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Tom Brady, o homem que venceu o tempo

Existem palavras que temos de pesar, temos de medir e temos de alguma forma tentar encadear da melhor maneira possível para tentar exprimir uma sensação. É aquilo que sinto quando penso nas palavras que se vão seguir a descrever a carreira de Tom Brady.

COMECEMOS PELO “ACONTECIMENTO”

Na cidade que nunca dorme, no dia 23 de Setembro de 2001, os New York Jets recebiam os New England Patriots para mais um jogo de Futebol Americano da National Football League (NFL). Este jogo decorria alguns dias após um dos eventos mais negros da história dos Estados Unidos, o 11 de Setembro. Um jogo que tinha uma forte carga emocional para todo o povo americano e um jogo que acabaria por mudar o rumo de uma equipa, o percurso de muitos atletas e a vida de um deles em particular.

Com o jogo já para lá do intervalo, os Jets venciam e os Patriots, liderados pelo experiente Drew Bledsoe, tentavam inverter o resultado. Numa jogada de corrida pelo lado direito do relvado, em apenas um segundo, duas carreiras ficariam sentenciadas e contra o destino nada havia a fazer. Drew Bledsoe acabaria placado por Mo Lewis e teria que sair de campo com uma lesão que se veio a revelar grave o suficiente para o afastar durante algumas semanas. Tom Brady, entraria em campo para assumir a liderança de uma equipa e para nunca mais a largar durante os vinte anos seguintes.

A realidade é que o resultado final desse jogo não se inverteu e a equipa de New England acabaria por perder a partida. Mas a NFL nunca mais seria a mesma. Na semana seguinte, Tom Brady venceu o seu primeiro jogo como titular e logo contra o seu “arqui rival“, Peyton Manning. Nesse mesmo ano levaria a sua equipa a vencer o primeiro Super Bowl da sua história. E durante as duas décadas que se seguiram venceu mais cinco troféus, inúmeros prémios e colecionou imensos recordes, pessoais e colectivos.

CHEGAMOS AO “CONTACTO”

Quando tive o meu primeiro encontro com Tom Brady, estávamos na temporada de 2007, talvez a sua temporada mais próxima da perfeição, ou excelência se quisermos viver nas palavras de Vince Lombardi.

Podemos dizer que a sua carreira entrava no segundo quarto, quando, no Super Bowl XLII, teve um encontro imediato com Eli Manning e os New York Giants. O jogo ficou para a história do desporto profissional como uma das maiores surpresas na história de qualquer Super Bowl, os Giants quebrariam uma sequência de 18 jogos a vencer na temporada e impediriam os Patriots de vencerem mais um Super Bowl. No entanto, para Tom Brady tudo isso apenas lhe deu ainda mais alento para continuar a construir uma carreira de sucesso, pautada por uma confiança inabalável e uma capacidade de fazer o impossível tornar-se possível.

Não vou estar com invenções, não fiquei automaticamente adepto de Tom Brady. Cometi o erro que muitos cometeram antes de mim, não reparei que a chama que ardia dentro dele era maior do que qualquer tipo de fogo que pudesse estar a decorrer em redor de si. Acredito que quando foi a escolha 199.ª do draft de 2000 apenas ele tivesse noção da intensidade dessa chama e a dimensão que podia vir a ter.

QUERO-VOS FALAR DO “MOMENTO”

O momento em que percebi que ele era diferente e que muito provavelmente nunca iremos ver novamente alguém igual, na mesma conta, peso e medida.

Estávamos em 2017, no dia 5 de Fevereiro, quando os Patriots defrontavam os Falcons no Super Bowl LI. Um jogo que foi bastante antecipado, uma história crescente e que se cruzou com a equipa de Atlanta a ter na sua organização vários membros da linhagem de New England.

Com o jogo a caminhar para o final, os Falcons lideravam por 28-3 e tudo parecia encaminhado para uma das derrotas mais embaraçosas da história dos Patriots, na carreira de Bill Belichick e Tom Brady. No entanto, Brady decidiu viver sobre as palavras de Nelson Mandela “um vencedor é um sonhador que nunca desiste”.

Sem desistir, Brady aplicou-se num esforço hercúleo, que ultrapassa qualquer tipo de entendimento humano, qualquer tipo de definição histórica e deu-nos um dos jogos e desfechos mais incríveis da história deste desporto. Os Patriots acabariam por vencer o Super Bowl LI e a performance de Brady ecoaria para a história.

CHEGAMOS PARA A “DESPEDIDA”

Sabemos que todas as histórias terminam, nem sempre sabemos quando será o capítulo final, nem sempre conseguimos sentir antecipadamente o momento a chegar, mas neste caso já havia um perfume no ar. No dia 24 de Janeiro de 2022,  jogo de playoffs entre os Tampa Bay Buccaneers e os Los Angeles Rams, seria a última performance na arena por Tom Brady.

Depois de duas décadas de muito sucesso em New England, o capítulo na Florida acabaria por ser curto, mas repleto de boas memórias, de mais um troféu Lombardi, o Super Bowl que o tornaria o jogador mais titulado deste desporto, inclusive mais titulado que qualquer outra equipa na história da competição.

Na despedida, a derrota foi o fechar de ciclo, terminou tal como começou, com um sabor amargo, mas com a consequência absoluta de que essa derrota apenas chegou porque o tempo terminou. Porque não havia mais forma de o iludir. A realidade é que enquanto houvesse segundos num relógio, a crença de que Tom Brady poderia fazer algo acontecer, é uma crença que ultrapassa qualquer fronteira de interpretação. É algo que irá ficar com quem viveu esta era, com quem vibrou com cada momento e que viu um homem virar uma lenda.

Foi o homem que desafiou o tempo, o homem que superou qualquer expectativa, o homem que criou um legado que o irá ultrapassar, uma lenda que o irá acompanhar e, independentemente da circunstância que tenhamos ouvido o nome de Brady, devemos sorrir porque aconteceu e aproveitar porque dificilmente iremos voltar a ver alguém assim.

Foto de Capa: Tampa Bay Buccaneers

Artigo revisto por Joana Mendes

O André é treinador e especialista de NFL. Atualmente, é comentador na ELEVEN e escreve crónicas sobre a modalidade para o Bola na Rede.

O André é treinador e especialista de NFL. Atualmente, é comentador na ELEVEN e escreve crónicas sobre a modalidade para o Bola na Rede.

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