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O Campeonato do Mundo de Snooker chegou tarde e acabou, como sempre, cedo de mais para todos os fãs da modalidade, que esperaram até 31 de julho pela prova maior do Snooker mundial, quando não era suposto aguardar para lá de abril. O Covid-19 fez tudo o que podia para estragar os planos e muito mudou, de facto. Mudou o início, o meio, mas não o final, ou melhor, a final: as bolas rolaram mesmo num Crucible Theatre com público e consagrámos mesmo um campeão.
E, como há coisas que não mudam dê lá por onde der, Ronnie O’Sullivan venceu o Mundial pela sexta vez na sua carreira! Alcançou desta forma o patamar de Sir Steve Davis e Ray Reardon, e Stephen Hendry já sente o respirar do “Rocket” que está agora a uma conquista na mais importante prova da modalidade de se juntar ao escocês que venceu sete Mundiais na sua carreira (todos conquistados na década de 90), o patamar máximo se contabilizarmos apenas os títulos da chamada Era Moderna, com início em 1977.
Além do escrito, o jogador inglês alcançou o seu 37.º título de ranking. Com este registo, deixa para trás… Hendry, claro está, que continua e continuará (a não ser que o obriguem a voltar a trabalhar) com 36. Ganha pontos O´Sullivan na sempre acesa e infindável discussão sobre quem é o melhor da história (pelo menos da história moderna, cujo início pode ser traçado em 1977, quando o Crucible se tornou a casa única dos Campeonatos do Mundo).
Com seis Mundiais, sete UK Championship e sete Masters, o “Rocket” é o único jogador da história da modalidade a ter no seu currículo seis Triplas Coroas, o que lhe dá mais alguns pontos na discussão que, repito, é infindável. A vitória de Ronnie significa que Judd Trump não revalidou o título conquistado pela primeira vez no ano passado, o que possibilita a continuação da infame “Maldição do Crucible” (que dita que um jogador não é capaz de vencer o Campeonato do Mundo pela primeira vez e defendê-lo com sucesso no ano seguinte).
Nestes meandros, encontramos Kyren Wilson. O inglês de 28 anos foi quem atirou Trump para fora (que frase tão bonita…) de prova e foi quem foi batido – de forma clara e expressiva – na final, por O´Sullivan. Já lá vamos. Primeiro, vejamos, de forma global, o que foi o Campeonato do Mundo mais estranho de sempre.
Foto de Capa: World Snooker
O CAMINHO PARA A FINAL

Como sempre, os 16 primeiros classificados do ranking mundial esperaram de cadeirinha pelos jogadores vindos das rondas de qualificação, nas quais tivemos algumas eliminações surpreendentes: Ali Carter, Joe Perry, Luca Brecel, Ben Woollaston, entre outros. Postas as qualificações, realizou-se o sorteio (sendo que os 16 primeiros classificados do ranking não se podem defrontar logo na primeira ronda).
Disputou-se a primeira ronda. Quer dizer, quase toda a primeira ronda. Kyren Wilson, que viria a chegar à final, teve passagem direta para os oitavos de final pela desistência, à última hora, de Anthony Hamilton. O inglês de 49 anos, que sofre de asma crónica, temeu que a presença de público aumentasse o risco de contrair coronavírus. Quis o destino – e Boris Johnson – que só houvesse público no primeiro dia (e, viemos a saber, nos dois dias da final).
A decisão de Hamilton causou celeuma junto de alguns fãs, que estranharam o facto do veterano jogador marcar presença nas qualificações e depois ter desistido, acusando Hamilton de ter disputado as rondas de acesso ao Mundial para granjear o dinheiro que competia a quem se apurasse (cerca de 20 mil euros) e para garantir a continuidade no Main Tour (que conseguiu ao qualificar-se para a prova principal).
Caíram cinco cabeças de série – Stephen Maguire, David Gilbert, Mark Allen, Jack Lisowski e Shaun Murphy – na primeira ronda. Uma fase mista de partidas equilibradas e partidas de domínio, o que não aconteceu na ronda seguinte, pautada pelo equilíbrio. Oito jogos, duas negras, três “13-11”, um “13-10” e dois “13-9”. Aqui jazeram quatro cabeças de série.
