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O título do artigo bem podia ser o nome do relatório da Human Rights Watch (HRW), mas a ONG que zela pelos direitos humanos foi mais longe e intitulou-o de “I Was Hit So Many Times I Can’t Count”. O nome advém de um dos muitos testemunhos de atletas ou jovens atletas japoneses (alguns já não tão jovens, atualmente) que foram abusados física ou psicologicamente pelos próprios treinadores. Muitos deles só agora conseguiram descrever os horrores que atravessaram ao longo de vários anos.
Em condições normais, estaríamos já com 13 dias de competição nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, mas já sabemos que estes foram adiados por um ano devido à pandemia de COVID-19. Por isso, a HRW decidiu “mostrar ao Mundo” que o país que irá acolher a olimpíada – e, consequentemente, a chama olímpica e os valores olímpicos – não se preocupa assim tanto com um problema enraizado na sua sociedade.
Através de um questionário on-line e de entrevistas presenciais, a HRW descobriu «425 atletas e antigos jovens atletas que reportaram experiências diretas de abuso físico enquanto praticavam Desporto». São números chocantes e os relatos que estão no relatório demonstram bem a gravidade do assunto. Num país como o Japão – considerado uma das potências mundiais não só a nível económico, mas de desenvolvimento humano – estes dados mancham a imagem que os nipónicos têm a nível mundial.
Child athletes in Japan suffer physical, sexual, and verbal abuse when training for sport.
New report documents depression, suicides, physical disabilities, and lifelong trauma resulting from such abuses.
Daily Brief: https://t.co/kG3m9CpwCq pic.twitter.com/mLLu3x1zTp
— Human Rights Watch (@hrw) July 20, 2020
UM PROBLEMA ESTRUTURAL DO PERÍODO PÓS-SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Em muitas obras cinematográficas, os cidadãos japoneses são representados como tendo caraterísticas violentas no modo de educar. Até mesmo no Desporto, a educação e a formação dos atletas acaba por ser “infetada” por essa violência. Aliás, especialistas, segundo o relatório da HRW, concordam que os constantes casos de abuso físico no Desporto japonês não são recentes e estes casos estão intimamente ligados com o militarismo que esteve presente na educação no pós-Segunda Guerra Mundial.
Com o passar dos anos, e por ser algo tão radicado na sociedade japonesa, esta cultura de violência no Desporto foi sendo (e continua a ser) vista como “normal”, como muitos alunos universitários o descreveram num estudo de 2013.
«Um atleta disse, “Eu acho que [taibatsu] está bem desde que torne o atleta e/ou a equipa mais forte”» (Human Rights Watch, 2020)
Taibatsu é a palavra japonesa que designa uma punição corporal e foram muitos os atletas que experienciaram este tipo de punições durante os largos anos que praticavam uma modalidade no Japão. Alguns ganharam voz, através deste relatório, mas outros podem estar a sofrer em silêncio – algo que por si só já deveria ser assustador.
Os taibatsu levaram a consequências graves nas vidas destes jovens atletas e o número de casos de suicídios tem vindo a aumentar em diversas prefeituras japonesas. Deste modo, o governo japonês não podia (nem devia) ficar a observar que estes diversos casos se fossem acumulando e acumulando, formando uma “pilha” insustentável. Por isso, tomaram-se medidas.
De 2011 a 2019, foram feitas seis reformas importantes no Japão para conseguir atenuar – ou até mesmo eliminar – os casos de abuso a jovens atletas. Porém, mostraram-se ineficazes, visto que ainda surgem inúmeros casos de abuso físico aos atletas e muitos deles acabam numa drástica morte.
Abusos como este, que foi filmado no ano de 2013, continuam a ser frequentes no Japão
Uma das reformas foi a The Basic Act on Sport, documento que define os objetivos e os princípios do Desporto japonês, e em nenhum ponto é explícito que se pretenda terminar com o abuso físico aos atletas. Para mais, não define também uma autoridade clara para impor consequências às pessoas que abusam, ou seja, no Japão há um sistema fragmentado na tomada de decisão destes casos a nível nacional, local e também de cada federação.
Apesar das reformas que se têm vindo a aplicar, nenhuma realmente abrange o abuso aos atletas e aos jovens atletas. Para piorar a situação, são as federações dos mais diversos desportos do Japão que têm de prevenir, reportar, investigar e punir este tipo de crimes. Segundo o relatório, isto é uma falha, pois são organizações separadas que não têm uma estrutura coesa para conseguir tratar destes crimes. São estas falhas que levam a que os jovens atletas estejam permanentemente vulneráveis.
