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Lost in Translation (ou nem tanto)

José Baptista · 3 min

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Depois de uma longa sessão pública no Tribunal Arbitral do Desporto (CAS), o caso Sun Yang conheceu recentemente um novo atraso. Tal como foi perceptível para quem assistiu à audiência pública no CAS (que foi também transmitida online) a tradução simultânea entre inglês e mandarim do testemunho do atleta foi de qualidade sofrível, pelo que as partes terão que chegar a um acordo sobre uma tradução escrita correta para constar do processo sobre o qual os três árbitros se debruçarão.

A meio da sessão, o sistema de tradução foi alterado, o que permitiu que esta fosse bastante melhor, mas, ainda assim, esse foi um claro impedimento a que a sessão corresse de forma mais célere e fluída. Por muito boa que seja a tradução, há sempre alguns detalhes que se perdem e este é um problema grave quando um tribunal se debruça sobre um caso com tanta importância à escala mundial.

Se uma parte do conteúdo da audiência acabou por se perder na tradução, houve outras que escaparam a esse destino e puseram a nu alguns problemas graves do sistema anti-doping. Se a discussão jurídica se baseou em relevantes, mas talvez menos interessantes, tecnicidades, os testemunhos ligados à IDTM serviram para dar uma imagem assustadora do procedimento a que os atletas são sujeitos.

O testemunho de Sun Yang foi marcado pelos erros na tradução do mesmo
Fonte: CAS

Ora, apesar de haver vários órgãos internacionais e nacionais responsáveis por coordenar o testar dos atletas, uma grande parte das recolhas de sangue e urina é feita por prestadores de serviços privados, tendo sido a IDTM, o prestador de serviços no dia em que Sun Yang acabou a destruir a sua amostra, um dos maiores erros cometidos. Para se perceber esta dimensão, diga-se que a IDTM foi responsável por cerca de um terço das recolhas a que Sun Yang foi sujeito durante a carreira.

Perante este cenário, seria de esperar que um dos maiores prestadores deste serviço a nível mundial e que trabalha tão proximamente com a Agência Mundial Anti-Doping (WADA) revelasse procedimentos inatacáveis e regidos pelos padrões mais elevados. Assim não aconteceu.

Na realidade, os responsáveis pela IDTM ouvidos no CAS demonstram um despudor total em admitir que os padrões recomendados não são seguidos (“guidelines are not mandatory”), que apenas um dos membros da equipa tem um cartão de identificação próprio da IDTM e evidenciar um procedimento de contratação de assistentes de controlo (DCAs) sem qualquer credibilidade (e que vai de encontro à informação surgida na imprensa oriental de que o DCA do controlo em questão era um trabalhador de construção civil sem formação específica para assistir naquele serviço).

Quem ouviu o testemunho dos dois responsáveis da IDTM ficou a perguntar-se como era possível tamanha incompetência no tratamento de algo tão sensível para os atletas e tão importante para a credibilidade do desporto. Independentemente das questões mais legalistas, o sistema sai publicamente muito mal-tratado deste caso.

A postura da WADA, que foi quem recorreu para o CAS, resultou numa triste figura, em que se refugiou numa tecnicalidade para tentar punir o atleta e evitar admitir a fala de ética e profissionalismo com que um dos seus proxys se comporta, talvez sabendo que este caso pode abrir uma caixa de Pandora, com os atletas e suas equipas a serem mais estritos no obrigar do cumprimento de certas obrigações que, claramente, estão em falta.

Já a Federação Internacional de Natação (FINA) mantém a posição que tem no procedimento inicial de que, apesar da atitude do atleta não ter sido totalmente correta, é desculpável pela incapacidade dos agentes da IDTM terem sido incapazes de produzir identificação que lhes desse autorização para proceder ao teste, parecendo querer tentar seguir em frente e esquecer aquilo que percebe bem ter sido um fiasco organizacional.

No final de contas, a carreira de Sun Yang está nas mãos dos três árbitros do CAS, mas, seja qual for a decisão destes, o caso já para serviu para trazer à luz do dia a forma como há ainda tanto a melhorar de forma a que o processo anti-doping seja rigoroso, justo e respeitoso para com os atletas.

Foto de Capa: FINA

artigo revisto por: Ana Ferreira

José Baptista

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