John Higgins, Stuart Bingham (dois Campeões do Mundo), Ding Junhui e Barry Hawkins fazem sempre falta, mas a sua ausência na terceira ronda não foi impeditiva de bom e emocionante Snooker. Tivemos direito a três partidas entre cabeças de série e a um excelente encontro entre dois outsiders, Anthony McGill e Kurt Maflin.
Negras não houve, mas a qualidade de jogo foi aceitável. Kyren Wilson eliminou Judd Trump (para gáudio dos amantes da Maldição), Mark Selby bateu Neil Robertson, Ronnie O´Sullivan triunfou sobre Mark Williams e Anthony McGill superou Kurt Maflin. Ficou o Campeonato do Mundo, na mesma ronda, órfão do seu campeão em título e número um do Mundo, e do número dois do ranking (Judd Trump e Neil Robertson, respetivamente).
Mal sabíamos nós que falta não fariam. Mal adivinhávamos nós as meias-finais que se avizinhavam. Dois dos melhores encontros que o Crucible já viu nesta fase da prova! Duas meias-finais de alto nível, que culminaram em duas negras disputadíssimas. De resto, em ambas as partidas decisivas tivemos ambos os jogadores a pontuar.
Kyren Wilson superou Anthony McGill, com os seus 103 pontos na negra a suplantarem os 83 do escocês. Partida com muitas faltas provocadas, digna representadora do que é, na sua essência e na sua nomenclatura, o Snooker. Na outra meia-final, não se disputava o acesso inédito à final, como acontecia no duelo entre estes dois jovens jogadores.
Não. Na outra meia-final, estavam em confronto o pentacampeão mundial Ronnie O´Sullivan e o tricampeão mundial Mark Selby. Este último teve o pássaro na mão por mais do que uma vez, mas, sem juntar proveito à fama que tem de Tubarão (Mark “The Shark” é a sua alcunha pela frieza que demonstra quando sente o adversário ferido emocionalmente), deixou-o fugir.
O´Sullivan correu atrás dele, este sim respeitando a sua alcunha de “Foguetão” (dada a sua rapidez a jogar), e ainda o apanhou. Na negra, no entanto. Aí, os 81 pontos de Ronnie foram suficientes para bater Selby, que alcançou 34. Ficou, com muito suor e emoção, decidida a final: Ronnie O´Sullivan vs Kyren Wilson.
A GRANDE FINAL

A ela chegámos. Chegámos ao fim-de-semana mais antecipado do calendário da World Snooker, o fim-de-semana mais agridoce de toda a época desportiva da modalidade: por um lado, não há encontro mais emblemático e que os fãs queiram ver mais; por outro, este fim-de-semana marca o fim do Campeonato do Mundo e dá início à espera pelo seguinte e pela seguinte época. Todavia, neste ano atípico, a próxima época é já ali ao virar da esquina.
Esperava-se um jogo equilibrado. Kyren Wilson mostrou capacidade e maturidade de jogo e psicológica para enfrentar Ronnie olhos nos olhos. Contra as muitas expetativas, não foi capaz de o fazer. Foi sempre menos forte e menos sólido do que o adversário, que surgiu na final melhor do que tinha surgido em qualquer outra fase até então.
Como o próprio disse, com boa disposição, no final do encontro, “se respeitares demasiado o Ronnie, vais ser atropelado, e foi o que me aconteceu hoje”. Notou-se sempre a incapacidade de Wilson esquecer quem estava a enfrentar. Como tal, entrou muito mal na partida, saindo da primeira sessão a perder por 6-2.
Contudo, conforme Kyren afirmou após a derrota e conforme já o provou, o jovem inglês é “um lutador”. Na segunda sessão, foi o Kyren Wilson lutador que apareceu. Ainda assim, a qualidade de Ronnie esteve sempre nos píncaros e essa sessão terminou equilibrada, mas com vantagem para O´Sullivan (5-4).
