas, que foi desviada por Maxi Oruste em cima da baliza defendida pelo experiente Aitor Egurrola. Os blaugrana pediram de imediato a revisão das imagens, pois, acreditavam que a bola havia superado o limite de altura permitido. Na transmissão da Esports3 é possível ver que os primeiros ângulos de câmara, vistos pela dupla de arbitragem, não foram esclarecedores e apenas um angulo de câmara lateral capturado ao nível da pista, permitiu aos árbitros ver que o esférico realmente tinha superado, o sempre subjetivo, limite de altura permitido.

Aparentemente, a utilização do VAR no hóquei em patins espanhol não se vai manter na OK Liga. Na Supertaça, que começa a disputar-se no próximo sábado, também não há nenhuma informação a indicar que o sistema seria utilizado. Talvez regresse na final-eight da Taça do Rei, quem sabe?

 

No que diz respeito ao contexto português, será que a possível introdução do VAR seria positivo para a modalidade? Supostamente sim, pois, são vários, para não dizer todos, os jogos com casos de arbitragem, que poderiam ser resolvidos através do recurso ao vídeo-árbitro. Todavia, é necessário abordar duas questões fundamentais para que se possa passar a utilizar o VAR, naquele que é considerado o melhor campeonato do mundo de hóquei em patins:

1. Árbitros

Para além das sempre elevadas taxas de arbitragem pagas pelos clubes, será que o atual número de árbitros disponível no quadro da Federação de Patinagem de Portugal seriam os suficientes para implementar o vídeo-árbitro de maneira igual à do futebol? Ou seria melhor copiar o modelo utilizado na Lliga Catalana?

2. Transmissões televisivas

Em Portugal existem, neste momento, para além das transmissões da TVI24, seis equipas que, pelo menos, transmitem os seus jogos em casa, sendo eles o Sporting CP, SL Benfica, FC Porto, Juventude de Viana, SC Tomar e HC Turquel. Destas equipas, apenas os três grandes têm a possibilidade de realizar transmissões profissionais. Assim, na melhor das hipóteses, apenas quatro das sete partidas, que compõem cada jornada do campeonato nacional, teriam capacidade para poder recorrer ao VAR. Seria isto justo?

Portugal, supostamente, tem aquele que muitos, desde dirigentes a “simples” amantes da modalidade, consideram o melhor campeonato do mundo. Porém, é o único dos três campeonatos mais importantes a nível europeu, cujas jornadas do campeonato não são transmitidas na íntegra, seja de que forma for. Em Espanha, para além das transmissões semanais da Esports3 ou da XarxaTV, existe a OK Liga.TV. Serviço premium, que permite que qualquer pessoa veja qualquer jogo em direto de todas as jornadas do principal campeonato espanhol, seja a produção mais ou menos profissional. Em Itália, na passada temporada, todos os jogos de cada jornada da Lega Hockey foram transmitidos através do canal de YouTube do campeonato. A qualidade das transmissões não era a melhor, mas era uma forma de cada um ver o jogo que assim bem entendesse.

O Barcelona de João Rodrigues tornou-se no primeiro clube a vencer uma competição com VAR
Fonte: Kllian Catedrà

Se o sistema de vídeo-arbitragem fosse, por exemplo, uma medida para ser implementada no campeonato de 2019/2020, muita coisa teria de mudar. Para além das transmissões profissionais dos sete jogos de cada jornada (fossem elas realizadas via streaming com o apoio da FPP ou através de acordos com outros canais de televisão, mas sempre em alta definição, de forma a não existir a desculpa da “bola não se conseguir ver”), seriam necessárias melhores condições em alguns pavilhões mas, sobretudo, mais equipamento. Seguindo o exemplo das transmissões da Lliga Catalana, a Esports3 pareceu-me utilizar um total de seis câmaras. A câmara principal, duas câmaras laterais um pouco mais baixas do que a principal, duas câmaras laterais ao nível da pista e duas câmaras de baliza. A isto, junta-se o ecrã onde as duplas de arbitragem fizeram a visualização dos lances. O normal em Portugal, correndo o risco de cometer algum erro, parece-me ser três, sendo que em jogos especiais poderá haver mais uma ou duas câmaras. Para além da necessidade de utilizar mais equipamento, o que faria aumentar o custo de cada transmissão, seria importante saber como seriam feitas as visualizações das imagens. Será que se deveria seguir o modelo usado pela Lliga Catalana, com a utilização de um ecrã colocado no lado contrário ao dos bancos? Ou seria melhor utilizar um tablet que seria solicitado à mesa, tal como ocorre na NHL? Ou seria algo a definir conforme cada pavilhão?

Neste momento, não é possível prever quando o VAR vai ser uma realidade no campeonato português. No entanto, talvez possa vir a realizar algumas “aparições” em jogos específicos de outras competições, como no caso da Supertaça António Livramento ou nas Final-Four da Taça de Portugal, WS Europe Cup, Liga Europeia (Masculina e Feminina). Ainda assim, acredito que talvez possamos vir a ser surpreendidos em breve. Tão breve como nos dias 28, 29 e 30 de setembro, período no qual se vai disputar a Elite Cup. A prova mais importante da pré-temporada em território luso. Esta competição tem sido pioneira, através da estreia de algumas novidades que, mais tarde, vieram a passar a ser uma realidade na modalidade. Tais como, o placar eletrônico do tempo de ataque ou, os tão criticados, descontos de tempo de trinta segundos. No sorteio da terceira edição da Elite Cup, foi confirmada a transmissão de dois jogos, sendo uma das partidas referente a uma das meias-finais e a outra à final. Será que a Elite Cup, competição organizada pela ANACP (Associação Nacional de Clubes de Patinagem), poderá voltar a ser pioneira e, em conjunto com a TVI24, fazer a estreia do VAR no hóquei em patins português?

 

 

Foto de Capa: Kllian Catedrà

 

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