Em 2018, um treinador de basebol abusou fisicamente os seus jogadores na prefeitura de Aichi
Há atletas que não conseguem encontrar forma de denunciar este tipo de abusos, pois há organizações que nem sequer têm contactos para que se possa fazer uma denúncia. E mesmo que houvesse uma grande estrutura, muitos defendem que esta forma de denúncia não seria usual, porque os atletas teriam receio de o fazer.
NO JAPÃO E NO MUNDO: OS CASOS QUE MANCHAM O DESPORTO
Há quem defenda que o número de casos tenha vindo a baixar no Japão. Como? Por um lado, os treinadores percebem que os tempos mudaram e não devem abusar fisicamente os atletas por risco de os mesmos, num ambiente melhor do que outrora, conseguirem facilmente falar com os pais sobre o caso. Por outro, os novos media permitiram que se divulgue (e denuncie) de forma mais fácil e rápida estes abusos, ou seja, como se de uma prova se tratasse.
Apesar das visões otimistas, não é de todo verdade que esteja eliminado este “fungo”. Não foi eliminado no Japão, nem no Mundo…
Em 2013, Ryuji Sonoda demitiu-se depois de ter sido acusado de abusar fisicamente atletas da equipa olímpica de Judo em 2012. O treinador batia nos judocas com um pau de bambu e obrigava os mesmos a competir lesionados. Em 2016, Maggie Nichols, com o seu testemunho, denunciou os abusos de Larry Nassar, médico da equipa olímpica feminina de Ginástica dos Estados Unidos, sendo mais tarde descoberto que várias atletas tinham sido abusadas.
Em menos de 18 meses de diferença, os presidentes das federações de Futebol do Afeganistão e do Haiti foram acusados de abuso sexual de atletas das seleções femininas. Em 2020, Choi Suk-hyeon, triatleta sul coreana, suicidou-se, após ter denunciado que tinha sido abusada física e psicologicamente pelo treinador e pelo médico da sua equipa às entidades desportivas e políticas.
After Choi Suk-hyeon, a South Korean triathlete, killed herself, her family released a diary and secret recordings that depict the physical and psychological abuse she appeared to suffer at the hands of her team’s doctor and coach https://t.co/8RcdJubU9x
— The New York Times (@nytimes) July 10, 2020
Fez, e faz-me, confusão ver que poucos órgãos de comunicação em Portugal deram importância a este relatório. São casos sérios aqueles que se estão a apresentar e já se sabe que nunca acontece só com os outros. Pode acontecer em qualquer momento com qualquer país, com qualquer atleta, com qualquer um. Há que estar alerta para aquilo que se passa no Mundo.
O presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, proferiu uma frase muito interessante a faltar apenas um ano para o início dos Jogos: «Estes Jogos Olímpicos, Tóquio 2020, em 2021 podem, devem ser e serão a luz ao fundo do túnel em que se encontra a toda a humanidade neste momento». Senhor Thomas Bach, os Jogos Olímpicos não devem ser “luz ao fundo do túnel” só para ultrapassar a difícil crise de COVID-19 que o Mundo atravessa. O país onde se organizará a próxima olimpíada encontra-se com estruturas obsoletas e com os seus atletas vulneráveis e o que dizer dos restantes? Só de perguntar já se tem uma noção de quão grave é o assunto…
United by our differences, we have the strength to achieve the incredible.#StrongerTogether #1YearToGo until @Tokyo2020.
— Olympics (@Olympics) July 23, 2020
Por isso, esperamos que estes Jogos Olímpicos sejam impulsionadores para que o COI seja crítico e “pressionante” dos mais diversos Comité Olímpicos espalhados pelo Mundo – e quem sabe dos próprios governos. Não se deixe passar estas lacunas. Proteja-se TODOS os atletas sejam eles olímpicos ou amadores. Haja noção do perigo que esta situação acarreta. Tal como o relatório da HRW diz logo no início: «A participação no Desporto deve proporcionar às crianças alegria de jogar e uma oportunidade para desenvolver e crescer a nível mental e psicológico»… Deveria ser esta a premissa no Desporto e é desta forma que se forma campeões.
Foto de Capa: António Correia/Bola na Rede