Era vital que Wilson entrasse “a matar” na terceira sessão, já no domingo. Arrecadou o primeiro frame e fez sonhar. Fez sonhar os seus fãs e os fãs de Snooker que com um 10-8 no marcador acreditavam que o equilíbrio poderia vir a imperar na partida. Mas do outro lado estava um dos melhores de sempre.
E Ronnie deve ter percebido que o 10-8 significava que ainda poderia conseguir o seu resultado favorito no que toca a vitórias em finais do Campeonato do Mundo. É que Ronnie, nas cinco conquistas anteriores, havia vencido por 18-8 duas vezes: frente a Graeme Dott, em 2004, e frente a Ali Carter, em 2008.
Ronnie determinou então que era sua missão vencer oito frames consecutivos. Missão cumprida! Para mal de Kyren Wilson e da própria partida, Ronnie venceu os sete frames que sobejavam nessa penúltima sessão e foi para a quarta e última a precisar de um apenas para beijar e levantar o troféu de Campeão do Mundo.
Um quarto de hora. Foi sensivelmente deste tempo que necessitou o “Rocket” para fechar o encontro com um 18-8 pela terceira vez na sua grandiosa história, que começa a mesclar-se com a própria história do Snooker neste século XXI.
Terminou sem grande emoção, mas com o cavalheirismo e respeito do costume, a mais estranha edição do Campeonato do Mundo de Snooker. Não faltaram grandes momentos, momentos mais polémicos, momentos de tensão e emoção à flor da pele e do pano e, felizmente e ainda que apenas no primeiro e nos dois últimos dias, nem público faltou.
A final pecou pelo desnível – foi apenas a nona vez na história do Campeonato do Mundo em que o derrotado venceu menos de 10 frames -, mas saiu valorizada pelo fair-play e respeito mútuo bem patente nas palavras de ambos no final da partida, bem como pela presença inédita de Kyren Wilson. E, claro, pela conquista do Hexacampeonato pelo “Rocket” Ronald “Ronnie” O´Sullivan.
Ao cabo do Campeonato do Mundo, Ronnie O´Sullivan é agora o número dois do ranking mundial e Kyren Wilson o sexto. Para o ano há mais, esperemos que bem mais precocemente do que foi o caso este ano e que com a presença pelo segundo ano consecutivo do luso-suíço Alexander Ursenbacher, que se tornou este ano o terceiro luso-descendente a participar no Mundial de Snooker.
A FIGURA

Kyren Wilson – Podia estar aqui Anthony McGill, por exemplo. Tal como podia ter estado na final (de resto, o próprio Kyren disse isso mesmo). Mas não esteve. Quem esteve foi Kyren Wilson, pela primeira vez na sua jovem carreira (Wilson nasceu a 23 de dezembro de 1991; O´Sullivan em 1992… Tornou-se jogador profissional!). E é por isso, mas também por ter vencido Judd Trump, então campeão em título e agora número um do Mundo, pelo caminho, que está aqui Kyren Wilson.
Foi a Figura do Mundial, ainda que não tenha sido o grande campeão. Mas, lá chegará…
A DESILUSÃO
L’espressione di Shaun Murphy dice tutto: che errore per uno come lui! 😧
Domani dovrà ribaltare lo svantaggio di 6-3 contro Saengkham…#EurosportSNOOKER | @WeAreWST pic.twitter.com/HPlgZBeurq
— Eurosport IT (@Eurosport_IT) August 3, 2020
Shaun Murphy – Termina esta época na oitava posição do ranking, mas podia ter feito bem mais e melhor no Campeonato do Mundo. Caiu logo na primeira ronda, na qual era cabeça de série, perdendo por expressivos 10-4 frente a Noppon Saengkham, tailandês que entrou em competição no 38º posto do ranking, tendo saído seis posições acima.
A morte de um amigo próximo afetou, certamente, a preparação e o estado psicológico de Murphy, que esteve em Portugal para prestar condolências na semana de término das qualificações e início da prova principal. Ainda assim, exigia-se mais.
Artigo revisto por Joana Mendes













